Juros ainda em patamares restritivos, custos elevados, crédito rural mais escasso e preços de commodities agrícolas em baixa, além da possibilidade de um super El Niño, que altera o regime de chuvas e provoca seca. Esse cenário traz riscos para o agro brasileiro, que será pressionado a buscar mais eficiência, além de escapar da crise financeira que levou muitas empresas do setor à recuperação judicial. — A eficiência deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma condição para manter a rentabilidade no agro — diz Sheilla Albuquerque, CEO da Vitalforce, empresa especializada na produção de bioinsumos, que buscam uma agricultura mais sustentável e produtiva. Ela explica também o projeto do desenvolvimento de bioinsumos baseados em RNA de Interferência (RNAi), tecnologia que foi usada em vacinas contra a Covid. A Vitalforce é controlada pelo Grupo Lwart, de São Paulo, que atua em soluções ambientais e economia circular, e tem faturamento de R$ 1 bilhão ao ano. Sheilla atua no agro há mais de 30 anos. O agro vive um paradoxo: a safra cresce, mas muitas empresas estão em dificuldades financeiras. Qual sua expectativa para a safra 26/27? O atual cenário exigirá extrema eficiência técnica e disciplina financeira. Embora as projeções de produção continuem robustas, as margens de lucro estão mais estreitas. Como enfrentar esse cenário financeiro adverso? Com juros em patamares restritivos e maior seletividade no crédito rural, o custo de capital aumentou, tornando a gestão financeira um fator determinante para a sobrevivência. A eficiência deixou de ser um diferencial para se tornar uma condição de rentabilidade. O foco agora deve ser aumentar o retorno dos recursos já empregados. FGTS aprova distribuição de lucro de R$ 13 bi a trabalhadores. Veja na calculadora quanto vai para sua conta Como os produtos biológicos podem ajudar a levar mais eficiência ao campo? Os insumos biológicos permitem otimizar os recursos já investidos e aumentar a resiliência da lavoura. Soluções biológicas ajudam a planta a aproveitar melhor os nutrientes que já estão presentes no solo, como o fósforo. Estima-se que os biológicos possam melhorar em até 30% o aproveitamento do que é colocado no chão, o que reduziria a dependência de importações de fertilizantes químicos, por exemplo. Como se prevenir do super El Niño, outro risco apontado pelos especialistas para a safra 26/27? O produtor deve focar na resiliência da planta e no equilíbrio biológico do solo, melhor defesa contra extremos climáticos. Uma planta com sistema de raízes profundo e bem formado consegue buscar água e nutrientes em camadas mais baixas do solo, sobrevivendo muito melhor a períodos de seca. O uso de bioestimulantes, especialmente à base de algas, ajuda nesse enraizamento vigoroso. Áreas com manejo regenerativo apresentam, em média, 30% a mais de produtividade do que aquelas sob manejo tradicional durante períodos de estresse hídrico. O El Niño não afeta o Brasil de forma homogênea. No Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, o desafio será a conservação de água, o enfrentamento de temperaturas elevadas e a maior pressão de pragas adaptadas ao clima seco. Na Região Sul, o risco é o excesso de chuvas, que pode causar solos encharcados (falta de oxigênio nas raízes) e maior incidência de doenças radiculares e na parte aérea. Em que produtos biológicos a Vitalforce tem apostado? Temos um portfólio focado em agricultura sustentável e estamos investindo no que há de mais moderno em biotecnologia para o campo. São biofungicidas, bioinseticidas e bionematicidas à base de bactérias ou fungos que ajudam a proteger as plantas contra uma variedade de ameaças e estresses ambientais. A empresa possui expertise consolidada em fungos e investiu no ano passado cerca de R$ 20 milhões em sua fábrica, no interior de São Paulo, em equipamentos para fermentação sólida de fungos para aumentar a produção. Há fertilizantes e produtos à base de algas que ajudam no enraizamento e na resistência a menos oferta de água. E um adjuvante (produto que reforça a ação principal de outro) com 70% menos pegada de carbono, que é feito a partir da transformação do óleo lubrificante refinado em óleo agrícola. Quais são as novas fronteiras de pesquisa? O desenvolvimento de bioinsumos baseados em RNA de Interferência (RNAi), tecnologia que foi usada em vacinas contra a Covid. Resumidamente, os cientistas identificam genes essenciais para a sobrevivência do inseto e localizam suas fragilidades. Depois, são desenhadas moléculas de RNA, que o organismo da praga não identifica como um intruso, mas sim como parte de seu próprio material genético. Como funciona essa novidade? A molécula de RNAi se acopla ao material genético da praga e silencia os genes vitais, levando-a à morte sem afetar outros organismos ou o meio ambiente. O projeto é realizado com a startup Bsafe Biotech, e o foco inicial é o controle da lagarta-do-cartucho, uma das maiores ameaças às culturas de milho, soja e algodão. O produto está em fase de testes, com previsão de chegar ao mercado entre o fim de 2027 e o início de 2028. A empresa também investe em Inovação Aberta (Open Innovation), pesquisando microrganismos da Caatinga voltados para a resiliência climática e novas soluções biológicas para pragas complexas, como os esfenóferos na cana-de-açúcar. Mas são necessários mais recursos para incentivar a pesquisa. Sem investimento nacional adequado, cientistas brasileiros podem desenvolver tecnologias que serão patenteadas e exportadas por empresas estrangeiras, fazendo com que o Brasil exporte a riqueza que poderia ser gerada internamente. O bioinsumo ainda é mais caro que os produtos químicos? O mercado de bioinsumos tornou-se muito mais acessível e competitivo nos últimos anos, com quedas de preço de até 30% em alguns produtos. A partir do terceiro ano de uso contínuo, produtores com solos mais “vivos” conseguem colher resultados de custo menor com produtividade maior. Atualmente, o mercado de bioinsumos representa apenas 6% do mercado total de agroquímicos. Mas metade dos agricultores já experimentou essa tecnologia. Por que seu uso ainda é limitado? O principal motivo é a falta de conhecimento. Falta a confiança de como essa tecnologia vai performar na realidade específica de cada fazenda. É um “trabalho de formiguinha” levar informação técnica para que o agricultor se sinta seguro em substituir o químico. A agricultura brasileira hoje funciona com uma lógica que se baseia no uso constante de “antibióticos”, onde se utiliza o químico primeiro e o biológico apenas como último recurso. Nossa proposta é inverter essa lógica para o “Bio Primeiro” (usar o natural como base e o químico apenas em intervenções necessárias). Mas isso exige uma mudança profunda de comportamento. Os bioinsumos são totalmente seguros? Existe uma preocupação com a qualidade dos produtos disponíveis. Há muito produto no mercado de baixa qualidade ou sem o registro adequado, o que pode frustrar o produtor e gerar desconfiança sobre a eficácia de todo o setor de biológicos. A guerra da Ucrânia mostrou a fragilidade do Brasil em relação ao abastecimento de fertilizantes. Como reduzir a dependência da importação? Acho que é maior vulnerabilidade do agronegócio brasileiro, já que 90% dos fertlizantes usados no país são importados. Esse cenário geopolítico instável mostra que o problema veio para ficar e precisa ser levado a sério pelo governo e pelo setor. Os biológicos não podem substituir totalmente os fertilizantes químicos. Nutrientes como fósforo, nitrogênio e potássio são insubstituíveis, e as plantas continuarão precisando deles. Mas existem soluções biológicas para que a planta aproveite melhor o que já está depositado na terra. Além disso, o Brasil precisa ser capaz de produzir fertilizantes internamente a um custo competitivo. Atualmente, o custo Brasil dificulta essa produção, levando até ao fechamento de fábricas locais. Outra alternativa é o aproveitamento de dejetos animais (porcos e galinhas) e resíduos orgânicos para a criação de fertilizantes organominerais. O país poderia invistir em pequenas fábricas regionais para processar esses resíduos locais. E o uso de rochas locais moídas para nutrir o solo é um caminho que já vem sendo adotado.
Bioinsumos do agro vão usar tecnologia da vacina da Covid, diz executiva da Vitalforce
Sheilla Albuquerque, CEO da empresa, afirma que áreas com manejo regenerativo apresentam, em média, 30% a mais de produtividade do que os tradicionais










