Pesquisa, manejo e recuperação de áreas degradadas sustentam a estratégia para aumentar a produtividade sem ampliar a fronteira agrícola Guilherme Galvão, Gerente de Comunicação Externa na Syngenta, e Geovanna Batista, Coordenadora de Comunicação Externa na Syngenta, durante palestra na Jornada Valor de Jornalismo em Agro, promovida pelo Valor Econômico — Foto: Flávio Santana A agricultura tropical deixou de ser apenas uma característica geográfica para se tornar uma plataforma de inovação do agronegócio brasileiro. Produzir em um ambiente de altas temperaturas, maior pressão de pragas, doenças e eventos climáticos extremos exige tecnologias, manejo e modelos de produção diferentes daqueles adotados em países de clima temperado. O tema foi debatido pela Syngenta na Jornada Valor de Jornalismo em Agro, promovida pelo Valor Econômico. Guilherme Galvão, gerente de comunicação externa da Syngenta Brasil, aponta que o país hoje é capaz de cultivar praticamente o ano todo, mesmo em condições agronômicas mais complexas, devido ao desenvolvimento de novas soluções. Segundo ele, a agricultura tropical reúne tecnologia, manejo, regulação e conservação, permitindo elevar a produtividade de forma responsável. O executivo lembra que o território nacional consegue colher duas e até três safras anuais em diversas regiões graças aos investimentos em pesquisa e à adaptação das técnicas agrícolas às condições tropicais. “O Brasil produz sob clima tropical, com pressão de pragas, doenças e variabilidade climática ao longo do ano. Isso cria desafios próprios, mas também abre espaço para inovação, boas práticas e histórias de sustentabilidade”, afirma. Essa necessidade de adaptação tem impulsionado o desenvolvimento de soluções que vão além dos insumos agrícolas. O avanço da agricultura digital, com o uso de inteligência artificial, imagens de satélite, ferramentas de monitoramento e novos modelos de financiamento, integra um movimento mais amplo de modernização do campo. Na avaliação da Syngenta, inovação não significa apenas lançar novos produtos, mas também combinar tecnologias, conhecimento agronômico e serviços para aumentar a eficiência das propriedades rurais. O Syngenta Group investe US$ 2 bilhões por ano em seus centros globais de pesquisa e desenvolvimento. Presente em mais de 90 países, a empresa reúne em seu portfólio proteção química de cultivos, sementes, produtos biológicos — como biocontroles, bioativadores e soluções para eficiência nutricional — e tecnologias digitais voltadas ao aumento da produtividade. Programa REVERTE® Outro tema que ganhou destaque foi a recuperação de áreas degradadas, apontada como uma das principais alternativas para ampliar a produção sem expandir a fronteira agrícola. A proposta é aumentar a oferta de alimentos utilizando terras já abertas, reduzindo a pressão sobre a vegetação nativa e incorporando práticas de agricultura regenerativa. Um exemplo é o Programa REVERTE®, desenvolvido pela Syngenta em parceria com outras companhias. Criado em 2019, o projeto combina financiamento de longo prazo, assistência agronômica e critérios socioambientais para recuperar pastagens degradadas e transformá-las novamente em áreas produtivas. De acordo com dados divulgados pela empresa, a iniciativa alcançou, até julho de 2026, mais de 280 mil hectares em recuperação, aproximadamente R$ 2 bilhões financiados, 99 produtores participantes, distribuídos em cerca de 400 fazendas, em 11 estados brasileiros. A recuperação dessas áreas é acompanhada da adoção de práticas como plantio direto, rotação de culturas, melhora da fertilidade do solo e outras técnicas da agricultura regenerativa. Para participar, os produtores precisam cumprir a legislação ambiental e trabalhista, além de atender aos critérios socioambientais estabelecidos pelo programa. O avanço dos bioinsumos também aparece como uma das tendências da agricultura tropical. Para o executivo, produtos biológicos e defensivos químicos não devem ser vistos como tecnologias concorrentes, mas complementares. A combinação de diferentes ferramentas dentro do manejo integrado de pragas busca aumentar a eficiência das lavouras e reduzir impactos ambientais. As práticas adotadas no Brasil ainda são pouco conhecidas fora do país. Entre os exemplos citados está a logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas. Segundo a Syngenta, cerca de 95% das embalagens retornam ao sistema de reciclagem, índice superior ao registrado em diversos países desenvolvidos. O plantio direto, a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), a fixação biológica de nitrogênio e o Plano ABC+ são iniciativas que associam produtividade e conservação ambiental. O Código Florestal, a Lei nº 14.785/2023, que disciplina o registro de defensivos agrícolas, e a atuação conjunta do Ministério da Agricultura e Pecuária, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foram apresentados como exemplos da estrutura regulatória que orienta a atividade. Na avaliação da empresa, o desafio está menos na criação de novas regras e mais na fiscalização e no cumprimento da legislação. Para Galvão, o principal diferencial da agricultura tropical brasileira é justamente sua capacidade de transformar desafios climáticos em inovação. “A agricultura tropical não é apenas volume de produção. É o conjunto de tecnologia, manejo, regulação e compromisso com a conservação que permite produzir mais com responsabilidade”, afirma. Na avaliação do executivo, ampliar o entendimento sobre essas especificidades será fundamental para inserir o Brasil de forma mais consistente no debate internacional sobre segurança alimentar, mudanças climáticas e sustentabilidade.