Para Bruna Santos, estudiosa sobre as relações entre os países, as taxas têm uma cabeça técnica e econômica, referindo-se ao representante de Comércio, Jamieson Greer 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: MARTIAL TREZZINI / POOL / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/07/2026 - 18:13 Tarifas de Trump: Impactos Duradouros no Comércio Global e no Brasil A especialista brasileira Bruna Santos afirma que as tarifas impostas pelo governo Trump vieram para ficar, sustentadas por uma filosofia econômica que visa transformar os EUA de consumidores em produtores. Mesmo com a Suprema Corte limitando o uso da IEEPA, Trump utiliza outras seções da Lei de Comércio para manter seu "muro tarifário". As tarifas afetam 60 países, incluindo o Brasil, que enfrenta uma taxa de 12,5%. Essa estratégia pode levar empresas a buscar novos mercados e impactar a confiança global nos EUA, enquanto a China se fortalece como alternativa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão da Suprema Corte americana, de limitar o uso, pelo governo Donald Trump, da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) como base jurídica do tarifaço que vem sendo montado desde o início do segundo mandato do republicano na Casa Branca, em janeiro de 2025, tirou um “coringão” das mãos do mandatário. Mas, como no jogo de buraco, Trump tem outras cartas. São as diversas seções da Lei de Comércio americana, de 1974, que formam um “mosaico” de opções para reconstruir o “muro tarifário” erguido a partir de Washington, diz Bruna Santos, diretora do Programa do Brasil do Inter-American Dialogue, entidade americana de pesquisas. Bruna Santos, diretora do Programa do Brasil do Inter-American Dialogue, entidade americana de pesquisas — Foto: Divulgação Para a especialista brasileira, baseada em Washington, o tarifaço veio para ficar porque há uma filosofia, no governo Trump, que sustenta a estratégia. O governo americano anunciou nesta quinta-feira a imposição de tarifas de 10% a 12,5% a um conjunto de 60 países relativa a trabalho forçado. A sobretaxa do Brasil é de 12,5%, o que fará do país o segundo país mais taxado. A seguir, veja os principais trechos da entrevista. Quais as implicações da estratégia do governo Donald Trump de buscar seções da Lei de Comércio, como a 301, como base jurídica do tarifaço? Estamos vendo uma consolidação do tarifaço, não acho que a imposição de tarifas seja apenas uma coisa para um fazer algum tipo de estrangulamento político, pelo contrário, os membros do governo Trump acreditam no tarifaço. É uma visão, uma política industrial e econômica desse governo, que abandona uma série de premissas liberais que muitas vezes vimos pautar a política econômica americana. A decisão de fevereiro da Suprema Corte, de limitar o uso da IEEPA, a lei federal que vinha sendo a base jurídica do tarifaço, não impediu essa nova visão de política econômica? Gosto de usar a metáfora da IEEPA como se fosse um coringa na mão de Trump, durante um jogo de buraco. Dava um poder muito abrangente, que podia ser usado em qualquer circunstância, muito rapidamente, de forma quase que imediata. E ela podia ser aplicada numa quantidade muito grande de produtos. Quando a IEEPA sai da mão de Trump, por conta da decisão da Suprema Corte, ele segue com outro mosaico de possibilidades. São as seções da Lei de Comércio, que não são tão abrangentes e que têm um rito de implementação, de investigação, muito longo. Vimos no caso da investigação contra o Brasil, que demorou literalmente um ano. E não é só a seção 301. Tem a seção 122, que é temporária, que substituiu a IEEPA na tarifa básica de 10% contra todos os países e vence nesta sexta-feira. Tem a seção 232 (sobre determinados setores) e a seção 338, usada contra o Canadá no último dia 20, que não era usada desde 1930. Tudo isso substitui o coringa? Na hora que sai o coringão, Trump fica com outras cartas na mão e precisa lançar um mosaico de investigações e seções (da Lei de Comércio) para conseguir alcançar o mesmo impacto econômico que tinha no seu tarifaço 1.0, lançado dentro da IEEPA. É uma tentativa de reconstruir o muro tarifário. Esses outros instrumentos têm um alicerce jurídico mais sólido do que o uso expansivo da IEEPA, embora ainda haja margem para as decisões do USTR (o escritório do Representante de Comércio dos EUA) sejam contestadas juridicamente. A grande diferença é que, antes, Trump tinha uma marreta, que era a IEEPA, e, agora, tem que usar um bisturi, porque a coisa tem que ser muito mais costurada e pensada. Usar o bisturi dá no mesmo? A seção 301 não serve apenas para aplicar determinada tarifa num determinado produto. Também serve como forma de alavancar uma negociação. É interessante entender por que o USTR citou o Pix como uma prática comercial desleal. É porque eles querem que o Brasil venha para a mesa para negociar uma concessão regulatória (no setor de meios de pagamentos). Eles usam o tamanho do mercado americano, o fato de que muitos dos exportadores precisarem do mercado americano, como uma forma de trazer para a mesa para negociar concessões. Por que então não deu certo o Brasil negociar concessões? Existe uma compreensão muito distinta do lado brasileiro e do lado americano sobre o que é uma negociação. O lado americano queria uma concessão, como no acordo com a Argentina, em que houve abertura e acesso a empresas americanas ao mercado argentino, sem necessariamente a Argentina ganhar muito com isso. O lado brasileiro queria uma negociação mais isonômica. É quase como se eles estivessem na mesma pista dançando ritmos diferentes. Acho que os EUA falham muitas vezes em entender que o Brasil não é um país excessivamente dependente dos americanos na sua economia. É muito grave o que vai acontecer com algumas empresas e alguns setores, não quero minimizar isso, mas sabemos que o Brasil não sangra, não sangrou macroeconomicamente com as primeiras tarifas e não vai sangrar agora. O tarifaço então veio para ficar? As tarifas vieram para ficar, sim, apesar das dúvidas sobre o quanto elas são politicamente sustentáveis. Há inflação nos EUA, mas pessoas como o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, acreditam realmente que as tarifas são a única forma de os EUA deixarem de ser, ele usa essa frase, um país de consumidores para ser um país de produtores. A filosofia dele é que as tarifas são uma ferramenta essencial para redesenhar a economia global e para os EUA serem um país que novamente produz. O tarifaço veio para ficar e vai começar a haver uma precificação do risco tarifário americano por parte do setor privado. Ainda existe uma crença de que esses ventos são apenas políticos e não são. O tarifaço tem uma cabeça técnica e econômica, que é a cabeça do Jamieson Greer. O que poderá ocorrer quando essa precificação for feita? Acho que ela está sendo feita, a partir do momento em que, agora, as empresas vão começar a avaliar a diversificação, a busca de novos mercados, talvez a necessidade até de abandonar o mercado americano. Tem outro fator que é a confiança. Muito do poder que os EUA exerceram até hoje no mundo parte de uma ideia da estabilidade Acho que a segurança jurídica, essa confiança (dos outros países nos EUA) está se deteriorando. Saiu uma pesquisa nova do Pew Research Center que mostra que, em 25 dos 36 países pesquisados, a China é hoje vista de forma mais favorável do que os EUA. Não é porque eles acham que a China é mais confiável, é porque simplesmente a alternativa americana está caindo muito. E quais as consequências disso? Haverá uma busca cada vez maior por outros mercados, sem dúvida. E talvez um aumento de preços em alguns setores, uma vez que o risco tarifário tem que ser colocado nos preços. As exceções da tarifa de 25% aplicada no Brasil, claramente, foram colocadas para evitar um choque inflacionário maior nos preços dos produtos que fazem parte da do café da manhã do americano, mas não acho que isso resolve o problema grave hoje nos EUA, que é a capacidade de as pessoas de pagarem as contas. Os preços estão muito altos, também pelos efeitos da guerra contra o Irã nas cotações do petróleo. Se o Partido Republicano perder o controle do Congresso nos EUA o tarifaço perde força? Pelo menos ofereceria pesos e contrapesos para frear o tarifaço. Mas há quem ache que parte dessas mudanças é estrutural, independentemente do partido que esteja na Casa Branca. Tem coisas que vieram para ficar, como a visão dos EUA como um país que quer atrair empregos na produção de manufaturados em seu território, ou em territórios mais próximos, para vencer a dependência da China. E como fica a China? A China tem uma posição muito peculiar nesse contexto todo, porque ela tem uma escala para demonstrar força, que nenhum outro país no mundo tem. Estamos falando de duas grandes potências. A perda de confiança dos países nos EUA pode consolidar uma virada da China.