Organizações de referência em pesquisa operam com forte participação de recursos públicos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Plantação de milho e silos na cidade de Sorriso (MT) — Foto: Nilani Goettems/Valor Em períodos eleitorais, o debate público tende a se voltar para o futuro do país. Na agricultura brasileira, ganham relevância prioridades nacionais para o desenvolvimento sustentável, com uma agenda decisiva: a capacidade do país de manter investimentos em ciência e inovação para sustentar sua produção nas próximas décadas. Os desafios mudaram de escala. A agricultura terá de usar melhor água, solo, fertilizantes, energia e biodiversidade. Deve desenvolver bioinsumos, incorporar inteligência artificial e integrar saúde humana, animal e ambiental. Tudo isso num contexto de mudança do clima e instabilidade internacional, com guerras, exigências de importadores e tarifas impostas. Nesse cenário, a Embrapa oferece à sociedade e aos candidatos a cargos do Executivo e do Legislativo a Agenda Estratégica para a Agricultura do Brasil, estudo que reúne os principais desafios científicos, tecnológicos e institucionais para as próximas décadas. Disponível no site da Embrapa (embrapa.br), o documento reafirma que a ciência precisa ser tratada como política de Estado e peça-chave para a soberania e o desenvolvimento. O movimento também pressupõe reflexão sobre o financiamento da pesquisa. É correto afirmar que instituições públicas devem aperfeiçoar sua gestão, estabelecer prioridades e demonstrar resultados. Entretanto é igualmente importante reconhecer que a pesquisa depende de financiamento permanente. A experiência internacional mostra que organizações de referência em pesquisa operam com forte participação de recursos públicos porque desenvolvem tecnologias de elevado risco, com longos ciclos de maturação e benefícios que extrapolam os retornos privados, mas têm alto impacto para a sociedade. Reconhecer dificuldades ajuda a situar o debate. Isso não significa que a pesquisa deva depender exclusivamente do Orçamento federal. Ao contrário, um dos movimentos mais relevantes da Embrapa tem sido a busca por maior diversificação de financiamento. Nos últimos anos, o orçamento público da Empresa aumentou 140%, atingindo R$ 602 milhões para pesquisa em 2026. De forma complementar, a Embrapa captou R$ 218 milhões no último ano, de fontes privadas e públicas, o que permitiu executar atividades de 1.064 projetos. Cresceu também a captação de royalties pelo uso de suas tecnologias, com aumento de 42% entre 2022 e 2025. Ao mesmo tempo, a revisão do planejamento, a reorganização de portfólios de projetos e a redefinição do foco de 43 centros mostram maior orquestração de esforços. Temas como adaptação e resiliência às mudanças climáticas, fertilizantes, bioinsumos, bioeconomia, edição gênica, agricultura digital, inteligência artificial e saúde única ocupam posição central na agenda. Foram contratados centenas de pesquisadores e analistas dessas áreas no mais recente concurso. Mesmo com enormes desafios, a Embrapa segue reconhecida por conquistas de impacto. De 2010 a 2025, a Empresa desenvolveu quase 60 bioinsumos, entre bioinseticidas, biopesticidas, inoculantes e solubilizadores. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático consolidou-se no crédito rural, gerando economia anual de R$ 4 bilhões. A trajetória e os resultados demonstram que a Embrapa permanece capaz de cumprir sua missão e de inovar. Ao oferecer sua Agenda Estratégica aos candidatos, reafirma que o futuro da agricultura depende menos de respostas conjunturais e mais de visão de longo prazo. Ciência, inovação e desenvolvimento exigem continuidade institucional, estabilidade de financiamento e prioridades claras. A Embrapa reconhece seus desafios e continuará assumindo as responsabilidades inerentes às decisões que orientam a pesquisa agropecuária brasileira. *Silvia Massruhá é presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)