O título, A Vida Invisível da Sra. Orwell, é eloquente e, ao mesmo tempo, paradoxal: ele desvela essa “vida invisível”, mas nos mantém no fechamento dessa identidade postiça de Eileen O’Shaughnessy, a “Sra. Orwell”.
O objetivo da escritora australiana Anna Funder parece ser tanto o da denúncia quanto o da ironia. “Ela não se encontra realmente nas biografias”, escreve no início de sua investigação sobre a primeira esposa de George Orwell, morta em 1945, aos 39 anos, durante uma cirurgia no útero.
E se isso acontece, aposta, é porque “os biógrafos de Orwell são sete homens olhando um homem”.
O livro se organiza em três níveis, apresentados de forma intercalada, não sucessiva. Há, em primeiro lugar, a leitura crítica das sete biografias de George Orwell (1903–1950) publicadas entre 1970 e 2003 e de parte da própria obra do escritor. Em segundo lugar, vem a extração de Eileen – cuja presença é frequentemente subentendida ou ignorada – desses blocos biográficos homogêneos. Em terceiro, a reelaboração dessa figura do passado dentro de uma reflexão que ocorre no presente.
Funder descreve sua investigação na primeira pessoa e boa parte da singularidade do livro está no modo como articula essas três dimensões: é o caráter não neutro de seu ponto de vista que dá solidez às reflexões sobre grandes temas – entre eles, a dimensão ética do gênero biográfico e os efeitos da lógica patriarcal na sociedade.








