Vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação 2025, a pesquisadora defende mais investimentos em pesquisa e alerta para a importância da ciência diante dos desafios da agricultura brasileira Mariângela Hungria, engenheira agrônoma: fertilizantes biológicos poderiam atender a 50% do mercado no Brasil — Foto: Ana Paula Paiva/Valor Vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação 2025, considerado o Prêmio Nobel da agricultura. Apontada pela revista Time em 2026 como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Não falta autoridade à engenheira agrônoma Mariângela Hungria para fazer um alerta ao país: “A ciência precisa voltar a ser ouvida”. Reconhecida pelo desenvolvimento de bactérias fixadoras de nitrogênio no solo, capazes de substituir total ou parcialmente os fertilizantes sintéticos, a pesquisadora da Embrapa e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) acredita que o conhecimento científico perdeu espaço na tomada de decisões no país. “A velocidade da ciência é grande e o investimento tem diminuído a cada ano”, diz. Isso pode fazer o agro brasileiro perder espaço e levar o país à condição de importador de alimentos no futuro. Em entrevista ao Valor, Hungria, que é doutora em ciência do solo, fala sobre pesquisa, inovação e os desafios da agricultura sustentável. Quais são os principais desafios da agricultura no Brasil hoje?Temos desafios enormes para superar, principalmente desafios climáticos. Vamos ter de reaprender a produzir, porque em algumas regiões não será mais possível a produção de alimentos. Há áreas no Nordeste que podem se tornar impraticáveis para a agricultura. Vamos ter que fazer toda uma engenharia para essa nova agricultura e precisamos de muita ciência para isso. Temos de investir muito em zoneamento climático, no desenvolvimento de plantas mais resistentes à seca e ao calor, em treinamento de recursos humanos e em equipar laboratórios. Ou podemos deixar de exportar tecnologia em agricultura tropical para sermos importadores de alimentos. Qual seria o impacto desse cenário?É uma questão de soberania. Há dez anos, a importação de fertilizantes aqui no Brasil era em média 65%. Porque era mais barato importar, as indústrias nacionais de fertilizantes foram desmanteladas e a importação aumentou para 85%. Neste ano, ficou todo mundo desesperado porque estava tudo preso no Estreito de Ormuz [N.R.: antes de fevereiro de 2026, passavam regularmente pelo Estreito de Ormuz 33% do fertilizante e 20% do gás natural — insumo para fertilizante — exportados globalmente]. Já ficamos desesperados com a covid, com a Guerra da Ucrânia. Você pega a soja, nossa principal commodity: 80% das sementes estão na mão de uma única empresa estrangeira de melhoramento. Se amanhã, essa empresa falar “não”, como ficamos? Os riscos são evidentes e a pesquisa aponta tantas soluções. O problema é que a ciência é pouco ouvida. Dá para mudar essa cultura?Em muitas oportunidades [na história recente do Brasil] a ciência foi ouvida. Na montagem de leis, como o Código Florestal Brasileiro, entre outras. Mas, de repente, houve uma politização, formaram-se dois grupos, e ouvir a ciência está [como característica] em um desses grupos. Fiquei surpresa. Não sei por quê, mas é o que é. Tomara que não seja irreversível. Qual é o panorama da agricultura sustentável hoje no Brasil?Vejo uma conscientização crescente com esse tema em todos os segmentos. É claro que existem maus agricultores que ainda não acreditam na importância da sustentabilidade e nos efeitos de longo prazo em não respeitar esses princípios. E isso prejudica a maioria dos produtores. Quais são os principais desafios para a implementação de boas práticas de sustentabilidade no agronegócio hoje?No médio e longo prazos, os bons agricultores vão ser compensados pelo mercado internacional. Nós temos o Programa de Soja de Baixo Carbono, que vai ser uma certificação voluntária. Vários mercados já dão preferência a essas certificações. Mesmo os Estados Unidos, que nunca deram muita atenção a isso, agora argumentam: “Ah, não, isso veio de área desmatada”. Então, independentemente da nossa legislação, aqueles que já tiverem certificações internacionalmente aceitas vão sair na frente. Mariângela Hungria: "Em algumas regiões não será mais possível a produção de alimentos" — Foto: Ana Paula Paiva/Valor Quais são as principais vantagens dos fertilizantes biológicos?O primeiro seria você reduzir o uso de químicos poluentes que atingem lagos, rios, lençóis freáticos. O segundo seria reduzir toda a emissão de gases de efeito estufa na cadeia produtiva desses fertilizantes, desde a fabricação até o transporte por navio e caminhão. Em terceiro, é o preço, porque é uma tecnologia desenvolvida com base na nossa biodiversidade. O Brasil tem cerca de 20% de toda a biodiversidade do planeta. Olha quantas soluções poderiam ser desenvolvidas, criando uma indústria a partir disso, para gerar empregos, criar valor para toda a sociedade. Qual o potencial para o uso de fertilizantes biológicos no mercado brasileiro? Hoje, somos líderes globais no uso de biológicos, mas eles representam apenas 10% em relação aos químicos. É pouco. Temos soluções prontas na prateleira, validadas em pesquisa, que poderiam subir essa participação rapidamente para 40% ou 50%. Podemos chegar a 90%? Seria razoável, mas é preciso investir em ciência e tecnologia para ter essa escala. Mas ir de 10% para 50% em cinco anos já seria um salto fantástico. Se podemos crescer rapidamente nessa área, por que isso não acontece?Um dos maiores limitantes é a indústria. Não que ela seja culpada. Ela precisa do lucro e quer atender a grandes culturas. Só na fixação biológica, temos mais de 80 culturas disponíveis para ela produzir sem custo, mas não se interessa, porque não há escala econômica em pacotes pequenos para pequenos agricultores. A embalagem fica mais cara que o produto. No ano passado, começamos o primeiro acordo técnico-científico com uma cooperativa de médios e pequenos agricultores, comprometidos com diversidade de culturas, produzindo embalagens menores. E, se der certo, acho que pode haver interesse de outras cooperativas em difundir isso em outras regiões. Dá para vencer o desafio da escala no uso das práticas sustentáveis?Temos que começar a ver a agricultura como um ecossistema. Veja a soja, por exemplo. Ela não tem polinização cruzada, por isso achava-se que as abelhas não tinham função nessa cultura. Mas hoje sabe-se que elas podem aumentar em 10% a 15% a produtividade dessa lavoura. Só que para o grande agricultor muitas vezes não é viável criar abelhas. Então, há produtores de Mato Grosso treinando pequenos agricultores em apicultura. Esses pequenos produtores ficam com o mel, as abelhas aumentam a produtividade da soja e o grande fazendeiro se abastece de legumes e verduras sem precisar buscar esses produtos em outras regiões. A lavoura fica mais produtiva e a comida dos funcionários da grande fazenda fica mais barata e mais adaptada ao gosto local. O que mudou na sua rotina com o reconhecimento do Prêmio Mundial da Alimentação? Foi uma revolução na minha vida. Achei que ia acalmar em dois ou três meses, mas não. O trabalho no laboratório está acumulado, os estudantes reclamam atenção, mas também é uma oportunidade de divulgar a ciência e o papel das mulheres na pesquisa. Então procuro dar o meu melhor. É uma chance de dizer ao mundo: o Brasil está buscando sustentabilidade, mais do que qualquer país que eu conheça.
‘A ciência precisa voltar a ser ouvida’, diz Mariângela Hungria
Vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação 2025, a pesquisadora defende mais investimentos em pesquisa e alerta para a importância da ciência diante dos desafios da agricultura brasileira













