Artista já foi chamado de 'orquestra de seis cordas' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor e compositor João Bosco — Foto: Guito Moreto RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O maestro Luís Filipe de Lima destaca que João Bosco é um autodidata completo, cuja complexidade rítmica e harmônica ocorre de forma integrada, já que ele "não dissocia nunca o violão da voz". O estilo único de João Bosco rendeu-lhe apelidos como "orquestra de seis cordas" e "menor orquestra do mundo" devido à sonoridade singular que extrai de seu violão. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A gente sabe que o Brasil é um manancial inesgotável de violonistas de primeira linha, incluindo aí alguns que imortalizaram a dobradinha voz e violão — e basta citar João Gilberto. Mas, com todo o respeito ao baiano, somente João Bosco é chamado de “orquestra de seis cordas”, “orquestra de um homem só”, “menor orquestra do mundo” e outras variações sobre o mesmo tema. Era assim que seus admiradores o consideravam já nos anos 1970 e 1980 (milênio passado). Tinha a ver não apenas com o canto peculiar que preenche tão bem as canções, como também — ou sobretudo — com a sonoridade que saía do seu Sugiyama, o violão que mais o acompanhou mundo afora. Talvez não seja ousadia cravar que nenhum outro cantautor toca um violão tão pessoal e intransferível quanto João Bosco. Suas interpretações provocam enigmas: como ele consegue? Quem manda naquilo tudo: a mão direita irrequieta ou a mão esquerda dos acordes incrementados? Talvez seja o duende que sai das Minas Gerais, toma bença nos Nordestes, vai ali nas Arábias e volta percutindo pelas Áfricas (sempre assim, no plural). É tudo isso e mais alguma coisa, claro. Quando questionado, João até cita, mui gentilmente, influências de gente da pesada como Garoto ou Baden Powell. Mas não é só isso (como se fosse pouco). Vale ouvir, então, a palavra do maestro e violonista Luís Filipe de Lima, que resume a coisa toda quase num fôlego só: — Três coisas me chamam mais a atenção no violão monumental do João Bosco: o violão soa único na mão dele, inconfundível, com levadas rítmicas muito singulares, sofisticadas, mas sem perder a pressão. No plano da harmonia, ele usa e abusa dos acordes que a gente chama de violonísticos, usando cordas soltas, o tipo de acorde que não dá pra fazer em nenhum outro instrumento. Vai criando ali harmonias bastante originais, e essa é outra marca forte do João. Uma segunda questão é que toda essa complexidade rítmica e harmônica acontece sem que o João tenha qualquer conhecimento formal de música, ele é um completo autodidata, o que torna o violão dele ainda mais fenomenal. O terceiro ponto é que o João não dissocia nunca o violão da voz. O canto e o acompanhamento do instrumento ficam tão integrados que ele grava todos os discos, todas as participações dele em estúdio, cantando e tocando ao mesmo tempo. Ele não abre mão disso. Ou seja: eis aí um guia para a gente sentar diante da eletrola (!) e tentar destrinchar o violão por trás de alguns clássicos dessa pequena orquestra chamada João Bosco. Duas sugestões: “O ronco da cuíca” (com Aldir Blanc, 1976) e “Bate um balaio” (2008). Ou, como gran finale, o álbum “Ao vivo - 100ª apresentação” (1983). Está tudo lá. É marca registrada, ninguém faz igual.