'Há quem ainda ache normal dizer que uma vida vale mais que outra.' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/07/2026 - 03:25 "Espetáculo 'Viva a Vida' Questiona Superioridade Humana e Conexão com a Natureza" A peça "Viva a vida", de Regina Casé e Estevão Ciavatta, desafia a percepção de superioridade humana sobre outras formas de vida, instigando a reflexão sobre a coexistência com a tecnologia e a natureza. O espetáculo critica a pressa moderna e a hierarquia inventada, destacando a importância de reconectar-se com o meio ambiente e valorizar a sabedoria ancestral, em harmonia com a ciência e a tecnologia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Fui ao teatro achando que ia assistir a uma peça. Saí com vontade de pedir desculpas para uma samambaia. Parece piada, mas não é. A arte tem destas coisas. Tudo isso aconteceu quando estava assistindo “Viva a vida”, peça de Regina Casé com texto de Estevão Ciavatta, e fui tomada por uma daquelas sensações: a de que alguém conseguiu organizar em palavras muitos sentimentos que moram dentro da gente. Aliás, enquanto a peça acontecia, celulares no palco e na vida fizeram exatamente o que de melhor fazem: vibram. Uma mensagem. Depois outra. Ou ainda uma IA querendo “ajudar”. É curioso viver numa época em que até o silêncio precisa disputar espaço com notificações. A vida pulsa, o celular vibra. E a gente tenta coexistir com os dois. No contexto atual, estamos aprendendo um jeito inusitado de existir. Somos uma geração que precisa dividir a atenção entre o canto de um sabiá e uma inteligência artificial. A mensagem da peça nos lembra uma coisa constrangedora: nós nos achamos muito superiores aos demais seres. Discutimos quem tem razão, poder, quem merece mais, quem ocupa o topo da pirâmide... Como se fôssemos o centro da criação. Aí basta olhar uma foto da Terra vista do espaço para perceber que nosso ego sofre de um pequeno problema de escala. Somos um grãozinho azul perdido numa imensidão de galáxias. E, nos tempos atuais, vivemos correndo atrás do próximo trimestre, da próxima reunião, da próxima atualização do aplicativo. Enquanto isso, uma árvore leva décadas para crescer sem reclamar da demora. A floresta nunca teve pressa. Nós inventamos a pressa. E inventamos hierarquias demais. Há quem ainda ache normal dizer que uma vida vale mais que outra. Que um saber vale mais que outro. Que a ciência precisa competir com o sagrado, como se fossem adversários e não formas diferentes de fazer perguntas. Muitos povos indígenas nunca compraram essa briga, assim como muitas cosmologias africanas. Há tempos, entendem que gente, rio, bicho e planta fazem parte da mesma conversa. Que passado, presente e futuro não são gavetas estanques. Ailton Krenak nos lembra que precisamos adiar o fim do mundo. Gosto do verbo: adiar pressupõe responsabilidade compartilhada. Não existe super-herói da floresta. Existe comunidade. E meio ambiente somos todos que carregamos vários seres dentro de nós e coexistimos com seres fora de nós. A peça também nos faz refletir que conhecemos muito mais popstars da música do que árvores. Reconhecemos logotipos em segundos, mas não sabemos dizer quem é a vizinha verde que encontramos todos os dias na calçada. Isso não é só falta de letramento botânico. É falta de intimidade. A gente geralmente cuida melhor daquilo que conhece pelo nome. Talvez o maior erro da nossa espécie tenha sido transformar conexão em Wi-Fi. Conexão é outra coisa. É entender que a tecnologia pode caminhar ao lado da ancestralidade. Que ciência e encantamento não precisam se cancelar. Que inteligência artificial nenhuma substituirá a inteligência de uma floresta que há milhões de anos sabe produzir exatamente o ar que mantém todos nós vivos. Saí do teatro pensando nisso. Na árvore para quem nunca agradeci. Na planta cujo nome nunca aprendi. Na notificação que podia ter esperado. E de tudo que podemos fazer diferente.
Nós nos achamos muito superiores aos demais seres
'Há quem ainda ache normal dizer que uma vida vale mais que outra.'
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