É possível ainda percebermos o espanto como um modo de relação com o mundo?

Sócrates, no Teeteto, diálogo escrito por Platão, afirma "pois, esta é a paixão do filósofo: o espanto". "Não há outra origem da filosofia senão esta." A palavra para espanto é "thaumazein". Nela, ainda podemos entender "admiração profunda" ou algo similar. Repito: ainda é possível sentirmos tal espanto diante do mundo? A resposta deve ser cuidadosa. Temo que não —por razões históricas, econômicas, sociais, políticas e técnicas, além do surgimento da ciência moderna.

Ao falar em espanto ou admiração profunda não devemos pensar em coisas como "sinto espanto diante da política miserável do Brasil" ou "tenho uma admiração profunda pela obra de Dostoiévski".

Esse espanto do qual fala Sócrates é uma experiência estética radical —no sentido da sensação profunda que nos acomete diante do que não conhecemos, do infinito do universo, do puro mistério do Ser a nossa volta— que estabelece todo um modo de pensar. Dito de outra forma: o espanto socrático determina a cognição do mundo, ou seja, o modo como conhecemos o mundo, a forma como nos movemos nele e o sentido que atribuímos a ele. Esse espanto é o oposto da banalidade do cotidiano.