O médico e escritor Drauzio Varella arrancou gargalhadas e aplausos do público da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na manhã desta sexta-feira (24), ao participar da mesa “água parada água parada água parando”, que dividiu com Carmen Stephan, autora alemã radicada na Bahia. Um exemplo: certa vez, o autor de “Estação Carandiru” (Companhia das Letras) disse para a sua esposa, Regina Braga, que tinha descoberto quem fora na vida passada. Médico, escritor e casado com uma atriz, ele só podia ter sido o escritor russo Anton Tchekhov! A anedota foi contada pela mediadora da conversa, a jornalista Laura Capelhuchnik. — Foi uma dessas brincadeiras que você faz em casa e acha que ninguém mais vai ouvir... Dá nisso — comentou o médico, bem-humorado. O debate entre o médico paulistano e a escritora alemã se deu em torno de dois livros que eles escreveram sobre doenças que os acometeram. Em 2007, Drauzio publicou “O médico doente” (Companhia das Letras), relato de sua experiência com a proximidade da morte após ter contraído febre amarela numa viagem à Amazônia há cerca de 20 anos. Já Carmen é autora de “Malária, um romance” (Tinta-da-China), ficção premiada que é narrada pelo mosquito transmissor. A autora também contraiu a doença tropical na Amazônia. Drauzio contou que a tal viagem à Amazônia tinha sido muito rápida, coisa de dois dias. O voo dele chegou a São Paulo ao amanhecer e, para aproveitar o dia, ele correu 12 quilômetros no Minhocão (o médico é maratonista, como se sabe) enquanto a esposa ainda dormia. Quando chegou todo suado em casa (era novembro), Regina estava acordando e, incrédula com a disposição do marido de se exercitar após passar a madrugada viajando, disparou: “Vai se foder”. E voltou a dormir. A plateia gargalhou. Os sintomas da febre amarela só apareceram dias depois, na quinta-feira. No sábado, já hospitalizado, o médico não tinha forças para levantar da cama. — Passar para o outro lado do balcão é péssimo. Péssimo! Primeiro que você é infantilizado. No hospital é assim: “estica o bracinho”, “vai tomar uma picadinha”. Você se sente um cretino, um idiota. Tanto esforço na vida para construir uma carreira e terminar assim? Imagina! Eu tinha 62 anos e um nome a zelar — disse o médico, para o deleite do público. Quando saiu o diagnóstico de febre amarela, Drauzio e a mulher tiveram reações opostas. Ela ficou aliviada por saber o que o marido tinha; ele teve a certeza de estar condenado à morte. — A Regina disse: “Que bom que descobriram que é febre amarela”. Na mesma hora, me veio a imagem de mim sangrando pelos olhos. Tive certeza de que eu ia morrer. Eu acompanhava os exames, via o ritmo de subida das enzimas hepáticas, estava acabando com meu fígado — contou o autor. — Eu já tinha visto a mesma coisa nos meus pacientes: quando a morte chega devagar, ela impõe a resignação. Vi doentes de aids na cadeia, morrendo na cela, mas sem desespero no olhar. O doutor, então, dedicou-se a fazer um balanço de sua vida: — Eu tinha 61 anos, tinha feito bastante coisa. Lembrei do Araújo, um carcereiro do Carandiru que perdeu três filhos ainda pequenos. Numa festa na casa dele, ele me disse: “A vida, doutor, sabendo levar, é uma festa”. Disse isso de forma tão filosófica. Um dia a festa acaba. Por isso que você tem que ter o direito de decidir como quer ir embora da festa, se quer sair bem ou bêbado e carregado — disse o médico, entre risadas e aplausos entusiasmados. Mosquito narrador Falando em português, Carmen Stephan contou que a leitura de “O médico doente” a inspirou a também escrever sobre a sua experiência com a malária. — Anotei no livro dele as minhas primeiras ideias para o meu. Mas só consegui escrever mesmo quando descobri que o narrador seria a fêmea do mosquito. Estava tudo lá — disse ela. — Meu corpo foi se lembrando da doença e a escrita se tornou muito física, como se eu tivesse feito uma maratona, mas sentada. Me senti febril, tive calafrios. A escritora alemã também comentou a relação ambígua de seu inseto narrador com a espécie humana, objetivo de afeto e deboche. — No começo, achei um pouco ridículo escrever o livro inteiro da perspectiva do mosquito, mas foi o único caminho que funcionou. Já que eu não estou conseguindo contar essa história, deixe essa voz da natureza contar, quero saber como ela vê o ser humano. Fui seguindo essa voz. A chave foi a confiança — afirmou. — Tem uma coisa íntima nessa relação, né? O mosquito voltando para a floresta com meu sangue e deixando parasitas dentro de mim. Meta 'imoral' e elogio ao SUS Quando a mesa já se encaminhava para o final, Drauzio foi provocado pela mediadora a comentar o uso criminoso de sua imagem em vídeos feitos com inteligência artificial para vender tratamentos de saúde questionáveis. — Os estelionatários trabalham em parceria com a Meta, que é a dona do Instagram e do Facebook. Eles pagam a Meta para divulgar os vídeos. É uma empresa imoral. Dez por cento do lucro dela vem de propaganda ilegal. Quem diz isso não sou eu, é um estudo da Reuters. Você entra em contato com eles e dizem “ah, é que são muitos vídeos subindo todos os dias”. Mas não sobem muitos vídeos no YouTube todo dia? No YouTube não tem isso. O YouTube tem ferramentas que a Meta não tem? A Meta é uma empresa que lucra com estelionatários. Drauzio também destacou a evolução da medicina desde que ele era criança, nos anos 1940, no bairro paulistano do Brás, e saudou o Sistema Único de Saúde: — O SUS é o maior sistema de saúde do mundo inteiro. Claro, é cheio de problemas e dificuldades, mas tem tudo de que precisa para funcionar. As gerações futuras têm que levar o SUS até as últimas consequências.