Gerando resumoQuando a constituição para tornar os EUA um país independente da Inglaterra foi assinada, os “pais fundadores” imaginavam uma nação onde todas as pessoas pudessem ser iguais: ser americano era, acima de tudo, corroborar com as ideias de igualdade e liberdade da declaração da independência - um espírito que formou a espinha dorsal do sonho americano. Para além da ideia de propriedade, esse sonho também incluía a oportunidade que cada novo habitante da América poderia encontrar no país desde o início.Inerente na identidade dos EUA, o sonho americano teve diversos símbolos ao longo dos anos, mas todos eles tratavam sobre a possibilidade de atingir o máximo potencial individual e ter condições de viver a vida desejada no momento. Apesar do termo ter surgido apenas no século XX, seu simbolismo esteve presente desde a fundação do país, em 1776. Entre a constituição que levou as 13 colônias a se tornarem independentes e as guerras de conquistas de território, a ideia de que o povo americano deveria ser livre, inclusive para almejar uma vida melhor, foi crescendo dentro da identidade dessa nova sociedade.Sonho americano ainda faz parte da vida dos EUA, mas com significados diferentes a cada geração Foto: CHIP SOMODEVILLA/Getty Images via AFPPUBLICIDADEO Destino Manifesto - a crença de que os cidadãos dos EUA tinham a missão divina de se expandir no território - no século XIX ajuda a transcender o conceito do sucesso coletivo para a ascensão individual. Em 1931, após a Grande Depressão que arrasou o país, o autor James Truslow Adams nomeou o desejo de uma geração ser mais próspera que a geração anterior e deu origem, oficialmente, ao “American Dream”.Desde então, esse sonho tem sido representado com a aquisição de bens essenciais: casa, carro e uma vida confortável são alguns dos mais comuns - e que, frequentemente, são usados como resultado da conquista do sonho americano.“Existe uma crença profunda na ideia de possuir, ter e defender um lar. Essas ideias estão profundamente enraizadas na vida americana, em parte porque os Estados Unidos foram formados a partir da tomada de terras dos povos nativos e de sua distribuição, principalmente, aos proprietários individuais. Todo o processo de tornar os Estados Unidos sinônimo de distribuição de propriedade a um grande número de indivíduos fez com que a casa passasse a ser vista, no país, como um local seguro e propício para criar a família”, explicou Louis Warren, professor de história americana na Universidade da Califórnia.Mas a desvalorização dos salários e o encarecimento da vida nos EUA nas últimas décadas tem feito com que as gerações mais jovens parassem de se identificar com esse conceito. Ao invés de um acúmulo de bens, perseguir esse ideal se tornou uma busca pela estabilidade, em um momento em que conquistar os mesmos feitos de seus pais virou um sonho quase impossível de alcançar. PublicidadeFracasso do sonho americano De acordo com pesquisas do Pew Research Center, em 1999, 68% da população estava satisfeita com a sua situação financeira e cerca de 69% viam uma conexão entre o sucesso e o trabalho árduo - garantia de que, ao final de alguns anos, o esforço seria recompensado em algum investimento concreto. No início dos anos 2000, essa ideia começa a encontrar alguma resistência. Uma pesquisa da New Dream revelou que, em 2004, apenas 34% da população fazia essa mesma correlação entre trabalho duro e prosperidade. Esse mesmo estudo também afirma que 62% da população já acreditava que o sonho americano era mais difícil de alcançar em sua geração do que na geração de seus pais. As crises enfrentadas pelos EUA ainda ajudaram a mudar de vez o significado do sonho americano no século XXI. Em 2008, no colapso da bolha imobiliária no país, os americanos viram o principal símbolo do seu sonho ruir. Com a alta dos juros e a queda do preço dos imóveis, as garantias de empréstimos dos americanos perdeu valor da noite para o dia. Com isso, muitas famílias tiveram suas casas tiradas de si, acumulando dívidas que se estenderam por anos.Mais de 2,3 milhões de residências receberam uma notificação para tomada do imóvel em 2008, mais que o triplo do registro do ano anterior, segundo o Pew Research Center. De acordo com o Federal Reserve Bank of Chicago, como consequência direta da crise imobiliária, mais de 6 milhões de famílias perderam as suas casas - mesmo após sete anos, em 2015, apenas 50% desses lares foram recuperados.PublicidadeDe acordo com o Federal Reserve Bank of Chicago, como consequência direta da crise imobiliária, mais de 6 milhões de famílias perderam as suas casas Foto: Joe Raedle/Getty Images/AFPO aumento do custo de vida e dos bens também entrou na conta dos americanos. De acordo com Mark Rank, professor da faculdade de ciências sociais da Universidade de Washington, os salários estão estagnados desde os anos 60 e, mesmo que tenha existido um aumento de empregos, muitas vezes eles possuem baixa remuneração e baixa segurança, o que diminui o poder de compra do indivíduo. O acúmulo dessas condições tornou quase impossível que o sonho americano continuasse a se traduzir como bens tidos como essenciais para outras gerações, como casa própria e carro próprio. “Especialmente nos últimos anos, as pessoas têm enfrentado muitas dificuldades para alcançar essa segurança econômica. Elas sentem que estão trabalhando duro, mas não estão progredindo. A geração de hoje é a primeira em que, na verdade, a maioria provavelmente ganhará menos do que seus pais ganharam. E, ao invés de avançar, eles estão, na verdade, retrocedendo”, apontou Rank, em entrevista ao Estadão.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEEm 2024, apenas 31% dos americanos afirmaram ter atingido o sonho, enquanto 36% disse estar a caminho de realizá-lo. Outros 30% afirmaram que isso está fora de alcance, segundo a pesquisa mais recente do Pew Research Center sobre o assunto. No geral, 53% dos participantes afirmaram que ainda é possível alcançar o “american dream”, mas o número que chama a atenção dos especialistas é outro: 41% da população acredita que o sonho já foi possível, mas que não é mais uma possibilidade.A desigualdade entre classes e oportunidades também aumentou nas últimas décadas. Ligado ao conceito do sonho americano, ainda existe a máxima universal: ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Desde o início do país, as oportunidades não são distribuídas igualmente, apesar do discurso máximo de liberdade - nos primeiros anos de independência, o país ainda era uma nação escravocrata e, embora disseminasse a ideia de “terra das oportunidades”, existia uma segregação entre quem receberia essas chances de crescimento. “Hoje os americanos têm uma forma muito mais contestada de enxergar o que poderia ser chamado de sonho americano. Eu não acho que as pessoas esperam mais que vão ganhar tanto nesta geração quanto as gerações anteriores ganharam, ou que as futuras gerações vão se sair melhor. Há um pessimismo geral atravessando o espectro político”, apontou Robert Johnston, professor e diretor do Programa de Formação em História da University of Illinois.PublicidadeO que é o sonho hoje?“Este é um momento para, de certa forma, olhar para trás, mas também para olhar para o futuro. A ideia do sonho americano é realmente fundamental para a identidade deste país, é uma ideia central e é o que nos diferencia de muitos outros países”, apontou Warren, da Universidade da Califórnia.A sensação geral é que o sonho mudou de significado. Se antes ele era ligado a um desejo de melhorar de vida pelo trabalho árduo, hoje é a capacidade de manter uma vida estável e buscar oportunidades, mesmo sabendo que a parte material provavelmente não será alcançada.Para grande parte das pessoas nos EUA, o sonho americano não é algo que possa ser alcançado Foto: Bruna Arimathea/Estadão “Acho que o sonho americano sempre foi a ideia do que ele representa. Certamente ele variou um pouco ao longo do tempo, mas tem se mantido bastante consistente. Porém, a capacidade de alcançar o sonho americano está se tornando, na minha opinião, muito mais difícil do que talvez tenha sido no passado”, explicou Rank.PublicidadeOs especialistas reafirmam que o sonho americano está e sempre esteve muito ligado à posses, mas que ele também tem um outro componente importante que permeia o conceito desde o início da fundação dos EUA: oportunidade. Nesse caso, a ideia é, basicamente, o primeiro objetivo dos pais fundadores, que era a liberdade e a busca por felicidade - ambas como um contraponto da dificuldade de mobilidade social encontrada na Europa, por exemplo. Esse é o significado que tem sido resgatado no século XXI.De acordo com uma pesquisa da Gallup de agosto de 2025, os americanos ainda acreditam que o sonho é pautado pela oportunidade ao invés da estabilidade, de modo geral. Mas em questões mais específicas, apenas a chance não é suficiente. Para famílias com menores rendas familiares, por exemplo, o sonho americano é sinônimo, apenas, de estabilidade. Somente para famílias com renda anual maior que US$ 250 mil, o American Dream é um conceito de oportunidade. A diferença também é percebida entre homens e mulheres. Para 53% das participantes, o sonho americano está envolto na estabilidade, enquanto 56% dos homens acreditam que, para eles, é a oportunidade o significado real do conceito.PublicidadeNos 250 anos da terra dos livres e do lar dos corajosos, o que já foi sinônimo de prosperidade hoje é a busca da sobrevivência - e um dos maiores atos de coragem é continuar a perseguir o sonho tão inerente a identidade americana mesmo com um cenário desfavorável e sem perspectivas de melhora.“Honestamente, não consigo pensar em algo (que hoje simboliza o sonho americano) — e isso talvez seja um sinal da espécie de ‘morte simbólica’ do sonho americano. Não há nada que você possa apontar diretamente. Você não consegue olhar para essa nação virtuosa e seu papel no mundo e ter algo que possa ser facilmente usado como símbolo para identificar esse sonho”, afirmou Johnston.Para Warren, porém, o sonho não está morto, mas a geração que o vive, agora, tem enviado um claro sinal de socorro. “Não sei o que querem dizer quando afirmam que o sonho americano está morto ou que o sonho americano está fora do alcance delas. Acho que o que está sendo transmitido ali é um sentimento de fracasso nacional, porque o sonho americano deveria estar ao alcance de qualquer pessoa. E se ele não está ao alcance da pessoa, é um sinal claro de falha do país”. Publicidade