A geração de novos projetos de prédios corporativos em São Paulo já não é mais a mesma. Saiu a estética dos caixotes de vidro, e eles estão mais descolados, modernos e sustentáveis, além de combinar usos. Parte desta transformação cabe ao escritório de arquitetura FGMF — de Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz —, que assina alguns dos edifícios desta safra criativa, que tem ajudado as empresas a reter talentos, agregar valor à imagem dar mais rentabilidade ao incorporador. Na visão do escritório, a boa arquitetura não é inimiga dos bons negócios. Vocês têm feito prédios de escritórios nada convencionais. É uma nova tendência? Fernando Forte — A criação de ambientes mais agradáveis tem sido uma demanda forte. Sugerimos sair do caixote de vidro e fazer algo que tenha terraços, mezaninos e pé-direito duplo ou triplo, que qualificam a laje, mesmo ela sendo menor do que num prédio "triple A". É um risco que se corre, mas é também uma oportunidade de atrair as empresas que estão no topo do mercado. Quais as vantagens dessa abordagem? Rodrigo Ferraz — Além da qualidade de vida no trabalho, em alta desde a pandemia, ela ajuda a reter talentos, reforça os valores da companhia e, com mais terraços e áreas verdes, tem mais área bruta locável. É preciso pensar fora da caixa na arquitetura, mas também entregar soluções que sejam economicamente atraentes para o incorporador. O projeto fica mais caro? Lourenço Gimenes — Um projeto assim é mais complexo e, claro, pode custar mais do que uma caixa de vidro, mas entrega muito mais área utilizável do que um prédio corporativo convencional. Existe uma percepção equivocada no mercado de que a boa arquitetura é inimiga do bom negócio. É exatamente o contrário. A partir do melhor design, você alcança um produto mais rentável. Pode até custar mais, mas vai valer a pena no final. Edifício Valente, em Pinheiros: arquitetura criativa, terraços e pé direito triplo para atrair empresas do topo do mercado e entregar maior rentabilidade — Foto: FGMF / DIVULGAÇÃO No portfólio de vocês, há edifícios corporativos com apartamentos na torre. Qual a proposta? Gimenes — Existe na cidade uma política de incentivo a projetos de uso misto, seja uma loja no térreo ou uma composição diferente na torre, tendo como contrapartida um aumento de 20% no potencial construtivo do terreno. O que fizemos foi fugir dos estúdios e fazer apartamentos mais confortáveis, que podem atender a executivos ou expatriados que trabalham no mesmo prédio. Forte — Essa diversidade de usos ajuda a evitar um problema que temos em alguns bairros da cidade, que é a desertificação nos finais de semana. A região da Berrini, por exemplo, no Brooklin, tem um excesso de prédios exclusivamente corporativos, o que torna o lugar vazio e inseguro de sexta a domingo. Fica desagradável, sem vida. Impacta na dinâmica do bairro também. Um prédio com moradia, trabalho, lojas e restaurante muda o ritmo do entorno, atraindo mais pessoas, empresas e novos serviços para a região. Apartamento residencial no edifício Art Tower, em São Paulo: uso misto mantém bairros mais dinâmicos — Foto: 3Z REALTY/DIVULGAÇÃO A sustentabilidade já virou pré-requisito no segmento corporativo? Gimenes — Para nós, é um pré-requisito da profissão. É obrigação do arquiteto criar espaços confortáveis, adequadas ao uso humano, de baixo impacto ambiental e com uso racional de recursos e materiais. No corporativo, acaba sendo importante para o posicionamento das empresas, sobretudo as multinacionais, que têm exigências rígidas quanto ao tema. Ferraz — Temos feito isso há algum tempo. O Edifício Corujas, por exemplo, é de 2014 e nele fizemos espaços avarandados generosos e jardins privativos, visando criar um espaço mais humanizado para trabalhar. O resultado foi um prédio que, hoje, tem fila de empresas para locação e preço de metro quadrado similar ao da Faria Lima. O Ibira Work, de 2024, foi projetado em estrutura metálica para garantir grandes vãos, suporte para brises tensionados, jardineiras suspensas e pérgolas, fornecendo conforto térmico e uma espécie de microclima em todos os níveis da construção. Próximo ao Parque Ibirapuera, o corporativo butique Ibira Work traz praças de convivência, jardineiras suspensas e muita luz natural — Foto: FGMF/DIVULGAÇÃO A relação com a natureza se tornou-se essencial no ambiente de trabalho? Gimenes — Sim e o Distrito Itaqui, na região de Alphaville, é um exemplo disso. Lá, a premissa do cliente foi a preservação da natureza local. São 70 hectares de área, mas apenas 10% receberão edificações, todas mimetizadas à paisagem, que passou por um reflorestamento nos últimos dez anos. O processo resultou em um ecossistema tão equilibrado que há registro de três espécies de felinos que foram viver naquela vizinhança. É o tipo de projeto que pode inspirar empresas de diversos setores a buscar locais ao redor da capital para sediar seus escritórios, saindo um pouco de uma zona de decisões automáticas. Quais segmentos econômicos poderiam seguir o exemplo? Ferraz — O setor de "data centers", que vem crescendo no país. Em geral, são caixas fortes de concreto, sem relação nenhuma com o entorno, com baixíssima densidade de mão de obra, que consomem volumes absurdos de energia. Mas não precisaria ser assim. Ele pode ter outros usos periféricos. Na região de Alphaville, Distrito Itaqui terá edificações mimetizadas com a paisagem e preservação de 90% do terreno — Foto: FGMF/DIVULGAÇÃO Que tipo de uso periférico? Forte — Eu acabei de voltar de Copenhagen, na Dinamarca, e conheci a usina de compostagem de lixo CopenHill, cujo teto inclinado serve de jardim no verão e de pista de esqui no inverno! E, na lateral, ainda tem uma parede de escalada. Ou seja, o que era para ser um caixote com chaminé, virou um parque público para as pessoas que vivem nos arredores. Outro projeto que vi na cidade — o Park'n'Play, da JaJa Architects —, é um estacionamento de bairro com playground ao ar livre no topo, repleto de brinquedos urbanos para as crianças. Não custou nada a mais e gerou um impacto positivo para o bairro e a imagem da própria empresa. Ferraz — São ideias possíveis, que poderiam ser desenvolvidas por aqui com contrapartidas para as cidades. Do ponto de vista econômico, quanto mais houver correlação de uso do empreendimento com a cidade, melhor. Valoriza o endereço, atrai todo um sistema que se abasteceria dessa proposta, sem precisar de estímulos públicos. Certamente, seria também o mais assertivo no aspecto urbanístico. Residencial Elounda Hills, na ilha de Creta, Grécia: internacionalização do escritório com projetos de alto padrão — Foto: Divulgação O escritório tem desenvolvido projetos na Europa. Como tem sido a experiência? Gimenes — Já fizemos projetos em Portugal, Belarus e França e estamos desenvolvendo um residencial na Grécia: o Elounda Hills. O condomínio fica na região norte da Ilha de Creta, a parte mais nobre do lugar. São terrenos de 15 mil a 20 mil metros quadrados dentro do complexo que terá hotéis e restaurantes. Eles ficam em encostas íngremes, com 60% de inclinação, muitas pedras e muito sol. Tem sido bacana projetar fora do Brasil porque isso nos força a pensar diferente, com soluções que não precisamos desenvolver por aqui. Com esta topografia e um limite de altura de dez metros exigidos pela legislação local, vamos precisar escavar a montanha para fazer caber os prédios de apartamentos e as casas. Elas ficarão embutidas nestes recortes, com terraços voltados para o mar, piscinas privativas, pátios internos e telhados verdes, para amenizar o calor. Serão apartamentos de três ou quatro quartos, com 250 metros quadrados, e casas com até 700 metros quadrados. O valor estimado pelo incorporador deve ficar entre 5 milhões e 14 milhões de euros – ou de R$ 15 milhões a R$ 42 milhões. E qual é o próximo destino? Forte — Estamos conversando com incorporadores da Albânia. O governo daquele país vem se esforçando para melhorar a infraestrutura e o ambiente de negócios e atrair novas empresas e investimentos, incluindo no mercado imobiliário. De toda forma, nosso foco principal no exterior é o Mar Mediterrâneo.
"A boa arquitetura não é inimiga do bom negócio, pelo contrário."
Entrevista | Rodrigo Ferraz, Fernando Forte e Lourenço Gimenes, sócios da FGMF Arquitetura







