O aumento acelerado das contas de energia nos Estados Unidos ameaça fazer sua maior vítima até agora: o maior operador de rede elétrica do país. Autoridades federais passaram a considerar a possibilidade de dividir a PJM Interconnection, responsável pela gestão da rede que se estende das pradarias do estado americano do Illinois até o litoral de Nova Jersey. A expansão dos novos data centers está pressionando a oferta de eletricidade nos 13 estados atendidos pela PJM, elevando os preços e alimentando uma reação política. Reguladores, autoridades estaduais e executivos do setor elétrico reclamam que a organização demora demais para aprovar novas usinas e projetos de geração capazes de acompanhar o crescimento da demanda. Até mesmo o diretor-presidente da PJM afirmou que a situação atual “não é sustentável”, argumentando que a entidade não consegue garantir oferta suficiente de energia no futuro e, ao mesmo tempo, proteger os consumidores residenciais da alta das tarifas. Uma das maiores concessionárias de energia de sua área de atuação, a American Electric Power, chegou a ameaçar deixar a organização, o que poderia levar à incorporação de suas linhas de transmissão a outra rede regional próxima. A FERC, agência reguladora de energia do país, convocou uma reunião para 23 de julho para discutir possíveis reformas, incluindo mudanças na governança da PJM. A presidente da FERC alertou no mês passado que a PJM poderá precisar ser dividida em partes menores e mais administráveis caso as reformas não pareçam viáveis. Um alto funcionário da Casa Branca, falando sob condição de anonimato, também afirmou que uma divisão deveria ser considerada, se necessário. A incapacidade da organização de agir mais rapidamente, disse a presidente da FERC, Laura Swett, coloca em risco a liderança dos Estados Unidos na área de inteligência artificial. — A PJM está na linha de frente, é o laboratório da segurança nacional e econômica sobre o qual nosso país pode prosperar ou fracassar — afirmou Swett durante a reunião anual de associados da organização, realizada em 12 de maio, em Baltimore. —Agora enfrentamos uma demanda historicamente sem precedentes e a possibilidade de uma falha catastrófica também historicamente sem precedentes. Fundada há quase um século, a PJM Interconnection administra a rede de transmissão que fornece eletricidade para 67 milhões de pessoas — quase um quinto da população dos Estados Unidos. Seu vasto território também abriga algumas das maiores concentrações de novos centros de processamento de dados do país, especialmente uma faixa do norte da Virgínia hoje conhecida como “Data Center Alley”. Após décadas de crescimento modesto, a demanda por energia está disparando. Os preços acompanham essa trajetória. Nos três primeiros meses deste ano, os preços da eletricidade no mercado atacadista da rede da PJM saltaram 76% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando uma média de US$ 136,53 por megawatt-hora. Já os custos de capacidade, mecanismo que garante oferta suficiente de energia nos períodos de maior demanda, aumentaram quase 400%. O aumento das contas de luz está provocando turbulência política nos Estados Unidos às vésperas das eleições legislativas deste ano, e autoridades de diferentes correntes políticas têm responsabilizado a PJM por parte do problema. A Pensilvânia chegou a ameaçar deixar a organização. O presidente Donald Trump, acompanhado pelos governadores de vários estados, pediu que a PJM realizasse um leilão extraordinário de energia no qual empresas de tecnologia financiariam a construção de novas usinas ao disputar contratos de capacidade elétrica com prazo de 15 anos. Em resposta, a PJM afirmou que mudará a forma como data centers e fornecedores firmam contratos e antecipará a contratação de nova oferta de energia. — Não existe um plano claro da PJM para lidar simultaneamente com acessibilidade tarifária e confiabilidade do sistema — afirmou o governador de Maryland, Wes Moore, apontado por alguns como potencial candidato democrata à Presidência em 2028, na abertura da reunião anual da PJM em maio. — Mesmo que não tivéssemos previsto a dimensão do fenômeno, os data centers não são novidade, e já sabíamos há algum tempo que veríamos muito mais deles. — A PJM falhou em se antecipar a isso — acrescentou. Um representante da PJM afirmou que a organização gera valor significativo para os estados que atende e continuará trabalhando para enfrentar a escassez de oferta. — Entendemos as preocupações dos estados com o aperto na oferta de eletricidade e o aumento da demanda, que representam desafios tanto para a confiabilidade quanto para a modicidade tarifária — disse o porta-voz Jeffrey Shields. — A PJM vem alertando sobre essas questões há vários anos e segue comprometida em trabalhar com os estados e seus membros para enfrentar esses desafios comuns. Parte do problema está na estrutura complexa e incomum da PJM. A organização supervisiona tanto a transmissão de eletricidade quanto os mercados e leilões que definem os preços da energia. Tecnicamente, é uma empresa privada, mas funciona como uma associação de membros. Seus mais de 500 integrantes com direito a voto — entre concessionárias e operadores de usinas — podem influenciar políticas por meio de comitês internos, embora a entidade também possua equipe técnica e conselho de administração que tomam decisões próprias. Frequentemente, os interesses dos participantes divergem profundamente: alguns defendem a expansão das fontes renováveis, enquanto outros continuam apostando no carvão. Seu diretor-presidente, David Mills, assumiu o cargo há apenas um mês. Em carta enviada aos participantes do mercado, ele descreveu uma “lacuna de credibilidade” entre a necessidade de preços elevados para estimular a construção de novas usinas e a obrigação de proteger consumidores de tarifas insustentáveis. Segundo ele, limitar os preços pagos pelos consumidores significa reduzir os incentivos para a entrada de nova geração de energia. — Meu trabalho é garantir que a PJM deixe de estar na mira de todos como o saco de pancadas responsável por resolver todos esses problemas — afirmou Mills durante a reunião anual. — Será preciso um esforço coletivo. A carta de Mills acompanhou um documento de política pública que descreve três possíveis caminhos para o futuro. As alternativas vão desde contratos de prazo mais longo até a possibilidade de racionamento de energia para diferentes categorias de consumidores — perspectiva que dificilmente seria bem recebida pela população. Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas e tempestades mais severas associadas ao aquecimento global já estão aumentando o risco de apagões. — É uma situação praticamente impossível de vencer: as ferramentas disponíveis são difíceis de usar, e inevitavelmente haverá algum sofrimento para resolver esse problema — afirmou Dylan Seff, responsável pela área de utilities e energia sustentável da Vitol. Naturalmente, a PJM não é a única operadora de rede elétrica dos EUA enfrentando o rápido crescimento da demanda por energia, que permaneceu praticamente estagnada durante grande parte das últimas duas décadas. Os administradores da rede elétrica do Texas, por exemplo, avançaram nesta semana com planos para analisar pedidos de conexão de data centers em lotes, em vez de seguir o modelo atual de “quem chega primeiro é analisado primeiro”. Um dos principais desafios da PJM será reformar o chamado mercado de capacidade, mecanismo criado para garantir energia suficiente durante as dezenas de horas por ano em que a demanda atinge seu pico e o risco de apagões aumenta. Segundo relatório recente do monitor independente do mercado da PJM, o boom dos data centers acrescentou cerca de US$ 23 bilhões (cerca de R$ 116 bilhões) ao custo desse “seguro” para o período de três anos encerrado em meados de 2028. A forma como a PJM estará estruturada daqui a um ano dependerá das decisões tomadas pela organização e por seus reguladores nos próximos dois meses, segundo um funcionário da Casa Branca que falou sob condição de anonimato devido à sensibilidade do tema. Existe inclusive o risco de que a operadora da rede se desfaça sem intervenção federal, caso a American Electric Power (AEP) abandone a organização e outras concessionárias sigam o mesmo caminho. A presidente da FERC, Laura Swett, deixou claro em seu discurso na reunião anual da PJM que mudanças profundas podem ser necessárias. — Estamos diante de um momento de consequências profundas. Pessoalmente, tenho grande disposição para agir de forma agressiva quando o futuro do país está em jogo — afirmou Swett.