A explosão do tráfego de dados, impulsionada por inteligência artificial generativa, streaming de vídeo, games, realidade virtual e cidades inteligentes, começa a pressionar o Brasil a descentralizar sua infraestrutura de processamento. A lógica é aproximar os dados dos usuários para reduzir a latência (tempo de resposta) e melhorar o desempenho de aplicativos e serviços. Hoje, mais de 90% da capacidade instalada de data centers do país está concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, segundo o Ministério das Comunicações (MCom). Hermano Tercius, secretário de Telecomunicações do MCom, afirma que duas políticas devem impulsionar a descentralização da infraestrutura e formar um “cinturão digital”: a ampliação das zonas de ancoragem de cabos submarinos e a distribuição de centros de processamento de dados pelo país. “O cinturão funciona para fazer com que as pessoas usem os dados mais próximos de onde estão”, diz, acrescentando que o modelo proporcionará menor latência e melhora no desempenho das redes. O secretário observa que recursos oriundos da migração da Oi de concessão pública para autorização deverão ser destinados para instalação de seis data centers em regiões onde hoje não existem estruturas desse tipo, dando início à configuração do cinturão. Paralelamente, a Associação Neo, que representa provedores de internet de pequeno porte (PPPs), propõe transformar 4.280 dos cerca de 100 mil pontos de presença (POPs) existentes no país em data centers de borda - instalações menores, também chamadas de edge data centers, posicionadas próximas de onde os dados são gerados ou consumidos. Os POPs possuem estrutura para abrigar equipamentos da banda larga fixa com refrigeração, luz, água e bateria. Rodrigo Schuch, presidente da Associação Neo, calcula que seriam necessários R$ 2,1 bilhões para modernizar e transformar os POPs em data centers de borda, missão que caberia aos provedores de banda larga. “Temos provocado o Estado e discutido com o BNDES e com o Ministério das Comunicações acerca da alocação do Fust [fundo federal voltado para ampliação do acesso a telecomunicações] para termos políticas de incentivos para os empresários investirem”, diz. Na opinião de Luiz Alexandre Costa, gerente do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA), vinculado ao NIC.br, a transformação de POPs em edge data centers exige uma avaliação detalhada, além de interligação com um ponto de troca de tráfego para melhor distribuição e alcance do serviço de IA na localidade. “Desafios comuns seriam espaço adequado, refrigeração, segurança física e lógica, equipe especializada, operação 24x7, hardware especializado para o caso de inferência de IA, entre outros”, enumera. Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de projetos especiais e de desenvolvimento do NIC.br, diz não esperar que, no curto prazo, cada provedor de acesso à internet opere um edge data center com os conteúdos e serviços desejados por seus clientes e avalia que os prestadores de pequeno porte podem participar ativamente na construção da conectividade entre aprendizado, inferência e oferta de serviços pelos diversos atores que vão compor os serviços de IA. A IA generativa exige infraestruturas distintas. De acordo com Kashiwakura, para o treinamento dos modelos, a latência não é crítica, mas o data center hyperscale requer grande capacidade computacional, maior capacidade de tráfego e um alto consumo de energia. Já para inferência, fase em que a IA aplica o aprendizado para responder a usuários, o processamento se dá em tempo real, exigindo alta disponibilidade e uma latência muito baixa.
Data center de borda entra no radar do setor de telecom
Provedores de internet de pequeno porte (PPPs) propõem transformar 4.280 pontos de presença (POPs) existentes no país nessas estruturas











