Pulsa Explica: Como funcionam as canetas para obesidade? Tudo o que você precisa saber antes do usoMedicamentos análogos ao hormônio GLP-1 aumentam a saciedade e podem levar à perda de peso, mas não devem ser usados indiscriminadamente. Crédito: edição: Joaquim MacruzGerando resumoDepois de começar a mudar os hábitos de compra dos brasileiros e pressionar a indústria de alimentos e os supermercados, as canetas emagrecedoras estão chegando aos departamentos de Recursos Humanos (RH) das empresas. O medicamento de alto valor unitário, usado para tratar obesidade, começa a constar na lista de benefícios concedidos aos funcionários por algumas companhias, como VLI, Petrobras e Mondelez.PUBLICIDADEPesquisas apontam que 60% da população brasileira está acima do peso e entre 25% e 30% é considerada obesa. Essas proporções acabam se refletindo no quadro de pessoal das empresas e tornam um problema de saúde pública também numa questão privada para os empregadores. Depois da folha de salários, saúde é a segunda maior despesa das companhias com seus funcionários.O movimento das corporações de subsidiarem integralmente ou entre 30% e 50% o valor gasto na compra do remédio aos empregados ainda está no início, mas já foi detectado por quem presta serviços de medicina remota a empresas e planos de saúde e também por entidades ligadas à qualidade de vida no ambiente de trabalho.Caio Soares, diretor-médico da Teladoc, empresa que faz a gestão de saúde do RH de várias empresas e planos de saúde,alerta para o risco do uso das canetas fora de programas de emagrecimento Foto: Felipe Rau/EstadãoNa Teladoc, por exemplo, especializada em prestar serviço de medicina remota aos funcionários de 150 companhias, pelo menos um quarto das empresas já faz ou avalia implementar um programa de benefícios aos funcionários que envolva canetas emagrecedoras. O dado foi extraído do serviço prestado pela Teladoc, isto é, a triagem feita pela companhia antes de os funcionários das empresas clientes acessarem os planos de saúde. Publicidade“Quando a caneta era um produto importado com mais restrição, isso não estava tão em evidência. Mas agora é um assunto em discussão em toda rodinha de RH quando se fala sobre como trazer um benefício para os funcionários”, conta o diretor-médico da Teladoc, Caio Soares.Na Slimpass, que presta serviço de gestão completa de obesidade para operadoras de saúde e empresas, 10% de seus clientes hoje subsidiam as canetas a funcionários ou usuários de planos de saúde e cerca de 20% avaliam adotar a medida, segundo o sócio-fundador da empresa, o médico André Nassif. Direta e indiretamente (por meio de planos de saúde), a Slimpass atende cerca de 50 empresas.“Com a queda da patente da semaglutida, existe uma promessa muito grande de diminuição de custos. E isso tem motivado mais as empresas a procurarem entender, orçar e planejar esse subsídio”, diz Nassif.Alberto Ogata, membro do conselho da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), também constatou que há uma tendência de as empresas reservarem parte do orçamento para planos de redução de obesidade dos funcionários por meio de subsídios à compra de canetas emagrecedoras.Publicidade“Um ano atrás, não existia ninguém fazendo isso, mas agora a gente já conhece algumas experiências”, diz médico. De toda forma, ele pondera que ainda não tem dados consolidados sobre o número de companhias que oferecem o benefício aos empregados.Apesar de o movimento estar em fase inicial, há casos concretos de empresas subsidiando as canetas como forma de benefício. A VLI, por exemplo, gigante de logística multimodal, que movimenta cargas, principalmente fertilizantes e grãos, por ferrovias, terminais portuários e rodovias do País, decidiu implantar um programa para tratar da obesidade e melhorar a qualidade de vida dos funcionários. A empresa faturou no ano passado R$ 9,95 bilhões e tem hoje cerca de 8 mil empregados.Tudo começou a partir de exames periódicos dos funcionários de 2025, quando foi detectado que havia cerca de 2 mil empregados com algum grau de obesidade. “Em torno de 25% da minha população estava com algum tipo de obesidade, e como é que a gente vai lidar com esse público, que tem uma chance muito grande de adoecimento?”, questiona Aparecida Carvalho, médica do Trabalho e gerente de Saúde da VLI.Aparecida Carvalho, médica do trabalho e gerente de saúde da VLI, que reservou R$ 200 mil do orçamento para subsidiar por seis meses canetas emagrecedoras para um um grupo de 55 funcionários Foto: Taba Benedicto/EstadãoDepois de filtrar os casos mais graves, concluiu-se que 206 empregados precisavam de tratamento. Eles foram subdivididos em quatro grupos. O programa implantado pela empresa tem duração inicial de seis meses, mas está sujeito a reavaliação e continuidade, se necessário.PublicidadePUBLICIDADEPara o primeiro grupo de 55 funcionários que iniciou o tratamento em fevereiro deste ano, a companhia reservou R$ 200 mil do orçamento para subsidiar integralmente a compra das canetas emagrecedoras.Aparecida observa que, em relação a outros medicamentos para tratar a obesidade que existiam anteriormente no mercado, a caneta emagrecedora proporciona um resultado muito mais consistente. “A caneta mudou o desfecho (da redução da obesidade).”O programa da companhia, no entanto, não se resume a oferecer o medicamento de graça aos funcionários obesos. “A gente tinha de quebrar uma barreira financeira de um tratamento que não é barato”, observa a gerente de Saúde da VLI.A empresa montou uma equipe multidisciplinar, formada por médicos endocrinologistas, médicos do trabalho, nutricionistas, psicólogos, preparadores físicos, por exemplo, a fim de acompanhar individualmente cada funcionário que participa de um programa maior, batizado de Bem Cuidar, voltado para a saúde integral. PublicidadeLeia tambémCanetas emagrecedoras mudam consumo, reduzem gastos e pressionam indústria e supermercadosPesquisa mostra que 62,2% dos usuários de canetas emagrecedoras mudaram a prioridade de gastosO objetivo da empresa é dar energia e engajamento a esses funcionários, diz a médica. “Isso aumenta a produtividade e o engajamento no dia a dia e, se o funcionário está com a qualidade de vida melhor, então a chance de ele ter menos atestados (médicos) também acontece.”A Petrobras, uma das maiores empresas do País e líder do setor de petróleo, é outra que está subsidiando canetas emagrecedoras aos funcionários que necessitam tratar a obesidade, por meio do seu plano de saúde.Em nota, a companhia informa que “a Saúde Petrobras oferece subsídio a medicamentos da classe GLP-1 para pessoas beneficiárias do Plano AMS (Assistência Multidisciplinar em Saúde)”. De acordo com a empresa, o subsídio é concedido por meio de coparticipação, com os beneficiários arcando com parte significativa dos custos dos medicamentos.Segundo a companhia, o uso do benefício segue critérios rigorosos, sendo realizado exclusivamente dentro das indicações aprovadas em bula (diabetes e/ou obesidade) e com apresentação de documentação clínica que comprove o atendimento aos critérios técnicos predefinidos.PublicidadeA empresa explica que a utilização também requer que os medicamentos sejam prescritos exclusivamente por médicos integrantes de um programa específico da Saúde Petrobras, destinado ao cuidado de condições crônicas específicas, entre elas diabetes e obesidade.A Mondelez Brasil, gigante na produção de snacks e dona das marcas Bis, Oreo, Club Social, por exemplo, também subsidia vários medicamentos aos funcionários, inclusive as canetas emagrecedoras.A empresa não dá detalhes de quando passou a incluir as canetas nesse plano de subsídio nem quantos funcionários estão sendo beneficiados. Por meio de nota, a companhia limitou-se a informar que “possui diversos programas relacionados ao bem-estar físico e mental, como o subsídio parcial para diferentes medicamentos, para os tratamentos de controle de insulina, glicemia e pressão arterial, além de iniciativas como acesso à psicoterapia e incentivo à prática de atividades físicas. Todas as iniciativas seguem critérios médicos e protocolos de cuidados adequados às necessidades de cada um e pautados nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).”PublicidadeEfeitosÉ consenso entre os especialistas em saúde e em recursos humanos que tratar da obesidade dos empregados traz aumento de produtividade, diminuição de faltas ao trabalho e retenção dos trabalhadores à empresa.A tendência de incorporar as canetas subsidiadas ao plano de benefícios ganha força especialmente no momento atual do mercado de trabalho, marcado pelo desemprego em níveis muito baixos e as companhias tendo dificuldades para recrutar e reter mão de obra.Regiane Herchcovitch, sócia da consultoria de RH Soul, diz que a obesidade tem impactos na autoestima e no bem-estar do funcionário, ao mesmo tempo que provoca comorbidades que, no futuro, se transformam em atendimento médico, com provável aumento da sinistralidade nos planos de saúde.Pensando na saúde emocional e na saúde física, as empresas estão buscando alternativas para serem mais efetivas em prevenção, diz a consultora. E, como as canetas são efetivas no emagrecimento, elas entram nesse circuito de cuidado e bem-estar, acrescenta.PublicidadeSegundo a consultora, o benefício de subsidiar canetas aos funcionários pode funcionar na retenção do trabalhador porque melhora a imagem corporativa. “Quando o colaborador se sente cuidado e percebe que esse cuidado é amplo, ele pensa mais antes de ir embora.”Para Nassif, da Slimpass, algumas empresas estão vendo a caneta como um benefício tanto para a retenção quanto para a sustentabilidade financeira. Segundo dados da companhia, para cada R$ 1 investido em um plano de emagrecimento dos funcionários, o retorno é de R$ 14 em economia de gastos com saúde, como menor uso dos planos no longo prazo. “Quando você trata de maneira séria a obesidade, você economiza dinheiro.”Entre os setores que estão subsidiando ou pretendem subsidiar as canetas em planos de redução da obesidade dos funcionários estão empresas de saneamento; de energia elétrica, onde os trabalhadores com sobrepeso ficam impedidos de executar serviços em grandes alturas; logística; setor bancário e indústrias onde o trabalho é executado em locais confinados.Riscos Um dos pontos de preocupação dos especialistas em relação às empresas subsidiarem as canetas aos funcionários diz respeito aos riscos a médio prazo, se a iniciativa não fizer parte de um programa de emagrecimento integrado. Isto é, com orientação e acompanhamento médico e de outros profissionais da saúde sobre suplementação de proteínas e exercícios físicos, por exemplo, para quem faz uso do medicamento.PublicidadeCaio Soares, da Teladoc, alerta que, se essa introdução da caneta não for seguida de forma apropriada, com indicação e controle rigoroso por médicos e equipes de saúde, esses pacientes vão ter efeitos colaterais no futuro. Isso porque as canetas provocam perda de peso, mas também diminuem a massa muscular, o que pode afetar os ossos.“Isso pode acarretar no futuro um aumento de custos com saúde proporcional ao aumento do uso das canetas de forma inadequada. Essa é uma preocupação que eu tenho, mas pouco se fala”, diz Soares.O médico faz essa previsão com base no fato de que a maioria dos atendimentos que a sua empresa realiza para uso de canetas está desvinculada de programas de emagrecimento, isto é, são demandas avulsas.Nassif, da Slimpass, concorda com Soares. Diz que a caneta é uma excelente ferramenta no emagrecimento. No entanto, ressalta que é perigosa se for usada sem orientação. “Uma empresa não pode subsidiar exclusivamente o remédio, tem de ser dentro de um programa de emagrecimento, senão seria um tremendo tiro no pé.”Publicidade
Caneta emagrecedora vira benefício das empresas aos funcionários, em programas para tratar obesidade
Com 60% da população acima do peso, empresas começam a investir nesse medicamento em ações para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores














