Enquanto enfrenta um impasse em sua guerra contra o Irã, já em seu quarto mês, o presidente Donald Trump deu novos passos em sua guerra comercial contra o mundo. O USTR, escritório encarregado do comércio exterior americano, sugeriu ontem aplicação de tarifas de 10% e 12,5% a 59 países e União Europeia (UE), após investigações sobre alegadas transigências com a importação de produtos feitos com o uso de trabalho forçado. O Brasil, em um par de dias, corre o risco de ter suas tarifas para exportar aos EUA majoradas em 25% por práticas injustas de comércio, e mais 12,5%, sugeridas ontem pelo USTR, cumulativas. A argumentação para as novas punições tem a mesma escassa consistência das anteriores, o que não quer dizer que não serão aplicadas. O governo americano prepara a sustentação de altas barreiras tarifárias, depois que a Suprema Corte considerou ilegais as supertarifas decretadas em 2 de abril de 2025. O presidente Trump imediatamente as substituiu por taxação geral de 10% com base na seção 122 da lei de comércio de 1974, que permite a imposição de gravames em situações de emergência, como uma crise no balanço de pagamentos. Os EUA não enfrentam uma, mas o presidente pode decretá-las unilateralmente, por 150 dias, necessitando, porém, do apoio do Congresso para renová-las. Elas expiram em 24 de julho, e a Casa Branca busca substitutos, caso o Congresso se recuse a prorrogá-las. Como os pretextos para o tarifaço de 2025, não há fundamentos para isso na realidade, afora a percepção de Trump de que a maior economia do mundo foi "explorada e enganada" por todos os países com os quais tem déficit comercial. O Brasil é um dos poucos com quem os EUA têm superávit, mas continua sendo punido. Os arrazoados do USTR sobre trabalho forçado são superficiais e contraditórios, feitos para confirmar pressupostos a priori com evidências anedóticas. A alegação principal agora é que os trabalhadores americanos estão enfrentando concorrência desleal em todo o mundo em virtude do inaceitável "fracasso dos nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado". A lista inclui 86 países tarifados (27 da UE), quase todos aliados dos EUA, inclusive Israel, companheiro da ofensiva guerreira no Irã. Houve distinção arbitrária de tarifas. Canadá, Equador, México, Paquistão, Indonésia e UE receberam 10% de taxação, porque, embora tenham sido supostamente lenientes, possuem legislação para coibir a importação de produtos feitos com participação de trabalho forçado. O Brasil, junto com outros países, foi taxado em 12,5%, apesar de o país ter um programa reconhecido de combate ao trabalho em condições análogas à escravidão. O relatório da USTR revela incongruências patentes. O Brasil é punido por não possuir leis contra a importação de bens frutos desse trabalho, mas é citado como exemplo de suspeição de seu uso na pecuária, uma condição que, segundo o documento, teria beneficiado as exportações de carne do Brasil para o mundo e, em especial, para a China, em detrimento das vendas do produto americano. A base de comparação numérica é o período de 2015 a 2025, período no qual as vendas brasileiras subiram a 38% para 53% e as dos EUA caíram de 6% para 2%. O intervalo de tempo escolhido pela USTR é suspeito, pois compreende o início da ofensiva protecionista de Trump contra a China em seu primeiro mandato. A China procurou livrar-se da dependência de um rival político agressivo, preferindo importar mais do Brasil, hoje o maior comerciante de carnes para o mundo. Apesar da acusação, as carnes estão entre os bens isentos de tarifas na lista do USTR. À semelhança de Trump, os postos chave do governo estão ocupados por pessoas em estado de negação da realidade. Jamieson Greer, que comanda o USTR, disse que não havia problemas com elevar tarifas, porque elas não provocaram inflação, quando é sabido que os índices atingiram 3% em dezembro, longe da meta do Fed, em consequência da taxação generalizada de Trump. O muro protecionista foi incapaz de reduzir substancialmente o enorme déficit comercial. Trump criou dificuldades agudas para o Brasil, que, se a dose dupla de punição for confirmada, será um dos países mais taxados do mundo pelos EUA. Mas Trump também criou grandes problemas para si mesmo. O efeito inflacionário da guerra no Irã tem sido corrosivo na sua popularidade, e as ações do USTR darão um novo fôlego aos preços dos bens importados, depois que a primeira onda altista das tarifas já tinha ido embora. As eleições de meio de mandato poderão torná-lo um presidente com baixos poderes, se os democratas formarem maioria na Câmara e no Senado. Como ocorreu com as acusações de práticas comerciais injustas, as de trabalho forçado não deixam muito espaço para manobras brasileiras. Enquanto toca a música eleitoral nacionalista, o Planalto cogita oferecer algumas vantagens tarifárias aos EUA, como forma de amenizar os estragos provocados por decisões de um presidente atrabiliário. É viável chegar a algum acordo por esse caminho, já que, sem razão, a Casa Branca aperta o cerco contra o Brasil.