0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente dos EUA, Donald Trump: sua influência direta é destacado por expressão do relatório — Foto: NICOLAS TUCAT / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/07/2026 - 15:13 Sobretaxa de 25% imposta por Trump desafia Brasil a diversificar comércio A nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, imposta pelo governo Trump, destaca o caráter político da decisão, com a expressão "direção específica do presidente" repetida 13 vezes no relatório do USTR. Essa personalização intensifica a medida, diferenciando-a de outras investigações. Especialistas sugerem que o Brasil mantenha a diplomacia enquanto diversifica parceiros comerciais para evitar submissão aos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A nova sobretaxa de 25% decretada pelo governo de Donald Trump sobre os produtos brasileiros levou a equipe econômica a se debruçar , nesta quinta-feira, sobre o relatório técnico do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que detalha a investigação conduzida com base na Seção 301. O que chamou a atenção foi uma expressão pouco usual, repetida 13 vezes ao longo das 138 páginas do documento: "specific direction of the President" ("direção específica do presidente"). A referência explícita à "direção presidencial" não é inédita na prática da Seção 301, explicou uma fonte ao blog. Em parte, isso decorre do próprio desenho institucional do Trade Act de 1974, que prevê que o USTR exerça determinadas competências sujeito à eventual direção específica do presidente. Em alguns casos, o órgão registra expressamente que determinada investigação ou medida foi adotada por orientação presidencial. Essa fórmula foi utilizada, por exemplo, nas investigações relativas à China (2017-2018) e ao Vietnã (2020). O aspecto distintivo do caso brasileiro, porém, está na intensidade dessa personalização. Segundo um especialista ouvido pelo blog, o relatório sobre as práticas comerciais brasileiras difere da maior parte das investigações recentes, nas quais a atuação presidencial aparece apenas como orientação política geral ou como referência ao desenho institucional da Seção 301. No caso do Brasil, a decisão final atribui à "direção específica do presidente" não apenas a abertura da investigação e a imposição das tarifas, mas também a definição da alíquota de 25%, a rejeição de alternativas consideradas menos efetivas e sucessivas decisões sobre o alcance das exceções tarifárias. Tudo isso, reforça o caráter político da decisão americana . Essa fonte, lembra ainda que a investigação foi instruída pelo presidente americano por meio de uma carta enviada ao presidente Lula, além de anunciar tarifas, Trump exigiu o fim imediato das ações judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro A primeira menção a expressão aparece já na primeira página do documento, no sumário: "O Representante de Comércio dos Estados Unidos (Trade Representative) determinou, com base nas Seções 301(b) e 304(a) do Trade Act de 1974, que determinados atos, políticas e práticas do Brasil objeto desta investigação são passíveis de sanção e que uma ação por parte dos Estados Unidos é apropriada. Em conformidade com direção específica do presidente, o Representante de Comércio está adotando medidas por meio da imposição de tarifas de 25% sobre todas as importações provenientes do Brasil, com determinadas exceções." — Embora o caso brasileiro não constitua um precedente isolado, ele se aproxima, no que diz respeito às menções à "direção presidencial", da investigação conduzida contra a China em 2018 e se diferencia da maioria dos processos recentes — como os relativos à Nicarágua, à Alemanha, ao excesso de capacidade industrial, ao trabalho forçado e aos setores marítimo e de construção naval da China. Nesses casos, os atos administrativos foram redigidos predominantemente em linguagem institucional, atribuindo as decisões diretamente ao USTR — afirma uma fonte que acompanha os processos no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos. Na avaliação do ex-embaixador Roberto Jaguaribe, que atuou como negociador brasileiro junto ao USTR, por um ano e meio, durante as disputas sobre propriedade intelectual nos anos 1990, a recorrência da expressão reforça o caráter político da medida contra o Brasil. — Não tenho a menor dúvida de que essa investigação foi feita sob encomenda para conferir aparência de legitimidade às tarifas, criando uma fachada de racionalidade burocrática. A ideia é evitar que a medida fuja das regras americanas e reduzir o risco de uma nova derrota judicial na Suprema Corte dos Estados Unidos, como ocorreu no ano passado, quando parte do tarifaço de Donald Trump foi derrubado, quando usava o argumento de segurança nacicional. Nos anos 1990, houve uma negociação e conseguimos sair com um resultado favorável. Hoje a situação é outra. Trata-se de uma jogada de poder. Posso falar com total independência: a diplomacia brasileira fez tudo que devia fazer. A decisão que cabe ao Brasil é definir se quer ser súdito dos Estados Unidos ou um país soberano — afirma Jaguaribe, conselheiro consultivo internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Outra interpretação para o uso reiterado da expressão "por direção específica do presidente" considera o calendário político americano. Diante da proximidade das eleições de meio de mandato e da queda de popularidade de Donald Trump, que pode comprometer a maioria republicana no Congresso, uma fonte avalia que a redação do relatório pode representar também uma tentativa de blindagem da burocracia do USTR. A avaliação é que, caso Trump perca força política após as eleições de novembro, é provável que a nova sobretaxa seja alvo de uma nova onda de ações judiciais. Nesse cenário, a insistência em atribuir as decisões ao presidente funcionaria como uma forma de resguardar tecnicamente os servidores do órgão, sinalizando que as medidas foram adotadas por determinação direta da Casa Branca. Essa interpretação também não é descartada por Jaguaribe. Para o ex-embaixador, o Brasil deve manter a disputa no terreno técnico da diplomacia, sem romper as relações com os Estados Unidos, mas também sem aceitar uma posição de submissão. — Em um embate de forças, o mais forte tende a prevalecer. O Brasil precisa negociar com competência e inteligência, acelerando um movimento que já começou de diversificação de parceiros comerciais. O acordo com a União Europeia oferece grande potencial, tanto para ampliar o comércio quanto para atrair investimentos que fortaleçam a indústria brasileira. A Ásia também representa um mercado estratégico. Além disso, o país deve estreitar relações com outras nações que, assim como nós, buscam maior previsibilidade nas relações internacionais, caso do Canadá. Não se trata de abandonar os Estados Unidos, mas de compreender que a submissão não parece ser a melhor alternativa.