No país de Garrincha e Oscarito, o sofrimento de ópera italiana não cabe no futebol 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A pelada de rua e o técnico italiano — Foto: Ilustração Gemini Foi no tempo em que o futebol aqui não tinha a ver com um sistema tático, mas com uma cultura. Jogadores aprendiam a driblar em ruas esburacadas, a chutar sem estuporar o dedão no paralelepípedo e, nas horas vagas, ouviam os breques cheios de ginga do Moreira da Silva. Não era a bola, era alma. Só um caldo desses explica a “folha seca” do Didi, a bola que partia como um morteiro e, súbito, mudava de humor, desabando qual pétala ao vento dentro do gol adversário. A expressão evidentemente já existia, aplicada aqui e ali a algum lance de efeito de um jogador de qualquer nação. Depois da Copa de 1970, beautiful game passou a ser a definição internacional, a mais completa tradução para “futebol brasileiro”. Que fim levou? Não era um desenho de jogo, um 4-2-4. O “jogo bonito” era o avesso de todos os padrões ordenados na prancheta dos professores. Tinha molho. Esse Brasil 2026, do mister italiano metido em coletes, não tem nada a ver com o drible da vaca, nem com as bolas que o Gérson botava lá de longe na medalhinha do Pelé. Esse negócio de entregar o jogo para o adversário amassar a gente e ficar esperando o contra-ataque, isso só pode ser coisa de ópera do Coliseu. A música aqui é outra. Nos fones em que parecem submersos ao descerem dos ônibus, os jogadores deveriam deixar por instantes o funk-pagode de lado e ouvir o hino do Bahia, aquele que diz “Ninguém nos vence em vibração”. Onde já se viu um futebol-dramalhão assim na Terra da Chanchada, do Oscarito passando a mão na barriga depois de uma feijoada e, gaiatamente melancólico, dizer “hum, tô com uma idiossincrasia....”? Num terreiro desses, num futebol inventado por um jogador de pernas tortas, onde já se viu querer implantar a tática de sofrimento do “Rocco e seus irmãos”? É o mesmo que transformar Garrincha em personagem de Visconti. Cego em futebol, já dizia Nelson Rodrigues, é aquele que só vê a bola. Em alguma crônica perdida escrita aqui no GLOBO, ele deve ter anotado como foi batata para a vitória o romance de Elza Soares e Garrincha durante a Copa do Chile. O casal condensava o Brasil. No palco, Elza entortava os ritmos, reinventando as melodias, o mesmo que Garrincha fazia com seus Joões no campo. No sexo, zero de modéstia – alardeavam-se em exaltações. Ah, como Nelson ficaria possesso, daria arrancos de cachorro atropelado, diante desses romances pusilânimes e quadrúpedes dos jogadores e suas influenciadoras de batom. Não buscam a eternidade do amor, mas a canalhice efêmera do like. Falta um toque de sobrenatural que ressuscite o beautiful game e ele volte a falar, na versão brasileira Herbert Richers, sua língua original. Pode começar com uma regra básica que proíba o jogador de retroceder depois de entrar no campo adversário. Simples assim. Ao primeiro toque de bola para o lado, deve-se ouvir, vindo do banco, o grito furibundo de um técnico apoplético – de preferência sem colete – ordenando a filosofia ganhadora do “é pra frente que se anda, animal!”. Por fim, para que as cabeças dos jogadores estejam focadas apenas na beleza do jogo, este cego do Nelson Rodrigues recomendaria uniformizar os cabelos – todos com o mesmo corte Príncipe Danilo do Didi em 1958.