[RESUMO] O autor argumenta que a tragédia grega não é apenas um legado literário, mas uma forma de pensamento capaz de iluminar o presente. A coletânea de Eurípides, afirma, vem suprir a ausência de um projeto autoral sistemático de tradução do teatro trágico no Brasil, com unidade de tratamento poético e rigor conceitual.

O que a tragédia grega pode oferecer, hoje, de relevante para nossa visão de mundo? A ocasião de lançamento do quinto e penúltimo volume do teatro completo de Eurípides em tradução de Jaa Torrano —contendo as obras "Helena", "As Fenícias" e "Orestes"— fornece um forte estímulo para a busca de possíveis respostas a tal pergunta.

Sobre o teatro grego, convém mencionar de início que, das centenas de tragédias apresentadas nos concursos iniciados por volta de 534 a.C. em Atenas, chegaram até nós apenas 32, sendo sete de Ésquilo (525-456 a.C.), sete de Sófocles (496-406 a.C.) e 18 de Eurípides (480-406 a.C.).

A coletânea das peças de Eurípides coroa a iniciativa do tradutor, poeta e professor de grego da USP de traduzir todas as tragédias sobreviventes. No Brasil, há diversas traduções das tragédias, geralmente publicadas de modo esparso. Contudo, pode-se dizer que nos faltava um projeto autoral sistemático voltado à totalidade do teatro trágico, dotado de unidade no tratamento poético —caracterizado por dicção elevada e ritmada—, firmemente calcado na estrutura do original grego e orientado conceitualmente, encarando-se a tragédia como literatura e também como forma de pensamento.