Mais de um ano desde o primeiro tarifaço, os americanos estão mais pessimistas com relação ao estado atual da economia e de sua perspectiva futura — Foto: AP/Julia Demaree Nikhinson Depois de escalar a guerra contra o Irã, semanas após ter fechado um acordo de cessar-fogo, o presidente Donald Trump retomou a ofensiva no front tarifário. A primeira salva de tiros foi a imposição de tarifas de 25% sobre as importações do Brasil, que entram em vigor hoje. A segunda, o anúncio de 50% de tarifas sobre os produtos canadenses. A terceira, novas tarifas sobre as importações de uma dezena de outros parceiros comerciais para substituir a tarifa global de 10% que vence esta semana. Essas medidas reacendem as preocupações de uma guerra comercial global, mas passado pouco mais de um ano desde o tarifaço generalizado do chamado “dia da libertação”, os parceiros comerciais dos EUA parecem mais calejados com o estilo disruptivo e caótico de negociação do presidente americano. Diferentemente do caso brasileiro, com o anúncio e a entrada em vigor das tarifas separados por apenas uma semana, as novas tarifas contra o Canadá têm início previsto para daqui a 30 dias, a forma de Trump dizer que está aberto a negociações. Mas cada medida arbitrária de Trump reduz a disposição dos outros países para com os EUA. Embora o premiê canadense, Mark Carney, tenha declarado prontamente que iria intensificar as negociações com os EUA, também deixou claro que o Canadá está preparado para reagir caso a Casa Branca leve adiante a imposição das tarifas. Posição essa respaldada pelos cidadãos canadenses e até mesmo o setor empresarial, apesar da profunda ligação econômica entre os dois países. Matthew Holmes, diretor de políticas públicas da Câmara de Comércio do Canadá, declarou que o governo não deve fazer concessões antecipadas. “Nós, da comunidade empresarial, dissemos ao governo: ‘Chega de concessões; sentem-se à mesa de negociação e tratem de tudo isso em conjunto’”. As novas tarifas americanas contra o Canadá representam uma escalada significativa, pois as importações que atendem aos termos do acordo EUA-México-Canadá (USMCA), firmado por Trump em 2020, não estarão isentas das tarifas mais elevadas. A medida vem na sequência do anúncio de Trump de não renovar o acordo regional por mais 16 anos; em vez disso, ele quer fazer revisões anuais do tratado com o Canadá e o México. A decisão não foi uma surpresa diante do histórico do presidente americano de rasgar seus próprios acordos, algumas vezes dias após o seu anúncio, como no caso do cessar-fogo com o Irã. A nova onda tarifária de Trump inclui várias isenções: energia, potássio, minerais críticos, pescado e outros produtos do Canadá; carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves, de uma lista de 2.000 itens do Brasil. Essas isenções visam a aliviar o efeito da elevação tarifária generalizada sobre a inflação americana, que fechou junho em 3,5%, bem acima da meta de 2% do Federal Reserve. Os preços mais elevados de alimentos e combustíveis vêm pesando sobre a avaliação do governo Trump. A mais recente pesquisa econômica da CNBC aponta que 61% dos americanos estão pessimistas com relação ao estado atual da economia e sobre a perspectiva futura - pior avaliação desde dezembro de 2023, quando o país ainda sentia os efeitos inflacionários da pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, a taxa de aprovação de Trump é de 40%. Ao contrário do que se temia antes, as tarifas americanas não levaram a uma desglobalização, mas sim a um rearranjo no comércio global. O Brasil, por exemplo, intensificou a busca por novos mercados de exportação, com resultados positivos à balança comercial. Até a terceira semana de julho, o país acumula um saldo positivo de US$ 47,31 bilhões, um aumento de 36,7% em termos anuais. Ao mesmo tempo, a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu de 12,08% para 9,43% no primeiro semestre, com o Brasil ampliando o comércio com União Europeia, México, Canadá e países asiáticos (Valor, 18/7). Apesar dessa evolução, o impacto do novo tarifaço americano continua sendo bastante significativo, pois atinge 18% das exportações brasileiras para os EUA - cerca de US$ 7,4 bilhões, considerando dados de 2024. O Brasil não vai quebrar por causa disso, como lembra Roberto Azevêdo (Valor, 20/7), mas o tarifaço reduz o acesso a um mercado aonde o Brasil exporta produtos de alta tecnologia e de valor agregado. Por isso, o Brasil tem que ter temperança na reação. As tarifas de Trump não são economicamente catastróficas, mas causam estragos a alguns setores que dependem muito desse mercado. Levará tempo para abrir novos mercados e reduzir a exposição ao risco de uma dependência do mercado americano. A China vem fazendo isso com grande eficiência. Em dezembro de 2025, a participação das importações chinesas nos EUA era de apenas 7%, uma queda considerável em relação aos 23% registrados em dezembro de 2017. Ao mesmo tempo, a China vem ampliando fortemente suas vendas externas e caminha para obter um novo superávit comercial recorde de mais de US$ 1 trilhão este ano.