"A vida é tão terrível que teria sido melhor não ter nascido. Quem tem tanta sorte? Ninguém numa centena de milhares."

Ditado judeu citado pelo filósofo sul-africano David Benatar no seu livro "Better Never to Have Been, The Harm of Coming Into Existence", numa tradução selvagem, "melhor nunca ter existido, o mal de vir à existência" —não conheço tradução em português.

Benatar foi entrevistado nesta Folha segunda-feira passada, dia 13 de julho, sobre o tema do antinatalismo, atitude que ele defende, antes de tudo, por razões ontológicas e éticas, e não políticas, a priori —como é o caso hoje em dia. Aliás, sua posição é próxima do filósofo romeno, radicado na França, Emil Cioran, que considerava ter nascido um "inconveniente", e do filósofo norueguês Peter W. Zapffe, que via a consciência como um mal maior dentro do mal que já era a vida.Não pretendo discutir a entrevista. Interessa-me a questão em si da proposta de recusa da reprodução humana e a queda da natalidade sustentada já há tempos em regiões mais afluentes da Terra. Nos últimos tempos tem sido comum relacionar a defesa da reprodução humana —tenham filhos!— a figuras políticas do panteão conservador, como faz, aliás, a entrevista citada acima.