Galpões fabris do início do século XX passam por processo de restauração e adaptação de uso, cedendo lugar a galeria de arte e ‘data center’ Na cidade de São Paulo, fábricas do início do século XX estão ganhando vida nova quase cem anos depois: reforma e uso moderno sem perder a identidade arquitetônica — Foto: KRUCHIN ARQUITETURA/DIVULGAÇÃO O processo de industrialização na capital paulista teve início ainda nos anos 1880, com o surgimento das primeiras fábricas de tecidos, couro e garrafas em bairros como Mooca, Ipiranga, Brás, Barra Funda e Campos Elíseos. Na virada do século, o estado experimentou um “boom” de plantas fabris: segundo o Censo Industrial de 1920, havia 1,4 mil indústrias em funcionamento naquele ano, com quase 89 mil operários. Porém, a partir dos anos 1990, após sucessivas crises econômicas e com a perda da relevância industrial no PIB nacional, boa parte dessas empresas foi à falência, e seus prédios acabaram abandonados ou subutilizados. Um dos casos mais emblemáticos é o da Companhia Antarctica Paulista, na Mooca. Construído em 1892 e reformado duas décadas depois, o complexo é formado por seis edifícios principais e tem conexão com o Rio Tamanduateí. Desativado em 1995, foi tombado pelo Conpresp em 2016, mas segue fechado e em estado de abandono. Agora, a boa notícia: mais de um século depois, parte do patrimônio industrial paulistano tem sido resgatada e ressignificada, ganhando novos usos na cidade. Em agosto, a antiga Fábrica de Vassouras Cerello, fundada em 1908, será reaberta com novo nome e função: Galeria Téo Cleveland, que vai abrigar um acervo valioso de móveis e seis oficinas de restauro. O nome faz referência à rua onde está localizada, nos Campos Elíseos, e a seu atual proprietário, o colecionador de arte Teo Vilela Gomes. “Comprei o imóvel há dois anos, após assistir ao vídeo de um corretor. Fiquei encantado com a beleza do lugar e a possibilidade de trazer os itens da minha coleção para cá”, afirma Teo Vilela que, ao lado da irmã, Lis, tem trabalhado pela preservação da memória do mobiliário moderno brasileiro. Nos Campos Elíseos, uma fábrica de vassouras de 1908 foi transformada em espaço cultural: a Galeria Teo Cleveland — Foto: FOTOS DE NELSON KON/DIVULGAÇÃO Serão dois percursos: um para conhecer a história do galpão, outro para acompanhar a trajetória do móvel modernista por meio de núcleos segmentados por designers, como Sergio Rodrigues e Jorge Zalszupin. A obra de restauro ficou a cargo do escritório Tacoa Arquitetos, com o suporte de Fernanda Carvalho, historiadora do Liceu de Artes e Ofício de São Paulo, responsável pelo resgate da documentação e dos materiais originais encontrados no prédio. “São máquinas importadas da Alemanha e dos Estados Unidos, sobras de produção de matéria-prima e vestígios da memória social da época, dados importantes para a História da cidade”, pontua Fernanda. Do ponto de vista arquitetônico, a fachada teve a volumetria original recuperada, assim como o piso de paralelepípedo, janelas, esquadrias e intervenções realizadas no interior. “Grandes cidades do mundo têm reincorporado esse tipo de patrimônio industrial. São Paulo demorou para perceber o valor dessa requalificação para novos usos”, observa Fernando Falcon, do escritório Tacoa Arquitetos. Outra fábrica que terá novo uso é o da Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, idealizada pelos industriais Rodolfo Crespi e Nicola Carbone e inaugurada em 1911, no Brás. Décadas depois, incorporada às Indústrias Reunidas Matarazzo, passou por reformas e ampliações na década de 1930, com projeto executado pelo escritório Ramos de Azevedo, Severo & Villares. Em 1983, a edificação de dois pavimentos foi cedida à Dataprev, responsável pelo processamento de dados do Ministério da Previdência. A partir da década seguinte, foi parcialmente ocupada por “data centers”. O escritório Kruchin Arquitetura vai modernizar a estrutura, restaurar a fachada original e manter a configuração espacial existente, recuperando a alvenaria de tijolos, elementos ornamentais e esquadrias, e respeitando a identidade fabril do edifício, tombado pelo Condephaat. A entrega está prevista para 2028, e o investimento supera R$ 110 milhões. “O edifício será um elemento importante de renovação urbana e valorização do patrimônio industrial da cidade e poderá estimular a transformação de áreas vizinhas”, avaliao arquiteto Samuel Kruchin.
Antigas fábricas ganham vida nova em São Paulo
Galpões fabris do início do século XX passam por processo de restauração e adaptação de uso, cedendo lugar a galeria de arte e ‘data center’









