O nutricionista esportivo, criador do Método LP, detalha os sinais que separam a fome física do impulso e explica por que essa diferença decide o sucesso de qualquer dieta. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lucas Peralles — Foto: Divulgação A cena é conhecida. O dia foi pesado, o jantar já passou, e mesmo sem fome o caminho até a geladeira parece inevitável. Come-se rápido, quase sem registrar, e o alívio dura pouco, seguido por uma culpa que promete começar tudo de novo na segunda-feira. Quem vive esse ciclo costuma se acusar de fraqueza. A nutrição comportamental, porém, dá outro nome ao fenômeno, fome emocional, e sustenta que ele não se resolve com força de vontade, e sim com estratégia. Lucas Peralles, nutricionista esportivo, trata essa distinção como um dos pontos centrais do Método LP, que aplica na Clínica Peralles, no Tatuapé, em São Paulo. Para ele, a maior parte das dietas fracassa não porque as pessoas ignoram o que comer, mas porque ninguém as ensinou a reconhecer por que comem. "Paciente que usa comida como anestesia precisa de estratégia, não de vergonha", afirma. Os sinais que diferenciam uma fome da outra A fome física se anuncia aos poucos. Cresce de forma gradual, aceita opções variadas e desaparece quando o corpo recebe o suficiente. No comportamento alimentar guiado pela emoção, o padrão é outro. A vontade chega de repente, mira um alimento específico, quase sempre doce ou ultraprocessado, e segue pedindo mais mesmo depois do estômago cheio, porque o que ela busca não é nutriente, é alívio. Reconhecer essa diferença no momento em que ela acontece é uma habilidade, e como toda habilidade, se treina. No Método LP, esse treino recebe o nome de autonomia emocional-alimentar, a capacidade de diferenciar fome de emoção, desejo de impulso e desconforto de urgência. Lucas Peralles reforça que não se trata de terapia, e sim de educação emocional aplicada à rotina, nomear o que se sente, prever os próprios gatilhos e preparar respostas práticas para eles. Por que proibir funciona tão mal? Diante da fome emocional, a reação mais comum é endurecer a dieta, cortar de vez o alimento que se repete nas escapadas. O tiro costuma sair pela culatra. A restrição aumenta a tensão em torno da comida, a tensão alimenta o impulso, e o impulso rompe a barreira com mais força, num ciclo de proibição e compulsão que cada volta deixa mais desgastante. A pessoa termina convencida de que o problema é ela, quando o problema é o mecanismo. Entender o gatilho em vez de punir a consequência. Se o episódio se repete todo fim de noite, a pergunta que importa não é como resistir à geladeira, e sim o que naquele horário pede anestesia: cansaço acumulado, ansiedade pelo dia seguinte, solidão. Identificada a causa, a resposta deixa de ser genérica, e o plano alimentar passa a incluir o que nenhum cardápio tradicional prevê: o que fazer quando a vontade não é de comida. O que muda no emagrecimento quando a emoção entra no plano? Essa mudança de foco explica por que tanta gente emagrece e engorda de novo, o conhecido efeito sanfona. A dieta resolve o cardápio, mas não toca no mecanismo que levava à comida, e, na primeira semana difícil, ele volta a operar. Por isso, no acompanhamento conduzido por Lucas Peralles, o plano alimentar é apenas uma parte do processo. A outra é preparar o paciente para os dias em que a rotina desaba, com estratégias de correção de rota que evitam transformar um episódio isolado em recaída completa. "Você não precisa comer perfeito. Você precisa repetir o que funciona", resume o nutricionista. A frase inverte a régua que costuma medir dietas, em vez de perseguir a semana impecável, o objetivo passa a ser encurtar a distância entre o tropeço e a retomada. Um jantar fora do plano deixa de ser fracasso e vira dado, mais uma informação sobre os próprios gatilhos. Um sinal de alerta que merece atenção Há, porém, um limite que separa a fome emocional ocasional de quadros que pedem outro tipo de cuidado. Quando os episódios se tornam frequentes e vêm acompanhados de perda de controle ou de sofrimento intenso, o quadro pode indicar compulsão alimentar, condição que exige acompanhamento de saúde mental junto ao nutricional. Reconhecer essa fronteira também faz parte de uma relação madura com a comida, e buscar ajuda profissional, em qualquer um dos casos, costuma ser o passo que encurta anos de tentativa e erro. Para a maioria das pessoas, no entanto, a fome emocional é menos um distúrbio e mais um idioma que ninguém ensinou a ler. Aprender a distingui-la da fome física não elimina o estresse nem os dias ruins, mas devolve a escolha ao lugar onde ela deveria estar. Entre o impulso e a geladeira, passa a existir uma pergunta, e é nela que mora a diferença entre repetir o ciclo e encerrá-lo.
Fome emocional: método de Lucas Peralles ensina a diferenciar vontade de comer e fome real
O nutricionista esportivo, criador do Método LP, detalha os sinais que separam a fome física do impulso e explica por que essa diferença decide o sucesso de qualquer dieta.









