"O Conto da Aia", uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem "aias", reprodutoras de membros da elite dirigente.
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem aflorar no imaginário da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito, do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as solteiras".








