Recompor a renda que a IA vai corroer exige responder a três perguntas: de onde sai o dinheiro, como ele rende no caminho e de que forma chega ao bolso das pessoas. O debate costuma escolher uma e tratá-la como o todo.
A renda básica universal foca a entrega mas se cala sobre a receita. E ao contrário do Bolsa Família, que mira a pobreza e não o desemprego tecnológico, paga do bilionário ao indigente, enquanto durar a vontade de quem governa. A requalificação, mais barata, aposta que não haverá renda a repartir, apenas pessoas a treinar para empregos que ainda não existem.
Já a participação social nas empresas de IA, na linha do que propõe Bernie Sanders, articula as três coisas. A origem são as ações da própria IA. O meio é um fundo que as rentabiliza e a ponta, um cheque anual aos residentes, como faz o Alasca com o petróleo. A dicotomia entre cheque e ação é menos técnica do que parece. O benefício vive dos caprichos do governo; o capital, dos humores do mercado. Cada desenho protege de um senhor e entrega a outro. E há o risco do caminho. Basta o Estado investir no vencedor de hoje e ele se revelar o Eike Batista de amanhã.
O Brasil pode escapar dessa armadilha. O caminho passa por atrair os gigantes da IA para data centers abastecidos por hidrelétricas, cuja flexibilidade a aposta eólico-solar não entrega, e converter parte da receita em proteção social. A Axia Energia, antiga Eletrobras, poderia ancorar tal oferta.









