0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — Foto: Mandel NGAN / AFP/06/07/2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 15:14 Impacto da Guerra Tarifária dos EUA: Oportunidades para o Brasil e Avanço Chinês A guerra tarifária iniciada pelos EUA sob Donald Trump, especialmente contra China e Brasil, deve impactar o crescimento econômico e a inflação global. Economistas alertam que essa política isolacionista pode enfraquecer o papel dos EUA como líder econômico, favorecendo a China. A estratégia também abre oportunidades para o Brasil diversificar suas exportações e buscar novas parcerias comerciais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A guerra tarifária desencadeada pelo governo do presidente Donald Trump contra boa parte do mundo — especialmente China e Brasil, os países com maior tarifa sobre suas exportações — deve afetar o crescimento econômico, a inflação e os juros em diferentes regiões do planeta. A política externa baseada na coação e na pressão comercial, no entanto, tende a deixar os Estados Unidos menores ao fim desse processo, na avaliação de economistas. Além de estimular a busca por parceiros considerados mais confiáveis e acelerar a diversificação das relações comerciais, a estratégia americana enfraquece o papel dos Estados Unidos como principal interlocutor da ordem econômica global. — A construção americana ao longo das últimas décadas tem sido a de um país que está se ausentando do mundo. A gente vê um país que está declinando em termos de qualidade educacional, de número de patentes, de investimento em educação, de bem-estar social e com expectativa de vida em queda consistente ao longo dos últimos anos. Agora, com um padrão de tarifa média acima da tarifa brasileira histórica — que já era uma das mais altas do mundo e é uma das responsáveis, entre vários fatores, pelas dificuldades enfrentadas pela nossa indústria ao longo das últimas décadas —, os Estados Unidos apenas pioram o próprio cenário para os próximos anos — analisa Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. No curto prazo, pondera Leonardo Paz Neves, pesquisador da FGV e professor do Ibmec Rio, os Estados Unidos devem registrar aumento de arrecadação. Na avaliação dele, porém, a política protecionista do governo Trump dificilmente produzirá o estímulo à indústria e à geração de empregos prometido pelo presidente americano. Os ganhos econômicos tendem a ser marginais, diante da ausência de uma estratégia capaz de reconstruir as cadeias produtivas, diz o pesquisador. Em compensação, o país perde um dos principais ativos acumulados ao longo das últimas oito décadas: o chamado soft power. — Os Estados Unidos perdem o soft power, a capacidade de mobilizar aliados, que foi um dos grandes ativos do país durante esses últimos 80 anos. Os EUA construíram uma base de aliados muito poderosa, que lhes permitia conduzir políticas de acordo com seus interesses. Com a política externa de Trump, o país perde essa capacidade de galvanizar apoio. De certa maneira, a China acaba se beneficiando disso. O gigante asiático, que era visto como rival, passa a ser percebido como um ator mais pragmático e estável do que os EUA. Países que, pela narrativa de alguns anos atrás, deveriam conter a China podem passar a enxergá-la como parceira. Os Estados Unidos saem mais fracos desse processo em relação aos seus objetivos estratégicos — afirma o especialista da FGV. Para o cientista político José Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec, o tarifaço ficar como uma marca do governo Donald Trump, que dificilmente será mantido integralmente por futuras administrações americanas. — Neste hiato das relações comerciais tradicionais, é importante que o Brasil, assim como os demais parceiros afetados pelas tarifas, amplie as exportações para outros mercados e também diversifique suas importações. É importante que Europa, China, Índia, Canadá e outras potências, além de países médios e regionais, desenvolvam novos processos de integração comercial. No fim, se há um aspecto positivo nesse movimento dos Estados Unidos, é a abertura de novas oportunidades de negócios com outros países. A diversificação das exportações brasileiras também é apontada por Sérgio Vale e Leonardo Paz Neves como um possível efeito positivo da política comercial americana. Para Paz, contudo, esse movimento ainda ocorre em ritmo muito lento. — O Brasil, via Mercosul, negocia acordos com parceiros importantes, como Coreia do Sul, Canadá e Japão, mas em passo de formiga. É um efeito potencialmente positivo, mas ainda não estamos vendo o avanço nas negociações que seria desejável e necessário. Por isso, minha avaliação é que esse impacto acaba sendo quase neutro. Poderia representar um grande avanço, mas tudo indica que os ganhos serão limitados. Para Sérgio Vale, a ampliação da rede de acordos comerciais é praticamente o único caminho para que a indústria brasileira volte a crescer de forma consistente. Segundo ele, o país precisa priorizar parcerias com economias desenvolvidas. — Veja o caso da Polônia. Nos últimos 15 anos, a indústria polonesa cresceu quase 100%. No mesmo período, a indústria brasileira encolheu cerca de 14%. E por que a Polônia cresceu tanto? Porque construiu uma integração industrial muito forte com a Alemanha. A União Europeia deve ser, para o Brasil, um caminho de aproximação para ampliar o comércio interindustrial. Isso vale também para outros acordos comerciais que precisamos firmar. País que desenvolve indústria não é aquele que se junta a país pobre; é aquele que se integra a países ricos. Esse é o caminho que precisamos seguir — diz Sérgio Vale.