Há algo muito poderoso em ser uma garota adolescente. Até mesmo em Gilead, uma teocracia fictícia imaginada por Margaret Atwood, que ocupou o lugar dos Estados Unidos e onde as mulheres são meras perpetuadoras da espécie. "Não tem a ver com seu poder na sociedade, é uma coisa de potência física, sexual, emocional, de crescer, de ver tudo isso explodir", diz o roteirista e produtor Bruce Miller.

Foi ele que transformou em série "O Conto da Aia" ("The Handmaid's Tale"), obra-prima da canadense Atwood, e agora dá vida à sequência dessa distopia social tão presciente, "Os Testamentos: das Filhas de Gilead".

A segunda temporada foi confirmada pouco após ele conversar com a reportagem da Folha, no último dia 20. A primeira, que chega ao fim nesta quarta (27) após dez episódios na Disney+, é permeada tanto pela força súbita que o roteirista descreve quanto por uma esperança teimosa inimaginável na primeira adaptação, que ficou no ar de 2017 a 2025 e cavou um lugar definitivo na cultura pop.

"Acho que [essa mistura de forças] traz otimismo", diz. Não importa o que tentem fazer com elas. Tentam arrancar a adolescência delas, e isso não funciona."

Não que "Os Testamentos" tenha um enredo infanto-juvenil, longe disso. Ainda assim, a ideia de contar a história de um regime hediondo pelo ponto de vista de quem cresceu dentro dele subverte a lógica de sofrimento que marcou "O Conto da Aia". É um alento bem-vindo nestes tempos em que o noticiário compete com a ficção quando os temas são autoritarismo, misoginia e retrocesso de direitos civis.A série, como o livro, alterna relatos de três mulheres que Gilead forjou: Agnes (Chase Infiniti), a filha da protagonista de "O Conto da Aia" sequestrada e criada por uma família da elite local; Daisy (Lucy Halliday), uma garota canadense cooptada pelos rebeldes e enviada ao centro do regime como espiã; e tia Lydia (Ann Dowd), a responsável por educar as filhas da aristocracia e já conhecida na série anterior como a implacável tutora das aias (as servas sexuais obrigadas a repovoar o país).