Qual o peso da palavra sagrada? Se estamos falando de evangelização por meio da música no Brasil, nos dias de hoje, parece não haver limite para quilogramas/decibéis: o heavy metal, o punk rock e os seus muitos ruidosos e agressivos subgêneros têm sido cada vez mais representados no vasto repertório para se louvar o Senhor. Um termômetro disso é a página Under Christ no Instagram, que, em pouco mais de um ano de existência, angariou mais de 46 mil seguidores com discussões acerca do lado mais pesado (em som e polêmicas) do rock cristão do underground. Um rock, aliás, nem tão subterrâneo assim, pelo menos desde a recente volta do Rodox — a poderosa banda de orientação cristã que o ex-cantor dos Raimundos, Rodolfo Abrantes, montou no começo dos anos 2000, após sua conversão (o grupo tinha durado pouco, apenas dois álbuns). A radical mudança de vida de Rodolfo (que vivia intensamente a tríade sexo-drogas-rock’n’roll) é ponto central do documentário de sucesso do Globoplay “Andar na Pedra — A história do Raimundos”. E serve de introdução para um outro doc, da TV Globo, em fase de edição e ainda sem data de exibição: “Cantai ao Senhor: a história da música evangélica brasileira”, que, ao longo de seus quatro capítulos, explica um pouco das origens do rock cristão no país. O Under Christ é uma ideia de Samuel Sopa, curitibano de 21 anos, cuja família o criou dentro da Igreja do Evangelho Quadrangular, e que sempre gostou muito de rock. Ele se desiludiu da igreja (mas não de Cristo) após enfrentar críticas por ter ido a um show dos Red Hot Chili Peppers. — Você ia no meio de pessoas que gostavam de rock e, quando falava em rock cristão, elas se afastavam. E, na comunidade cristã, as pessoas diziam: “Ah, não venha com esse rock perto de mim, porque isso é coisa do diabo!” Enfim, era preconceito dos dois lados — sintetiza Samuel. — Fiquei um tempo sem ir à igreja, até que encontrei a Comunidade Gólgota, que abriu meus olhos para muita coisa. Fui entendendo o verdadeiro amor de Cristo, e falei: “Pôxa, posso criar uma página sobre isso!” A gente foi postando, postando, e, em três meses, tinha cinco mil seguidores. Hoje, somos cinco pessoas produzindo conteúdo para a página. No Under Christ, fala-se de bandas cristãs estrangeiras pesadas, como P.O.D., Switchfoot e Skillet, e algumas mais recentes, da vertente metalcore, como As I Lay Dying, The Devil Wears Prada, Demon Hunter, Sleeping Giant e HolyName. Dá-se destaque a festivais nacionais de rock pesado cristão, como Visão das Tribos e King House Festival, e a bandas brasileiras como os veteranos Oficina G3, Fruto Sagrado, Metal Nobre, Alva e Ordonay, de Brasília. Cantor do Ordonay, Dedel Marx, de 32 anos, conta que a banda foi fundada em 2011, quando “uma música um pouco mais pesada já era mais aceitável” nas igrejas. Ele teve sua conversão, na adolescência, na Assembleia de Deus, e hoje frequenta a Igreja Presbiteriana. Influenciado por bandas seculares como Linkin Park, Limp Bizkit, System of a Down e Pink Floyd, o Ordonay lançou ano passado seu mais recente álbum, “Não à toa o inferno é quente” (que já conta com 300 mil streams), com músicas pesadas em som e letra. “Ciranda do inferno”, por exemplo, fala em “igreja de parede preta”, “profeta mirim” e “pastor de calcinha”. Dedel diz não ter problema em discutir “coisas problemáticas do nosso meio”: — Seria muito cômodo eu, sendo um cristão, fazendo parte de uma comunidade de fé, ficar direcionando minhas críticas só para um outro grupo do qual eu não faço parte. Então, o que a gente procura fazer é apontar essa bazuca para dentro, para o nosso próprio mundinho. Vamos tacar fogo aqui dentro e ver o que que acontece. Teólogo e músico, fundador e líder da Comunidade Gólgota (a que acolheu Samuel Sopa, do Under Christ), o Pastor Pipe Bastos, de 54 anos, diz ser a favor de o cristão apontar os erros teológicos nas suas canções, “mas de modo respeitoso”. — O cara não tem necessariamente a intenção de ensinar algo errado — prega Pipe. — Agora, tem coisas em que a gente acaba batendo um pouco mais pesado, como o mercantilismo da fé, a teologia da prosperidade ou a teologia triunfalista. E o contrário, também: essa teologia muito liberal e progressista, isso a gente também acaba denunciando. A gente procura levar para um equilíbrio. Não dá para falar certas coisas que não convêm ao cristão, tipo “bandido bom é bandido morto”. Tem que ser focado no ensino de Jesus, no amor ao próximo, na misericórdia, no perdão e na graça. Na adolescência, em Foz do Iguaçu, Pipe viveu a cultura punk, se envolveu em muitas brigas e, em 1990, aos 18 anos, converteu-se à Igreja Presbiteriana. Ali, começou um trabalho de evangelização de punks. Mais tarde, casou-se e, em 1998, foi para Curitiba, onde conheceu projetos de evangelização de roqueiros (uma ação que, em São Paulo, nos anos 1990, era desenvolvida por Sandro Baggio, pastor que criou a comunidade Projeto 242 e uma casa de shows de heavy metal cristão, o Refúgio do Rock). — Até tentei procurar uma igreja Presbiteriana, mas acabei não me adaptando em nenhuma igreja aqui. Já tínhamos esse grupo que se reunia para pensar em termos estratégicos de evangelização, um grupo também desgostoso com as suas comunidades, que acabavam não dando a devida atenção a essa cultura, e começamos esse trabalho independente, que é a Comunidade Gólgota — conta o pastor Pipe. — Quando começamos, em 2001, éramos a única igreja pintada de preto, tanto por fora quanto por dentro. Apagávamos as luzes na hora do louvor, ficava aquela coisa meio com cara de show. E a galera pulava do palco, agitava na frente, batia os cabelos para tudo que é lado. Hoje, em Curitiba, em cada esquina tem uma igreja pintada de preto, que desliga as luzes na hora do louvor. Vocal endemoninhado Pipe observa que, se nos anos 1990, “era inconcebível o cristão fazer uma tatuagem, hoje tatuadores cristãos é o que mais tem”. E que diminuíram as resistências às músicas com vocal mais gutural, “aquele vocal mais cavernoso, em que parece que o cara está endemoniado”. O Brasil segue de perto uma história que, no exterior, deu em bandas como a americana Stryper (de metal cristão, dos anos 1980, famosa pelo disco “To hell with the devil” —“Para o inferno com o diabo”, em tradução livre) e outras mais impensáveis (por lidarem com estilos de temática predominantemente anticristã), como o Mortification (australianos, de “death metal do Senhor”, que vêm ao Brasil para uma turnê no ano que vem) e o Antestor (de “black metal cristão”, da Noruega, onde alguns de seus colegas de cena foram para a cadeia por queimar igrejas). — Não que a gente tenha se apropriado de um gênero. Até pessoas da própria cena black metal consideram muito o Antestor, porque o som deles é muito pesado — argumenta Samuel Sopa, do Under Christ. — É a mesma coisa que dizer que os roqueiros se apropriaram do rock, já que ele foi criado por Sister Roseta Tharp, uma mulher negra e cristã. Muitas pessoas que vieram depois dela, como Elvis Presley, falaram que foi a inspiração. Então, o rock não é uma coisa de que a gente está se apropriando. Para Dedel Marx, do Ordonay, não existe contradição em se pegar estilos associados ao anticristianismo para fazer música cristã. — Se tem pessoas aqui falando sobre satanismo, sobre essas coisas que, dentro da nossa fé, a gente considera blasfêmias contra o Deus em que a gente crê, então vamos usar essa parada para falar de Deus também — defende. Diretor da série “Cantai ao Senhor: a história da música evangélica brasileira”, Ricardo Alexandre acredita que “ter uma banda de black metal com mensagens cristãs seria apenas uma estratégia para você levar uma mensagem verbal para determinados segmentos”. — Isso vem da visão de que há um público a ser alcançado nos bares de rock. Então, ele vai se valer de determinados gêneros para evangelizá-lo — diz. — Você vai encontrar manifestações como as do rock psicodélico evangélico dos anos 1960 e 70, do hard rock e do hair metal evangélico ali nos 80... É natural que haja essa manifestação, porque a fé cristã propõe que todo o Universo foi criado em Deus e para Deus. Toda área do conhecimento humano é de interesse de Deus, seja o mercado de finanças, seja o heavy metal. Todas estão sujeitas à decadência do pecado e, ao mesmo tempo, à redenção de Deus. Para Ricardo, “a presença evangélica no Brasil era muito baseada na negação, sempre foi uma proposta reativa”. — O evangélico sempre se viu mais representado pelo que ele não fazia do que pelo que de fato fazia. Isso é muito próprio de um grupo que sofreu muito preconceito, em um país cujo cristianismo foi trazido pelos católicos da Contrarreforma. Um país que tinha uma religião oficial até o final do século XIX — diz. — Ocorre que, nos últimos 30 anos, o universo evangélico se tornou muito mais permeável ao Brasil, à diversidade brasileira. Os evangélicos hoje são muito mais parecidos com o Brasil do que o Brasil se tornou mais parecido com o evangélico. Sem proselitismo Nesse contexto do rock cristão brasileiro, Samuel Sopa vê a volta do Rodox como algo importante “porque trouxe pessoas de volta para a cena do rock cristão”. Para o pastor Pipe, ela aguça a curiosidade de uma nova geração que era muito criança (ou nem tinha nascido) quando a banda fez seus últimos shows. Ricardo Alexandre cita depoimento do pastor Sandro Baggio para o “Cantai ao Senhor”, em que ele fala da decepção que teve com Rodolfo Abrantes quando ele encerrou o Rodox e foi pregar (“Ele fala que o Rodox apontava para uma coisa que o Brasil não tinha, que era uma banda de cristãos fazendo rock, como o U2”). — O Rodolfo tem uma consciência de que a vocação dele é como artista e não como um pregador que está se valendo do rock pesado para fazer evangelismo — analisa Ricardo. — A fé dele transparecerá na sua música, nas suas letras, na sua postura, na sua vida, nas suas entrevistas. Assim como a fé da Clara Nunes transparecia e ela não era uma proselitista do candomblé. Algumas polêmicas, porém, persistem, como a da banda americana As I Lay Dying, cujo vocalista, Tim Lambesis, cumpriu seis anos de prisão, por tentar contratar um assassino de aluguel para matar sua ex-esposa. Ao sair da prisão, ele remontou a banda (com outros músicos, não os originais) e seguiu fazendo shows — inclusive um em São Paulo, no começo deste ano. Samuel Sopa garante que não iria a um show do As I Lay Dying: — O Tim já falou em entrevistas que surfou mesmo na onda do rock cristão para ganhar dinheiro, é um cara que debochou da gente. Dedel Marx, por sua vez, diz que parou de acompanhar a banda “depois dos problemas lá que rolaram, mas, se eles fizessem um show aqui tocando os álbuns lá que eu ouvi na época, acho que poderia colar”: — Eu iria para ver um show de rock, e pronto, depois voltaria para casa sabendo que vi ali um psicopata, um provável assassino que, sei lá, cumpriu o que devia para a Justiça e está solto de novo e caminhando por aí. Se existe perdão para mim, tem que existir para ele também. O pastor Pipe vai pelo mesmo caminho: — Não tenho direito algum de não perdoar. E não deixei de ouvir as músicas do As I Lay Dying porque eu diferencio a música do artista. Se eu for olhar para a vida do artista, muita coisa teria que parar de ouvir. Mas não vou a um show deles porque tenho essa questão saudosista da formação antiga. Seria tipo assistir ao Iron Maiden sem o (vocalista) Bruce Dickinson! (Silvio Essinger)
Fé e Fenders: Cresce o movimento de cristãos roqueiros
Movimento se espalha em documentários, mais bandas e debates que evitam preconceitos vindos de diferentes lados e críticas a outros grupos religiosos: ‘A gente procura levar para um equilíbrio’











