Gilberto Tomazoni: “Não é tendência, mas uma mudança estrutural na forma como as pessoas se alimentam” — Foto: Nilani Goettems/Valor A indústria de alimentos começou a substituir sua estratégia de crescimento baseada em volume por produtos de maior valor agregado diante do avanço dos medicamentos para tratar obesidade. Gigantes como JBS, MBRF, Nestlé e Danone passaram a direcionar investimentos para proteínas, fibras e nutrição funcional, apostando na maior demanda por alimentos de alta densidade nutricional entre usuários de GLP-1. Embora a penetração desses medicamentos ainda seja baixa, os primeiros sinais da mudança já aparecem. Consumidores em tratamento reduziram as compras de bens de consumo massivo, enquanto categorias de maior teor calórico perderam espaço e suplementos ganharam participação. Os reflexos dos novos hábitos também aparecem nas gôndolas dos supermercados. Levantamento da Scanntech, que monitora mais de 21,7 milhões de pontos de dados no varejo brasileiro, mostra que, desde o último trimestre de 2025, categorias de maior teor calórico registraram retração em volume, como cerveja (-1,03%), petiscos (-0,82%) e chocolates (-0,72%). No mesmo período, suplementos alimentares cresceram 5,53% e a carne bovina in natura avançou 0,43%. Os dados do varejo refletem mudanças de comportamento identificadas em outras pesquisas. Segundo levantamento da Euromonitor International, 54% dos usuários latino-americanos de GLP-1 relatam redução do desejo por comida, 46% diminuíram o consumo de bebidas açucaradas e 41% passaram a se exercitar mais. “O GLP-1 é um catalisador, mas também é contexto. Essas mudanças já estavam em curso e o remédio ajudou a acelerar”, afirmou Adriana Murasaki, analista sênior de alimentos e nutrição da consultoria. Ela ressalta, porém, que a predominância de alimentos in natura na dieta brasileira tende a limitar o impacto em relação aos Estados Unidos. Apesar desses indícios, a disseminação dos medicamentos ainda é limitada no Brasil. Dados da Worldpanel by Numerator mostram que usuários de GLP-1 reduziram em 12,9% o volume comprado de bens de consumo massivo nos três meses até fevereiro de 2026, enquanto consumidores sem o tratamento ampliaram as compras em 18,7%. Em categorias como biscoitos e salgadinhos, a retração entre usuários também foi superior à observada entre os demais consumidores. Ainda assim, apenas 2,4% dos lares brasileiros têm ao menos um usuário desses medicamentos. “Ainda não observamos uma mudança estrutural no mercado brasileiro como um todo, mas os sinais comportamentais são muito semelhantes aos vistos em mercados mais maduros, como o Reino Unido”, afirmou Rafael Couto, diretor da Worldpanel by Numerator. No país europeu, a penetração dos medicamentos passou de 2,3% para 6,3% dos lares em dois anos, segundo a consultoria. A estratégia já orienta decisões das maiores empresas do setor. Na JBS, o avanço dos medicamentos para obesidade reforçou a aposta em produtos de maior densidade nutricional, levando a companhia a ampliar seu portfólio de proteínas no Brasil e no exterior. O movimento inclui desde refeições congeladas da Seara até bebidas à base de clara de ovo, enquanto a marca Just Bare, da subsidiária Pilgrim’s, ultrapassou US$ 1 bilhão em vendas no varejo americano. “Não se trata de uma tendência, mas de uma mudança estrutural na forma como as pessoas se alimentam. Os medicamentos análogos de GLP-1 aceleram esse movimento, mas a busca por alimentos mais nutritivos, convenientes e de maior valor agregado já vinha transformando os hábitos de consumo”, disse ao Valor Gilberto Tomazoni, presidente global da JBS, em entrevista por e-mail. A MBRF, formada pela fusão entre BRF e Marfrig, também reforçou a aposta em proteínas, mas evita relacionar diretamente a estratégia ao avanço do GLP-1. “Ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre o uso desses medicamentos e uma mudança específica de volume, tíquete médio ou mix de categoria”, afirmou Luiz Franco, diretor de marketing e inovação. Ainda assim, a companhia investiu R$ 500 milhões na Gelprime e ampliou o portfólio das linhas Sadia PRO e Perdigão Meu Menu. Na Nestlé, a aposta se concentra na divisão de nutrição e saúde, que receberá mais de R$ 1 bilhão em investimentos na América Latina até 2027. Segundo a companhia, proteínas e fibras lideram o crescimento da categoria no Brasil. Na Danone, a empresa também ampliou a aposta em produtos ricos em proteínas e fibras, como YoPRO e Danone 5 Zeros. Segundo Arthur Lorenzetti, vice-presidente de nutrição especializada da empresa, o avanço do GLP-1 reforça uma tendência já observada de maior procura por alimentos com perfil nutricional mais completo. O movimento também alcança empresas de médio porte. A Lightsweet prepara o lançamento da linha Lowçúcar Protein e passou a considerar consumidores em tratamento com GLP-1 no desenvolvimento de novos produtos e na atuação em alimentação fora do lar (“food service”). Segundo o fundador e presidente, Amaury Couto, ainda é cedo para atribuir o crescimento das vendas aos medicamentos. No segmento de nutrição esportiva, o Grupo Supley, dono das marcas Max Titanium, Probiótica, Dr. Peanut e Znack That, desenvolve um composto nutricional específico para usuários de GLP-1, previsto para 2027. A empresa também vem adaptando seu portfólio com produtos e embalagens voltados a consumidores que buscam porções menores e maior densidade nutricional. A paranaense Maxinutri afirma já sentir os efeitos da expansão desses medicamentos sobre a demanda por suplementos. Segundo o presidente-executivo, Fernando Ferdinandi, as vendas da chamada “cesta GLP-1” cresceram mais de 10% no último ano, levando a companhia a acelerar o desenvolvimento de novos produtos e o treinamento de profissionais de saúde e balconistas. O avanço dos medicamentos à base de GLP-1 também passou a influenciar teses de investimento no varejo. Em relatório sobre o setor para 2026, o Santander aponta o avanço desses medicamentos como um dos fatores para elevar a recomendação das ações da Pague Menos, reforçar a tese de investimento para a RD Saúde e, no caso do Grupo SBF, identificar, ao lado da Copa do Mundo de 2026, um catalisador de curto prazo para os negócios da companhia. Na Pague Menos, a receita com medicamentos à base de GLP-1 cresceu 153% no primeiro trimestre e passou a representar 9,1% do faturamento da companhia. “Com a chegada de novos medicamentos que ampliem o acesso às classes B e C, vemos um potencial significativo de expansão desse mercado”, afirmou Walace Siffert, vice-presidente comercial da rede. Na RD Saúde, esses medicamentos já respondem por mais de 10% das vendas, ante cerca de 5% um ano antes, segundo a companhia. No varejo alimentar, GPA e Carrefour relatam expansão de espaços dedicados a categorias associadas à saudabilidade - caso do “Espaço Mais Equilíbrio”, do Pão de Açúcar, e do “Viver Bem”, inaugurado pelo Carrefour na loja Anália Franco, em São Paulo. Segundo o GPA, a demanda por produtos sem lactose cresceu 40% nos últimos 12 meses, por funcionais proteicos, 35%, e por itens sem glúten, 23%. Já o Carrefour observa “redução na participação de itens mais industrializados, acompanhada por um aumento na demanda por proteínas, frutas, legumes, verduras e produtos com maior valor agregado e funcionalidade”, segundo Marco Alcolezi, diretor executivo de operações hiper, super e proximidade da rede. Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) adota cautela e afirma que as adequações de portfólio são estratégias individuais das empresas e não configuram, necessariamente, uma mudança estrutural do setor. Já a Abrasorvete, que reúne mais de 200 fabricantes no país, afirma que 77,8% das associadas planejam investir em linhas proteicas ou funcionais até o fim de 2026. Segundo a entidade, metade das empresas associadas registrou aumento da demanda por produtos saudáveis nos últimos 12 meses e projeta crescimento real de 6% a 7% para o setor neste ano. Embora a penetração dos medicamentos para obesidade ainda seja reduzida no Brasil, o setor já parece operar segundo uma nova lógica. Em vez de disputar apenas o crescimento do volume vendido, empresas de alimentos passaram a concentrar investimentos em categorias capazes de entregar maior valor por porção, apostando que o avanço do GLP-1 vai acelerar uma transformação de hábitos que, para parte da indústria, já estava em curso.
Canetas emagrecedoras fazem indústria alimentícia adaptar planos para crescer
Mudança de hábitos acelera investimentos, apesar de o impacto ainda ser limitado no país












