Estudo da Embrapa deve dar origem a uma calculadora capaz de medir emissões e fortalecer a competitividade das exportações Lina Frutas, que produz uva e manga em Santa Maria da Boa Vista (PE), fez inventário de carbono — Foto: Divulgação Principal polo fruticultor exportador do Brasil, responsável por cerca de 90% das exportações brasileiras de manga e 98% das exportações de uva fresca, o Vale do São Francisco está se preparando para se tornar carbono neutro, inaugurando uma tendência que deve se espalhar também entre produtores de outras regiões do Brasil. A Embrapa Semiárido, sediada em Petrolina (PE), está concluindo a primeira pesquisa sobre as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da produção de uva de mesa na região, iniciada em 2023, o que deve dar as bases para a criação de uma calculadora de carbono voltada aos produtores. No início de julho, os estudos entraram em uma nova fase, para abarcar outras três culturas: lima ácida (comercializada como limão-taiti), melão e castanha de caju. Diana Signor, pesquisadora da Embrapa Semiárido à frente do projeto, explica que os produtores começaram a se interessar por padrões ligados a impactos ambientais motivados por demandas dos compradores, especialmente de países da União Europeia — a expectativa é que a baixa emissão se torne um requisito para as exportações. Os dados da pesquisa envolvendo a pegada de carbono da produção de uvas estão sendo finalizados, mas a pesquisadora adianta que os resultados são animadores e apontam para números melhores que os estipulados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU). Um dos achados diz respeito às emissões de óxido nitroso (N2O), um dos GEEs mais potentes, com um potencial de aquecimento global cerca de 300 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO2). Signor diz que a adubação parcelada — várias aplicações de fertilizantes ao longo do ciclo da planta — tem contribuído para o menor escape do gás na atmosfera. O IPCC postula um fator de emissão de 1% para solos agrícolas. São três culturas importantes para a região Nordeste, além da uva do Vale do São Francisco: o caju e o melão, cuja produção está concentrada no Ceará e Rio Grande do Norte, e a lima ácida, na região do Recôncavo baiano. Num futuro breve, os resultados dos estudos da Embrapa Semiárido devem embasar a criação de um selo de baixa emissão de carbono, a exemplo do que já acontece no Brasil para carne e leite e está em andamento para a soja — será um diferencial competitivo para acessar mercados mais exigentes. Um exemplo desse movimento é a Fazenda Lina Frutas, localizada em Santa Maria da Boa Vista (PE), uma das pioneiras no Vale do São Francisco na medição dos GEEs, a partir de um protocolo para a Caatinga desenvolvido pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A produtora concluiu seu primeiro inventário de emissões, referente a 2023, mapeando as fontes de carbono associadas à operação. O levantamento contabilizou 104,8 mil toneladas de CO2 equivalente (tCO2e). O diagnóstico evidenciou a capacidade da fazenda de remover carbono da atmosfera. Além dos 110 hectares de cultivo de uva e manga, a propriedade mantém 487,3 hectares de vegetação nativa, que corresponde à reserva legal e áreas de preservação permanente, cujas plantas e solos também funcionam como reservatórios de carbono. Somados, esses estoques resultaram em um balanço líquido negativo de aproximadamente 4 mil tCO2e. Garcia, da certificadora QIMA: nova certificação mede a evolução de regeneração ambiental — Foto: Divulgação Para Priscilla Nasrallah, sócia-proprietária na Lina Frutas, a experiência aponta para um potencial que pode fazer diferença em toda a fruticultura brasileira. “Além do Vale do São Francisco, há potencial em cadeias como as de abacate, em Minas Gerais, e de limão, no interior de São Paulo e Bahia, e até para a maçã produzida no Sul”, diz Nasrallah, que também é diretora de ESG da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). A entidade lançou em 2025 o selo Frutas do Brasil ESG, uma certificação alinhada ao CSRD, diretiva da União Europeia que obriga grandes empresas a divulgar relatórios detalhados sobre seus impactos e riscos ambientais, sociais e de governança (ESG), e prevê critérios de conformidade e auditorias anuais. Nasrallah conta que a certificação tem sido sugerida como um diferencial para os fruticultores nacionais, diante de um possível aumento da demanda por esses requisitos em virtude do acordo União Europeia-Mercosul. Recém-lançada na feira Bio Brazil 2026, em junho, a norma Regenera For Farm&Livestock também visa atender produtores rurais que queiram comprovar o modelo de agricultura regenerativa, com foco na saúde do solo e do sistema produtivo. Diferentemente de outras certificações socioambientais, que avaliam condutas no campo, a norma Regenera mede a evolução dos indicadores de regeneração, relacionados a estoque de carbono orgânico no solo, percentual de hábitat nativo preservado e georreferenciado e biodiversidade funcional (inclui fauna, flora e biologia do solo). De acordo com Álvaro Garcia, gerente estratégico de novos negócios da certificadora QIMA, a norma foi construída no Brasil, a partir da realidade da agricultura tropical, e tem sinergia com as estratégias de redução de emissões de carbono no campo já praticadas pela fruticultura, como a redução do uso de agrotóxicos, a priorização do controle biológico e a cobertura das entrelinhas com matéria orgânica. Também traz critérios para a gestão da água. “Isso é particularmente relevante para melão e banana nas regiões com escassez hídrica, pois a norma exige monitoramento do volume consumido, outorga regularizada e que incentiva planos de eficiência”, diz Garcia. O projeto-piloto foi feito com a cultura do café, por um produtor de Carmo da Mata (MG), setor que vem sendo bastante demandado em relação a práticas regenerativas.
Fruticultura entra na era do carbono
Estudo da Embrapa deve dar origem a uma calculadora capaz de medir emissões e fortalecer a competitividade das exportações






