Governos de países que foram alvo das novas tarifas de 10% e 12,5% dos Estados Unidos criticaram a decisão do governo de Donald Trump, afirmando que as medidas são injustificadas e prejudicam o comércio global. Washington, por sua vez, alega que os parceiros comerciais sancionados não haviam aplicado de forma adequada uma proibição à entrada de produtos fabricados com trabalho forçado. O escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) passou quatro meses investigando os fundamentos para essas tarifas, a fim de cumprir as exigências legais previstas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974. O mesmo instrumento já havia sido usado no primeiro mandato de Trump à frente da Casa Branca para impor tarifas à China. As novas tarifas entraram em vigor justamente quando taxas temporárias impostas por Trump após uma dura derrota na Suprema Corte expiraram à 0h01 desta sexta-feira. A menor porcentagem, de 10%, foi imposta a países que, segundo os EUA, adotaram práticas para mitigar a entrada de produtos originados de trabalho escravo em seus territórios, enquanto a maior, de 12,5%, foi aplicada contra nações que não se esforçaram o suficiente para fazê-lo. Em resposta às taxas de 12,5% impostas, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que “se opõe a todas as formas de tarifas unilaterais”. “Guerras tarifárias e guerras comerciais não atendem aos interesses de nenhuma das partes”, disse o porta-voz do ministério, Lin Jian, em uma entrevista coletiva regular. Já a Comissão Europeia recebeu com mais cautela as novas tarifas impostas, afirmando que o resultado está em linha com um acordo comercial firmado entre as duas partes há um ano. “A UE avalia positivamente o fato de que esse resultado está em linha com os compromissos tarifários dos EUA acordados na Declaração Conjunta UE-EUA”, afirmou um porta-voz da Comissão Europeia, acrescentando que isso proporcionou um “impulso positivo” para dar continuidade ao trabalho de explorar novas isenções tarifárias e aprofundar a cooperação. Nos termos do acordo mencionado, o bloco europeu concordou em eliminar as tarifas de importação sobre produtos industriais dos EUA, enquanto Washington impôs tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos da UE. “Isso é essencial para continuar proporcionando aos nossos respectivos mercados a estabilidade e a previsibilidade tão necessárias”, prosseguiu o porta-voz. Kaja Kallas, chefe da política externa da União Europeia, por outro lado, questionou a posição americana em declarações à Channel News Asia. “Se compararmos nossas leis trabalhistas com as dos Estados Unidos, quero dizer, nós temos... as pessoas têm férias remuneradas, temos condições muito boas, condições de trabalho muito boas para nossos funcionários, então isso realmente não tem fundamento”, disse Kallas. Uma placa de pare em frente a contêineres no Porto de Long Beach, em Long Beach, Califórnia, EUA, em 11 de julho de 2025 — Foto: REUTERS/Daniel Cole/Foto de Arquivo Don Farrell, ministro do Comércio da Austrália, rejeitou de forma incisiva as alegações que associam o país, um grande exportador de carne bovina, ouro e cobre, à escravidão moderna e que elevaram a tarifa sobre suas exportações aos EUA de 10%, nível imposto após as medidas do “Dia da Libertação” de Trump no ano passado, para 12,5%. “Acreditamos que, entre todos os países do mundo, a Austrália de fato leva a sério a questão da escravidão, da escravidão moderna, e continuará fazendo isso”, disse Farrell a jornalistas em Adelaide. Segundo o ministro, a Austrália considera que as tarifas mais altas são “completamente injustificadas” e o país "continuará pressionando o Representante de Comércio dos Estados Unidos para que retire todas as tarifas sobre produtos australianos”. Na mesma linha, o primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, disse que as tarifas sobre seu país, também sujeito a uma taxa de importação de 12,5%, eram “extremamente decepcionantes”, injustificadas e prejudiciais ao comércio. “Tarifas não são o caminho — elas aumentam os custos e a incerteza para as empresas”, escreveu Luxon em publicação no X. Em Singapura, o Ministério do Comércio e Indústria afirmou que continuará negociando com Washington para buscar alternativas à tarifa de 12,5% imposta ao país e reiterou que não tolera o uso de trabalho forçado. O Japão também contestou a nova tarifa de 12,5%, argumentando que havia recebido garantias do governo Trump de que não seriam impostas novas taxas além das previstas em um acordo anterior, que estabeleceu uma tarifa americana de 10%. “Nosso entendimento é que os dois lados continuam comprometidos com isso”, disse o secretário-chefe do gabinete japonês, Minoru Kihara. Segundo ele, é “lamentável” que Washington tenha justificado a medida pela suposta falta de mecanismos contra produtos fabricados com trabalho forçado, uma vez que a indústria e o comércio japoneses seguem as regras internacionais. A Coreia do Sul, por sua vez, disse que manterá uma comunicação estreita com os Estados Unidos para preservar um “equilíbrio de benefícios” mútuo. A Coreia do Sul adotou um tom mais apaziguador e afirmou que manterá diálogo estreito com os Estados Unidos para preservar um “equilíbrio de benefícios” entre os dois países. O Ministério do Comércio sul-coreano avaliou que o anúncio reduziu parte das incertezas em torno da política comercial americana e disse que as tarifas combinadas sobre as exportações do país não devem superar 15%. A pasta sul-coreana observou, porém, que uma investigação com base na Seção 301 sobre uma suposta produção excedente da Coreia do Sul continua em andamento. A Tailândia, que também foi atingida pela tarifa de 12,5% relacionada ao trabalho forçado, ponderou que cerca de 2.120 produtos ficaram isentos da medida e que esses itens representam mais da metade do valor das exportações tailandesas para o território americano. De todo modo, Bangcoc acompanha ainda outra investigação de Washington, que envolve 16 países e trata de um suposto excesso estrutural de capacidade produtiva. O processo pode resultar em tarifas adicionais, mas os EUA ainda não anunciaram uma decisão.