Ticle, da Minerva: diversificação é estratégia para compensar eventuais restrições a exportações brasileiras — Foto: Divulgação Mesmo com vendas recordes nos cinco primeiros meses deste ano — 1,36 milhão de toneladas, 14,4% a mais do que em igual período do ano passado —, os exportadores brasileiros de carne bovina correm contra o tempo e buscam ações para mitigar os eventuais impactos que possam atingir o setor, já a partir de julho, com a limitação adotada pela China e a restrição total imposta pela União Europeia (UE) para importação da proteína bovina nacional. O receio é que as restrições tarifárias e sanitárias impostas pela China e UE causem uma queda de 5% a 10% nas exportações brasileiras em 2026. A diversificação de mercados e a abertura contínua de novos destinos são as estratégias para enfrentar desafios de curto prazo do setor, afirma Renato Costa, presidente da Friboi, marca da processadora de carne bovina da JBS Brasil. Um dos motores do crescimento das operações do grupo em todo o mundo (receita líquida de US$ 86 bilhões em 2025), a JBS Brasil registrou receita líquida recorde no primeiro trimestre deste ano em torno de US$ 3,78 bilhões, impulsionada por volumes fortes de vendas de carne bovina no exterior. A Friboi considera que as questões relacionadas a cotas, tarifas, exigências sanitárias e fatores políticos podem gerar ajustes temporários nos fluxos de comércio internacional. Contudo, observa Costa, a empresa está preparada para sustentar o atual ritmo de crescimento, mantendo flexibilidade operacional. “As 34 fábricas no país têm capacidade imediata de expandir a produção atual em até 15% sem qualquer necessidade de novos investimentos, somente ativando segundos turnos em partes das plantas.” Uma das maiores exportadoras de carne bovina da América do Sul, a Minerva Foods também começou 2026 com desempenho sólido em suas operações no exterior, informa Edison Ticle, chief financial officer (CFO) da empresa. Nos três primeiros meses de 2026, registrou uma receita bruta de R$ 14,5 bilhões, um aumento de 21,3% sobre o mesmo período em 2025. As exportações responderam por 55% do faturamento, evidenciando o peso do mercado internacional no negócio, salienta o executivo. “É possível que as exportações brasileiras apresentem alguma oscilação e acomodação ao longo do ano, em função de restrições específicas em determinados mercados, especialmente a China”, comenta Ticle. Segundo ele, a volatilidade dos mercados e as tensões geopolíticas do momento são desafios importantes, mas a empresa tem ainda um semestre inteiro para avançar: “A nossa estratégia de diversificação nos permite compensar eventuais restrições, por meio de realocação de volumes entre países e destinos, o que contribui para mitigar impactos decorrentes de limitações específicas ao Brasil”. Atualmente, a Minerva Foods opera em diferentes países da América do Sul e atende a mais de cem destinos ao redor do mundo. “Seguimos observando uma demanda consistente em diversos mercados, como os Estados Unidos, Oriente Médio e outros países do Sudeste Asiático”, afirma. — Foto: Arte/Valor A perspectiva de maiores dificuldades no mercado mundial em 2026 interrompe o ciclo de otimismo com o desempenho das exportações brasileiras nos últimos anos. Em 2025, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de carne bovina, superando os Estados Unidos, atingindo a produção de aproximadamente 12,6 milhões de toneladas/ano, ante 11,8 milhões de toneladas dos pecuaristas norte-americanos. “Trata-se de um resultado que consolidou a trajetória de crescimento consistente do Brasil nos últimos dez anos”, aponta Rodrigo Alves Cappellin, sócio do escritório Martinelli Advogados, que presta serviços de consultoria jurídica ao setor. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) indicam que a produção brasileira saltou de 9,4 milhões de toneladas em 2016 para os atuais 12,6 milhões, um crescimento de 32% em dez anos. “São números que contêm não apenas volumes, mas também traços expressivos de eficiência produtiva”, analisa Cappellin. Em 2025, as exportações brasileiras de carne bovina alcançaram 3,1 milhões de toneladas, das quais 1,7 milhão de toneladas tiveram a China como destino, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Nos cinco primeiros meses de 2026, o Brasil exportou um total de 1,36 milhão de toneladas de carne bovina, o maior volume já registrado para o período, segundo levantamento da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Os Estados Unidos se colocam ainda como um grande mercado potencial para a carne brasileira, destaca Roberto Perosa, presidente da Abiec. Mesmo tendo atingido a cota de importação já no início deste ano e com tarifa de 26,4% incidindo sobre os embarques nos meses seguintes, a expectativa da Abiec para o mercado norte-americano é de um volume relevante em 2026, na casa de 400 mil toneladas, ante 270 mil toneladas no ano passado. “Temos muito a crescer nos Estados Unidos”, diz. “Lá existe um déficit estrutural entre produção e consumo, estimado em cerca de 1,5 milhão de toneladas.” Mas esse crescimento, de maneira geral, não deve se sustentar em todo o setor exportador nacional, devido à queda das vendas para a China, que deverá ocorrer a partir de julho, receia Paulo Mustefaga, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que reúne frigoríficos e sindicatos da indústria de carne do país. Motivos não faltam. Em dezembro de 2025, o governo chinês emitiu o Comunicado nº 87/2025, trazendo medidas de salvaguarda para a carne bovina importada de outros países. A justificativa para as cotas de importação foi preservar a produção nacional, aumentar a rentabilidade do rebanho local e a autossuficiência alimentar diante do aumento da quantidade de carne importada. Costa, da Friboi: abertura contínua de novos destinos para enfrentar desafios do setor — Foto: Paulo Vitale/Divulgação Para o Brasil, o limite imposto é de 1,1 milhão de toneladas por ano. Caso ocorram excedentes, será aplicada uma sobretaxa de 55% para o comprador. Até abril de 2026 foram exportadas 474 mil toneladas, uma queda já bastante acentuada em relação ao total alcançado no ano passado, de 1,7 milhão de toneladas. Para os pecuaristas do Estado do Mato Grosso, responsável por 15% do rebanho bovino nacional (34,4 milhões de animais), trata-se de um rude golpe. Dificilmente, o Estado atingirá volumes de exportações semelhante ao do ano passado, estima Daniel Latorraca, diretor-executivo da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat). Segundo ele, o ritmo do primeiro semestre desse ano será mais difícil de manter devido a dois fatores: toda aceleração que houve dos exportadores para cumprir a cota estabelecida pelo governo chinês o quanto antes nesses primeiros seis meses do ano e a redução de 3,67% no tamanho do rebanho bovino de Mato Grosso. “Abatemos cerca de três milhões de cabeças até maio, 4% a mais que no mesmo período do ano passado, por isso teremos menos animais disponíveis para exportação.” Outro complicador para o bom desempenho da pecuária nacional, segundo os empresários, chega com a decisão da União Europeia (UE) de suspensão de importação de carne brasileira a partir de setembro de 2026. Segundo o bloco, o Brasil não forneceu informações suficientes que garantam que o país aplicou as medidas necessárias para assegurar o cumprimento das regras europeias para o uso de antimicrobianos na pecuária. “Com essas medidas, o que a UE quer é uma camada a mais de proteção de que os animais criados no Brasil possuem um uso controlado e adequado desses medicamentos e tenta introduzir regras regulatórias e sanitárias parecidas com as estabelecidas em seu mercado interno”, diz Cappellin, do Martinelli Advogados. Os pecuaristas do Mato Grosso estão inconformados com essas exigências da UE e dizem que há riscos de aumento de custos de produção e perda de produtividade no campo. “Os antimicrobianos utilizados no Brasil são validados pelo Codex Alimentarius, e observamos rigorosamente o limite máximo de resíduos”, garante Latorraca, da Acrimat. “Certamente haverá aumento de custos por perda de desempenho, e isso terá como contrapartida o aumento do preço aos compradores.” Na visão de empresários e especialistas no setor, o aumento das exigências regulatórias internacionais demonstra que a competitividade futura da pecuária não dependerá apenas de preço e escala, mas também de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade regulatória. Para tanto, é preciso seguir avançando na rastreabilidade individual de bovino, o que o setor está fazendo agora com o desenvolvimento do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Pnib), lançado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, informa Rafael Ribeiro, assesssor técnico da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Perosa, da Abiec: Estados Unidos têm déficit de carne e oportunidade para o Brasil — Foto: Rodrigo Pertoti/Divulgação Ticle, da Minerva Foods, considera que o principal desafio agora é navegar em um ambiente global marcado por elevada volatilidade. É um novo cenário que combina fatores geopolíticos, mudanças regulatórias, barreiras comerciais e oscilações nos fluxos de comércio internacional. A abertura de novos mercados e a ampliação da distribuição para novos parceiros econômicos é a melhor estratégia para o momento, considera Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). “O mercado americano, por exemplo, é relevante para a carne bovina brasileira, mas é importante reduzir a dependência de poucos compradores e diversificar os destinos das exportações.” Mas nada de rupturas abruptas de acesso a mercados, aconselha Giovana Araújo, sócia-líder de agronegócio da KPMG no Brasil. Além de preservar o fluxo de demanda da Ásia, especialmente da China, e manter e recuperar o acesso aos mercados premium, como a UE, por exemplo, os exportadores brasileiros precisam garantir regras de transição e capacidade de comprovação da carne bovina do país. “Para isso, será fundamental avançar em rastreabilidade, governança de dados, evidências sanitárias e conformidade socioambiental ao longo da cadeia.”
Pecuária redesenha estratégia de exportação
Produtores tentam abrir novos mercados para compensar a esperada perda de vendas de carne para a China e União Europeia









