Espíritos práticos gostam de recriminar a filosofia pelo que seria um excesso de abstração. Reflexões filosóficas podem por vezes se tornar bem metafísicas, mas o caráter altamente especulativo da filosofia pode paradoxalmente transformá-la em precursora de ciências aplicadas. Um único e improvável evento, o grande terremoto de Lisboa, de 1755, conferiu a Rousseau e Kant o papel de fundadores espirituais de dois ramos da ciência moderna, a sociologia dos desastres e a sismologia.
Rousseau, tentando isentar Deus de culpa por ter causado tanta morte e destruição ao fazer a terra tremer em Portugal, apontou seu dedo acusador para os próprios homens. Em sua célebre "Carta sobre a Providência", o filósofo genebrino argumenta que não foi a natureza que, numa área exígua, "reuniu 20 mil casas de seis ou sete andares". E arremata: "quantos infelizes pereceram neste desastre, porque quiseram pegar, um suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?".
Com tais observações, Rousseau lançou ideias sobre uso e ocupação do solo, densidade populacional e responsabilidade social que estão no núcleo da forma como hoje pensamos a prevenção e a mitigação de desastres. A Carta de Rousseau era uma resposta a Voltaire, que usara o terremoto para questionar a noção de bondade divina diante de tragédias de grande magnitude.







