Empresas transformam pesquisa em variedades adaptadas às diferentes regiões e levam inovação aos produtores Unidade de beneficiamento de sementes de soja, que realiza controle de qualidade das sementes — Foto: Divulgação Os multiplicadores de sementes vêm se consolidando como um elo estratégico entre as empresas de biotecnologia e o produtor rural. São eles que licenciam a genética desenvolvida pela indústria, multiplicam as cultivares em escala comercial, realizam o controle de qualidade e distribuem sementes certificadas aos produtores. “Os sementeiros fazem a conexão entre a pesquisa e o agricultor, levando inovação ao campo com segurança e qualidade”, afirma André Schwening, presidente da Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil (Amssoja Brasil), entidade que reúne 46 empresas do setor. Levantamento da consultoria Céleres mostra que o país reúne cerca de 260 multiplicadores de sementes entre empresas privadas, cooperativas e companhias de genética que também produzem parte de suas cultivares. O crescimento do setor acompanhou a expansão da soja e da biotecnologia no país. Desde o início dos anos 2000, a participação da produção de soja com o uso de sementes certificadas passou de 30% para 44% da produção total da oleaginosa. A soja concentra a maior parte dos investimentos, embora o uso da biotecnologia também avance em culturas como milho, trigo, feijão, sorgo e forrageiras. O Brasil cultiva 48,6 milhões de hectares da oleaginosa e lidera as exportações globais. Em 2026, os embarques deverão alcançar 113,6 milhões de toneladas, recorde histórico, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). O mercado brasileiro de sementes certificadas de soja deverá movimentar R$ 24,7 bilhões na safra 2026/2027, estima a Céleres. Todos os anos, cada indústria de biotecnologia lança uma média de dez novas bases genéticas de soja. Elas dão origem, pelas mãos dos multiplicadores, a aproximadamente 450 sementes certificadas, adaptadas às diferentes regiões produtoras. “Nas últimas três décadas, o melhoramento genético elevou a produtividade média da soja em cerca de 2% ao ano”, afirma Carlos Hentschke, presidente da Syngenta Seeds Brasil. Segundo ele, sementes certificadas proporcionam ganho médio de quatro sacas por hectare, cerca de 7% acima das lavouras cultivadas com materiais convencionais. Para Manoela Bertagnolli, diretora da Sementes Butiá, de Passo Fundo (RS), a atuação dos multiplicadores vai além da comercialização. “Cada cultivar exige manejo específico, que pode levar anos para ser desenvolvido. Por meio de assistência técnica e treinamentos, orientamos o produtor rural para que a nossa tecnologia entregue todo o potencial de produtividade.” Christian Pflug, líder de licenciamento da Corteva Agriscience para Brasil e Paraguai, afirma que a adaptação regional é um dos diferenciais do setor. “Os multiplicadores permitem que cada semente chegue ao ambiente para o qual foi desenvolvida, com escala e capilaridade.” A companhia registrou aproximadamente US$ 9,9 bilhões em vendas globais de sementes em 2025, sendo US$ 1,6 bilhão na América Latina. Bertagnolli, da Sementes Butiá: produtores que optam por sementes irregulares perdem produtividade — Foto: Divulgação Um dos entraves ao avanço do setor está na informalidade. A CropLife Brasil mostra que 11% das sementes de soja utilizadas no país são de origem pirata — comercializadas sem o respeito aos direitos da propriedade intelectual, que são detidos por quem desenvolveu a cultivar. O montante equivale à área plantada de Mato Grosso do Sul, gerando perdas de produtividade estimadas em cerca de R$ 10 bilhões por ano. Outro desafio é a utilização indevida de sementes salvas. A legislação autoriza o produtor a reservar parte da colheita para uso próprio no plantio da safra seguinte, mas proíbe sua comercialização quando se trata de cultivares protegidas. Na prática, o que acontece é que alguns produtores vendem o excedente de sementes salvas. “A informalidade reduz o retorno dos investimentos em pesquisa e enfraquece o sistema de inovação”, afirma Schwening. O desafio, diz, é fazer com que o agricultor reconheça e remunere o valor da genética que impulsionou a produtividade nas últimas décadas. “Caso contrário, toda cadeia corre o risco de enfraquecer, como aconteceu na Argentina.” No Rio Grande do Sul, onde cerca de 55% dos produtores utilizam sementes salvas ou irregulares, o problema é ainda mais crítico. “Muitos recorrem a essa alternativa por dificuldades financeiras, mas acabam perdendo produtividade, qualidade e acesso às tecnologias mais recentes”, diz Bertagnolli. Apesar do recorde esperado para a área de soja na safra 2026/2027, estimada em 49,6 milhões de hectares pela consultoria AgRural, o crescimento de 0,9% será o menor em duas décadas, refletindo a menor rentabilidade da atividade e a cautela dos produtores diante dos riscos climáticos associados ao El Niño. “Margens de lucro mais apertadas, crédito restrito, alto custo de produção e maior endividamento limitam o potencial de expansão”, pontua o presidente da Amssoja. A esse panorama, Schwening acrescenta outro fator preocupante: a entrada de novos players movidos por uma lógica de curto prazo e com perfil predominantemente especulativo. Nesse ambiente mais fragmentado, a competição tende a se deslocar da escala para a capacidade de oferecer serviços, automação, melhor gestão e profissionalização. “A semente representa cerca de 17% do custo da lavoura. O diferencial passa a ser a entrega de soluções integradas e personalizadas”, afirma Marino Colpo, CEO da Boa Safra, líder do setor, com cerca de 10% de market share. Na avaliação de Pflug, da Corteva, produtos com certificação, rastreabilidade e adaptação regional devem ganhar peso à medida que compradores internacionais ampliam as exigências de sustentabilidade e qualidade.