— Foto: Wenderson Araujo/CNA Depois de um ciclo marcado por preços recordes e receita histórica nas exportações, a cafeicultura brasileira entra em uma nova fase. Com a oferta mais restrita e as cotações em acomodação, os produtores passaram a direcionar recursos principalmente para a renovação dos cafezais, mecanização, automação e tecnologias voltadas ao aumento da produtividade, em vez de ampliar a área plantada. Esse comportamento reflete as características de longo prazo da cafeicultura e a mudança de cenário após o forte ciclo de valorização observado em 2025. Na parcial da safra 2025/2026, entre julho de 2025 e maio de 2026, o Brasil exportou 35,4 milhões de sacas de 60 quilos, volume 18% inferior ao registrado no mesmo período da temporada anterior, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), elaborados com base em informações do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Apesar da retração dos embarques, a receita permaneceu praticamente estável, em US$ 13,6 bilhões, em comparação com US$ 13,7 bilhões registrados no mesmo intervalo da safra anterior, reflexo das cotações elevadas durante boa parte da safra. Para Fernando Maximiliano, consultor em gerenciamento de risco da StoneX, a retração dos embarques está diretamente ligada à menor disponibilidade de café, principalmente de arábica, variedade responsável pela maior parte das exportações brasileiras. Em 2025, a produção da espécie foi estimada em 36,5 milhões de sacas, queda de 18,4% em relação a 2024. Embora a produção de robusta tenha crescido, o aumento não foi suficiente para compensar a quebra do arábica. “O robusta teve uma safra maior, mas o arábica continua sendo a principal variedade exportada pelo Brasil. Como tivemos uma produção menor dessa espécie, era esperado que isso se refletisse nas exportações”, afirma. Segundo Maximiliano, a menor oferta resulta da sequência de eventos climáticos que afeta a cafeicultura desde 2020. A expectativa é de recuperação dos embarques no segundo semestre, à medida que a safra de 2026 avance e o café recém-colhido conclua as etapas de secagem, beneficiamento e preparação para exportação. Ronaldo Felix, analista do Saygo Group, ressalta que a retração das exportações também reflete a comparação com um ano excepcional para os embarques brasileiros. Segundo ele, a menor disponibilidade de café explica o recuo observado na safra 2025/2026, mas “a tendência é de recuperação gradual dos embarques conforme a nova safra ganhe ritmo”. O presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, explica que o comportamento recente do mercado é consequência de um ciclo iniciado após a safra recorde de 2020. “Em 2021, o Brasil enfrentou a maior geada desde 1994, seguida por estiagens e outros problemas climáticos que também atingiram importantes produtores mundiais, como Vietnã e Indonésia. A redução da oferta global levou as cotações internacionais a níveis históricos”, afirma. Maximiliano, da StoneX, espera por recuperação da exportação de café no segundo semestre — Foto: Karina Brandão/Divulgação A combinação entre oferta restrita, dólar valorizado e preços recordes nas bolsas internacionais levou os preços do café brasileiro aos maiores patamares de sua história recente. Esse ambiente também influenciou a estratégia de comercialização. Em vez de vender rapidamente toda a produção, muitos cafeicultores optaram por escalonar as vendas da safra recorde de 2020 ao longo dos anos seguintes. “Os produtores diluíram a comercialização da grande safra de 2020 ao longo de dois e até três anos. Mesmo com safras menores depois disso, o Brasil continuou exportando volumes elevados”, diz Ferreira. O cenário começou a mudar em 2026. Segundo o presidente do Cecafé, a expectativa de uma recuperação da safra brasileira levou fundos de investimento a reduzir suas apostas na alta dos preços nas bolsas internacionais, pressionando as cotações. Ao mesmo tempo, a valorização do real em relação ao dólar reduziu parte da competitividade conquistada pelo café brasileiro durante o período de câmbio mais favorável às exportações. Apesar da acomodação dos preços, Ferreira afirma que os cafeicultores chegam a esse novo momento mais capitalizados do que em ciclos anteriores. “O produtor está muito mais fortalecido financeiramente do que em 2020 porque aproveitou os preços recordes dos últimos anos.” Segundo ele, essa condição reduz a pressão por vendas imediatas e permite administrar melhor a comercialização da safra. A acomodação dos preços também já aparece no mercado físico, segundo os indicadores do Cepea. Em maio, o Indicador Cepea/Esalq do café arábica caiu 8,7% em relação a abril, para a média de R$ 1.653,92 por saca de 60 quilos, a menor, em termos reais, desde outubro de 2024. O recuo refletiu o avanço da colheita da safra 2026/2027 e a expectativa de maior oferta. Em junho, no dia 26, o indicador fechou em R$ 1.517,04 por saca. Já o robusta apresentou comportamento diferente. Depois da forte queda registrada entre março e abril, o indicador acumulava alta superior a 10% em junho, refletindo uma correção das perdas anteriores e a percepção de que a produção da variedade pode não alcançar os volumes recordes inicialmente esperados. Ferreira, da Cecafé: maior capitalização dos produtores reduz pressão por vendas imediatas — Foto: Divulgação Apesar da acomodação das cotações, os investimentos nas propriedades não perderam fôlego, apenas mudaram de foco. Segundo Luiz Eduardo Vilela de Rezende, vice-presidente do Conselho de Administração da Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel), os preços recordes registrados em 2025 estimularam novos aportes nas propriedades, destinados principalmente à renovação dos cafezais, mecanização, automação e modernização tecnológica. “A forte valorização do café incentivou investimentos, mas não provocou uma expansão expressiva da área plantada. Os aportes observados refletem muito mais uma busca por competitividade, produtividade e redução de custos do que propriamente uma corrida por novas áreas de plantio.” Segundo Vilela de Rezende, o próprio perfil da atividade explica esse comportamento. “Implantar uma nova lavoura exige investimento elevado e o retorno econômico normalmente ocorre apenas entre o quarto e o quinto ano. Por isso, decisões de expansão tendem a ser cautelosas.” A escassez de mão de obra, especialmente em regiões tradicionais, como sul de Minas, Matas de Minas e Espírito Santo, reforça essa estratégia. De acordo com Vilela, não há movimento relevante de abandono da atividade. “O produtor que já possui lavouras estabelecidas, infraestrutura, máquinas e mercado consolidado tende a permanecer na atividade. A percepção predominante é de continuidade dos investimentos, porém com maior foco em gestão, produtividade, qualidade e controle de custos.” Para o dirigente da Cocatrel, a queda recente dos preços é encarada como uma correção esperada após um período de forte valorização. Os elevados preços do café, afirma, não significaram ganhos extraordinários para todos os produtores, já que muitos tiveram quebra de produção ou haviam comercializado parte da safra antes do pico das cotações. Nos cafés especiais, a dinâmica é um pouco diferente. Segundo Vilela, esse segmento depende menos do volume produzido e mais da agregação de valor por qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. “Quando os preços do café recuam, o diferencial necessário para adquirir um produto de maior qualidade se torna relativamente menor, estimulando o consumo de cafés especiais.”