Brasil, o que mais perde Infográfico sobre os 60 países alvos da tarifa de Trump sob alegação de trabalho forçado — Foto: Editoria de Arte O eterno alvo número um é a China, que se limitou a uma declaração do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, de que o país se opõe a todas as formas de tarifas unilaterais. No ano passado, o país foi o único a anunciar retaliação contra Washington, mas desta vez evitou comentar se a medida estava na mesa. No tradicional estilo de Pequim, a expectativa é que a negociação aconteça a portas fechadas no encontro previsto entre Trump e Xi Jinping em setembro. O Brasil se tornou o segundo mais taxado e também o que teve o maior salto tarifário no segundo mandato de Donald Trump. A tarifa efetiva (cálculo que leva em conta o impacto real considerando isenções) do Brasil subiu a 18,89%, de acordo com o Global Trade Alert (GTA), iniciativa suíça de monitoramento do comércio exterior. O salto foi de 17,7 pontos percentuais desde o fim do mandato de Joe Biden. No mesmo período, os produtos chineses tiveram aumento de 13,11 pontos percentuais. O Brasil foi um dos mais vocais ao rechaçar o anúncio e citar a possibilidade de usar a Lei de Reciprocidade. "O USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA, na sigla em inglês) optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais", afirmou o governo Lula em nota. No caso do Brasil, a alegação é que o país importa produtos de países onde há prática de trabalho forçado. Semana de tarifas em série O anúncio do tarifaço foi a "cereja do bolo" de uma semana de anúncios em série, que começou no dia 15, com a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e passou por taxa de 50% a determinados itens canadenses, incluiu sobretaxa de 100% sobre genéricos. A rigor, foi anunciada uma taxa a cada dois dias. Tarifas anunciadas por Trump na última semana — Foto: Editoria de Arte A União Europeia classificou o anúncio como uma "surpresa negativa" e afirmou que pedirá esclarecimentos a Washington. A chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, disse que as acusações não encontram respaldo nas leis e nas condições de trabalho europeias. "Se compararmos nossas leis trabalhistas com as dos Estados Unidos, temos férias remuneradas e condições de trabalho muito boas para nossos funcionários. Portanto, isso realmente não tem fundamento", afirmou Kallas à Reuters em um encontro da Asean. No Canadá, a resposta à nova rodada também foi moderada. A Câmara de Comércio do país afirmou que "não deveria ser alvo" e lembrou que o país lidera esforços contra a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Novas tarifas em vista O governo canadense, porém, está mais preocupado com as tarifas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares canadenses em importações, anunciadas por Trump na segunda-feira. A medida, específica para o país, foi proposta com base na Seção 338 da legislação comercial americana, uma autoridade que nunca havia sido utilizada. Essas tarifas atingiriam cerca de 5% das importações americanas provenientes do Canadá e entrariam em vigor em 19 de agosto. Após se reunir com autoridades locais, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou à BBC que "tudo está em aberto, dependendo do resultado das negociações". Mas o ímpeto tarifário parece longe de acabar. Mesmo que o assunto seja judicializado, há ainda outra investigação em curso que mira 16 parceiros comerciais, incluindo a China, alguns países asiáticos e a União Europeia, para o que o governo americano descreve como "excesso de capacidade", ou a produção acima do necessário de determinados produtos acabados. Ainda não há data para a entrada em vigor destas tarifas. Governo Trump já paneja nova tarifa sobre capacidade excedente de parceiros comerciais — Foto: Editoria de arte Amparo legal A base legal para taxar parceiros comerciais tem sido um desafio que o governo tem enfrentado com malabarismos. A Suprema Corte derrubou em fevereiro as tarifas com base na Lei de poder para emergência econômica internacional (IEEPA, na sigla em inglês). Ato contínuo, Trump recorreu à Seção 122, da Lei de Comércio de 1974, mas ela só permite a vigência da sobretaxa por 150 dias e também foi questionada. Com o tarifaço anunciado nesta quinta-feira, Trump acena com o uso da Seção 301 da mesma lei, sob argumento de ausência de medidas dos países para combater o trabalho forçado, foco de investigações feitas pelo USTR. Segundo especialistas, ao recorrer a essa legislação, o muro tarifário de Trump ganha mais robustez, pois os questionamentos teriam de ser direcionados a cada um dos 60 alvos, pois a sobretaxa toma como referência a investigação conduzida sobre cada economia. Em relatório citado pelo Financial Times, George Riddell, diretor-gerente da consultoria de comércio Goyder, afirma que o efeito prático do novo tarifaço é forçar disputas judiciais para cada economia. "Uma contestação bem-sucedida contra a medida aplicada a uma economia, à primeira vista, dificilmente anularia as tarifas impostas às outras 59", informa o relatório.