Entrevista | Roberto Aflalo Filho, Sócio-diretor aflalo/gasperni arquitetos Roberto Aflalo Filho — Foto: Bob Wolfenson/Divulgação Muita coisa mudou na cidade de São Paulo, na arquitetura e no mercado imobiliário desde que Plinio Croce, Roberto Aflalo e Gian Carlo Gasperini fundaram a aflalo/gasperini arquitetos, em 1952. Não havia tantos prédios e trânsito na capital, os projetos eram todos feitos a mão e a relação com os incorporadores não estava consolidada. Ainda assim, o escritório prosperou e está prestes completar 65 anos. Roberto Aflalo Filho, arquiteto formado pela FAU-USP, primogênito de um dos fundadores e atual sócio-diretor do escritório — ao lado de Luiz Felipe Aflalo Herman, Grazzieli Gomes Rocha e José Luiz Lemos da Silva Neto —, a tarefa de contar o segredo da longevidade e os planos para o futuro. O escritório é um dos mais longevos do país. Qual o segredo? Roberto Aflalo Filho — Acredito que seja a visão empresarial que meu pai, Roberto Aflalo, implantou no escritório, algo pouco comum para a época. Uma estrutura de gestão profissional, com sócios, áreas definidas e processos que resultam em projetos assinados pela companhia, independentemente de quem tenha feito o trabalho. Além disso, é preciso se reinventar todos os dias, manter um processo de renovação constante. Se ficar parado, o bonde da história passa. Como vocês lidam com a Inteligência Artificial? Há uma inquietação sobre como vamos nos adaptar e a postura que adotaremos de forma estratégica. A IA é válida em todos os sentidos, mas é preciso saber onde e como usar. Ela ajuda na automatização de rotinas e nos processos de produção de desenho de conceitos já consolidados. Mas a criação conceitual ainda é humana, e isso não deve mudar. Se acontecer, e a máquina aprender também a criar os projetos, acharemos outra forma de permanecer arquitetos. O que seu pai, que completaria 100 anos em 2026, acharia da tecnologia? Ele sempre foi muito aberto a novas ideias. Foi ele quem comprou o primeiro computador para o escritório, um IBM AT286. Então, veria como algo positivo, sem dúvida. Da esq. para dir., Luiz Felipe Aflalo Herman, Grazzieli Gomes Rocha, José Luiz Lemos e Roberto Aflalo Filho, sócios do escritório aflalo/gasperini arquitetos — Foto: BOB WOLFENSON/DIVULGAÇÃO Gian Carlo Gasperini também faria 100 anos agora. Algum evento para homenagear os dois? Descobrimos recentemente uma luminária que o Gasperini criou para o Citibank, nos anos 1980. E temos uma mesa de centro que meu pai também desenhou no passado. Vamos reeditar as duas peças e lançar em número limitado, em parceria com a marca de mobiliário Ethel. A arquitetura virou item essencial no segmento de alto padrão? Para alguns incorporadores, sim. Acham importante contar com um bom projeto de arquitetura. Outros, preferem investir em uma marca de luxo para assinar o empreendimento, com o arquiteto como executor do projeto. Isso já aconteceu conosco, inclusive. Mas isso não é novo, no passado também era assim. Havia projetos modernistas bacanas e outros em “estilo” mediterrâneo, colonial e neoclássicos depois, que eram as “grifes” da época. O papel do arquiteto mudou nessa relação com o mercado imobiliário? Sim, ele precisa entender cada vez mais do negócio. É importantíssimo. Além de oferecer soluções arquitetônicas, é preciso montar um programa que seja atrativo para o mercado. Somos uma antena do que pode ser tendência com potencial de rentabilidade, e o incorporador espera isso do arquiteto. Helbor Jardins por Artefacto: arquiteto precisa estar atento ao negócio imobiliário — Foto: DANIEL DUCCI/DIVULGAÇÃO Você fez pós-graduação em Desenho Urbano em Harvard. Como avalia a cidade de São Paulo sob esse aspecto? São Paulo foi desenvolvida sob um viés modernista, com prédios soltos nos lotes, bairros sem diversidade de uso e o automóvel como elemento central de mobilidade. Isso gerou uma cidade com muitos prédios cercados por muros e grades, localidades inseguras devido ao uso restritivo e grande dependência do carro para o deslocamento das pessoas. No último Plano Diretor Estratégico, de 2014, essa lógica foi invertida. O foco foi para o pedestre e o estímulo ao uso do transporte público, limitando o número de vagas de garagem nos prédios. As calçadas ficaram mais largas, e os recuos dos lotes foram ocupados por fachadas ativas, que estimulam a circulação de pessoas. Criou-se também a diversidade de usos dos apartamentos. Enfim, são mecanismos de desenho urbano que têm interferido na construção da cidade. A cidade ficou melhor, então? Em muitos aspectos, sim. Mas seria fundamental uma análise mais crítica do atual Plano Diretor, voltada para a qualidade dos ambientes urbanos e a forma como o adensamento criado tem impactado os bairros, mas é preciso também um cuidado maior com as fachadas ativas — não basta criar caixas de vidro e alugar. Vamos ver se conseguimos isso na próxima revisão. O que temos visto é uma transformação galopante de bairros no entorno de estações de Metrô e corredores de ônibus. Foi uma quebra de paradigma o estímulo à moradia perto do transporte de massa, fundamental para a sobrevivência da cidade, mas também tem problemas decorrentes que precisam ser revisados e mitigados. Edifício W Residences São Paulo, na Vila Olímpia, tem fruição pública e fachada ativa, novidades estimuladas pelo Plano Diretor — Foto: PEDRO MASCARO/DIVULGAÇÃO
“É preciso se reinventar todos os dias, manter um processo de renovação constante. Se ficar parado, o bonde da história passa”
Entrevista | Roberto Aflalo Filho, Sócio-diretor aflalo/gasperni arquitetos







