Um tema que a IA traz com muita ênfase é a necessidade de grandes centros de processamento de dados (ou “data centers”, denominação pseudo-sofisticada em voga...). É importante uma discussão o mais racional e equilibrada possível, mesmo sabendo que o tema anda contaminado por posicionamentos emocionais, purismos tecnológicos, ideologia e mercado. Há que examinar o que é real e o que é propaganda, na medida do possível. Em tecnologia o movimento em gangorra é constante ... Se na internet original o poder de computação era distribuído pelo mundo de forma imperceptível, tende-se agora a uma concentração, e traz riscos: quando um serviço popular saí do ar, muitos são afetados; se um centro de processamento de IA deixar de ser acessível (por ruptura em cabos submarinos, ou mesmo problema técnico local), o efeito será impactante. Eis um argumento a favor de centros localizados no país, e há mais pontos a comentar.A evolução dos processadores eletrônicos demanda mais e mais potência (na foto, um data center de três andares e 49,5 megawatts em construção em Vernon, Califórnia/EUA) Foto: Mario Tama/AFPPUBLICIDADEVejamos a discussão sobre gasto energético. A evolução dos processadores eletrônicos demanda mais e mais potência para cumprir suas tarefas a contento. Vale especialmente para IA, grande consumidora de energia. Há que se dar algum desconto nos números que se divulgam da potência prevista para os centros, porque o apelo do mercado em coisas gigantes é muito forte. Não se espera que um centro gaste metade do que Itaipu gera mas, certamente, seu consumo será grande. A pergunta central é se interessa ao Brasil empenhar uma quantidade grande de energia nisso, mesmo com retorno econômico. Temos uma posição ímpar na geração de energia, e nossa matriz sustentável, com a adição de fontes além da hídrica, é muito sólida. Vender energia pode ser uma boa aplicação para algo que geramos com eficiência. PublicidadeDe forma menos óbvia, seria uma maneira de manter a relação geração/consumo sob controle. Houve durante essa Copa uma queda abrupta no consumo doméstico, que fez o sistema correr algum risco de desestabilização. Já os centros de dados são “âncoras de demanda conhecida e estável”, sem picos e vales inesperados de consumo. Afinal é difícil armazenar o excedente para uso posterior. Outro “trunfo” brandido contra os centros seria o do “consumo de água”... Bem, claro que água é necessária para resfriamento dos circuitos, mas, em instalação racional, a água é reciclada, até para se evitar a inclusão de novas impurezas e sais... Do ponto de vista físico, a crítica é ainda mais enfática: água “consumida”? Ora, até em ciclos “abertos”, entra “água” e sai... “água”, mesmo que em forma de vapor... Finalmente há que se examinar impactos em soberania. Os “data centers” são a infraestrutura da economia digital, mas não a própria economia digital, e o controle de infraestruturas críticas é importante. A Alemanha, por exemplo, pretende duplicar seus centros até 2030. Em SP mora, discretamente, o IX (Internet Exchange) com maior tráfego mundial e pico de mais de 35 Tbit/s. Montado sem recursos públicos, traz segurança, eficiência e estabilidade à internet brasileira, valores reafirmados durante essa Copa. Parafraseando Churchill, é meritório ter modéstia quanto a uma boa conquista, mas é bom evitar o acúmulo de temas em que sejamos modestos... Publicidade
Opinião | Uma discussão que a IA impõe: ‘Data Centers’ – ter ou não ter?
Em SP mora, discretamente, o IX com maior tráfego mundial e pico de mais de 35 Tbit/s; montado sem recursos públicos, traz segurança, eficiência e estabilidade à internet brasileira











