Com Brasil perto de ser o maior exportador agrícola, empresa precisa de mais foco estratégico para manter relevância 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O laboratório de nanotecnologia da Embrapa — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil Espinha dorsal da conversão do Brasil em grande produtor agrícola, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) passa por um período de inflexão. Desde a década de 1970, quando a estatal foi criada, a produtividade da agricultura brasileira mais que dobrou. Mas perdas de eficiência, falta de foco e orçamento em queda ameaçam sua capacidade de continuar servindo de base tecnológica para a expansão do agronegócio justamente quando o Brasil se posiciona para ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador de produtos agrícolas do mundo. A empresa padece da mesma distorção que existe em outras áreas do setor público: ter um plano de carreira muito curto, em que o pesquisador leva apenas de dez a 15 anos para atingir o topo. Tal arranjo termina desincentivando o trabalho na inovação. Essa estrutura também dificulta a contratação de especialistas em análises de grandes bases de dados e em inteligência artificial (IA). Além disso, a Embrapa precisa de um sistema de avaliação de desempenho mais eficaz. Algumas dessas conclusões fazem parte do relatório “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, produzido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas Estratégicas e Desenvolvimento. O estudo chama a atenção para a falta de recursos. O orçamento total de manutenção dos laboratórios, de campos experimentais e infraestrutura caiu de R$ 633 milhões em 2011 para R$ 299 milhões no ano passado. Nas verbas destinadas às pesquisas, a redução foi mais drástica: de R$ 400 milhões em 2010 para apenas R$ 65 milhões em 2024. Mas engana-se quem diz que o problema se resume a dinheiro. A Embrapa precisa de mais foco estratégico. A diversificação que no passado permitiu avanços em várias áreas é hoje um problema por diluir recursos. É preciso diminuir o escopo. A descentralização carece de coordenação adequada. Também não há uma estratégia definida para o uso de tecnologias como a IA. Material não falta. Glaucia Maria Pastore, pesquisadora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, diz que a Embrapa tem o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores do mundo. Seu banco genético vegetal conta com quase 126 mil amostras de mais de 1.200 espécies. Um estudo recente feito por pesquisadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, MIT e as universidades Princeton e Notre Dame analisou a trajetória da Embrapa desde 1973. A conclusão é que a empresa fez um trabalho exemplar na adaptação de sementes ao tipo de solo do país e no desenvolvimento de técnicas de cultivo, entre outros projetos bem-sucedidos. Por isso é possível dividir a história da agricultura no Brasil entre antes e depois da Embrapa. No cultivo de milho, trigo e arroz, registra o estudo, a produtividade praticamente não se alterara entre 1950 e 1970. Na cana-de-açúcar, era metade da americana. Para garantir que a Embrapa continue contribuindo, é preciso fazer um ajuste estrutural e aumentar o orçamento.