0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Setor de calçados é um dos impactados pelo tarifaço de Trump — Foto: Reprodução/Abicalçados RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 12:57 Tarifa dos EUA de 25% afeta setores microeconômicos no Brasil A nova tarifa de 25% dos EUA não impactará significativamente a economia macro do Brasil, mas afetará setores microeconômicos como calçados e máquinas. A diversificação de mercados é essencial, mas exigirá mudanças estruturais. Economistas sugerem que o governo incentive a produção diversificada e mantenha negociações diplomáticas, evitando retaliações que possam piorar as relações com os EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A nova tarifa americana de 25%, que entra em vigor nesta quarta-feira, não deve ter impacto macroeconômico no Brasil. A projeção para o crescimento da economia não deve ser afetada pela taxação e a balança comercial deve continuar positiva. A perspectiva, aliás, é de um superávit de US$ 90 bilhões ao fim deste ano. O efeito será sentido na microeconomia, em setores já mapeados, como calçados, móveis, máquinas e equipamentos elétricos, celulose, entre outros, que têm parte da produção feita sob encomenda pelas necessidades do mercado dos Estados Unidos. E, para esses segmentos, a abertura acelerada de novos mercados, medida que vem sendo prescrita por negociadores e economistas, não resolve o problema. Isso porque seria necessária uma mudança na estrutura de produção e no catálogo de produtos para que essas empresas sejam capazes de atender a outros mercados, incluindo o doméstico. — O primeiro tarifaço deu um sacode, acordou o Brasil para a necessidade de diversificar parceiros comerciais. A iniciativa deu certo. Mas nesse momento o desafio de uma política que tem efetividade para os setores afetados é maior, pois o risco a perda da complexidade da cadeia produtiva de exportação. Os segmentos afetados são justamente o que exportam produtos de maior valor agregado, oferecem vagas para trabalhadores mais qualificados, que para vão precisar se preparar para atuar para novos mercados — diz Juliane Forno, professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF). A economista pontua que o governo terá de pensar em uma forma de incentivar esses setores a diversificarem, desta vez, sua produção, para reduzir a dependência do mercado americano. Ela avalia que isso deve ser feito com contrapartidas de manutenção do emprego, mas também com metas de ampliação de exportação para novos mercados. — Em um primeiro momento, essas empresas podem redirecionar a sua produção para o mercado interno, o que pode ter efeito de reduzir preços e assim a pressão sobre a inflação. Porém, é importante para o Brasil que essas empresas continuem exportando, isso traz dólares para o Brasil, equilíbrio para a balança comercial. Por isso é importante que medidas de crédito ou de benefícios tributários que venham a ser implementadas tenham claras contrapartidas para que não tenhamos apenas mais uma medida protecionista — ressalta Juliane. Como essas mudanças na produção demandam tempo, as negociações entre Brasil e Estados Unidos não podem ser interrompidas, destaca o economista Roberto Dumas, professor do Insper. Até porque há a perspectiva de mais uma tarifa de 12,5% — esta sobre importações de produtos produzidos com trabalho forçado — se somar aos 25%, tornando inviável a exportação de parte dos produtos brasileiros para os Estados Unidos. Nesse cenário, reforça Dumas, o Brasil precisa colocar a diplomacia à frente. Retaliar, avalia, não é o melhor caminho. — O governo tem que colocar o Itamaraty para trabalhar. Retaliar, pensando na psique de Donald Trump, pode levá-lo a dobrar tarifas, como já fez em outras vezes. A retaliação adianta quando pode levar a uma mudança de comportamento, o que não há chance em relação aos Estados Unidos. Não é bom se responder com o fígado. O governo deve continuar ajudando a abrir portas e não atrapalhar o trabalho feito pela iniciativa privada na busca de aumentar a lista de produtos isentos de tarifas — diz Dumas. Apesar de o impacto das tarifas americanas ter sido, na prática, muito menor do que se imaginava, Lia Valls, pesquisadora do FGV Ibre e professora da Uerj, concorda com Dumas que a negociação deve ser mantida. Ela ressalta que qualquer retaliação, além de ineficaz do ponto de vista da redução da taxação, desgasta ainda mais a relação com os Estados Unidos, que seguem sendo um importante parceiro comercial do Brasil. A economista ressalta: — Governo e empresas estão agindo corretamente em busca de acordo e novos mercados. Mas é importante lembrar que esses acordos têm um tempo de maturação, são para o médio prazo. Apesar da exportação total para os Estados Unidos terem caído, em alguns casos houve alta, justamente em segmentos em que isso acontece intraempresas. O acordo com a União Europeia pode trazer esse tipo de investimento para o Brasil, de fornecimento para a cadeia produtiva europeia, de itens de maior valor agregado, de empresas que produzem aqui de forma complementar a sua cadeia em outros países — explica. Lia destaca que a Seção 301 não é exatamente uma negociação, mas uma forma de os Estados Unidos satisfazerem seus interesses com mais rapidez. Sempre foi assim, diz a economista. A diferença é que, até aqui, havia mais objetividade nas demandas americanas, como propriedade industrial e telecomunicações. A questão agora é o caráter político das medidas. — O problema de Trump é que a visão da política comercial não é de mercado e isso trava a negociação. Há o inegociável, mas não se pode deixar a mesa, tem temas possíveis — avalia a professora.