EUA, 250 anos: O sonho americano em xequeO passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. Crédito: EstadãoGerando resumoQuando o sol brilhava e eu passeavaE os campos de trigo ondulavam, e as nuvens de poeira rolavamEnquanto a neblina se dissipava, uma voz entoava:Esta terra foi feita para você e para mim.Woody Guthrie, “This Land Is Your Land”Nosso país foi construído com base em documentos escritos — a Declaração de Independência, a Constituição e a Declaração de Direitos (Bill of Rights), para citar os mais importantes. Assim, para celebrar o aniversário de 250 anos dos Estados Unidos, minha esposa, Ann, organizou um evento especial no Planet Word, o museu imersivo dedicado à linguagem que ela fundou em Washington para promover a alfabetização. O cantor e compositor Nolan Williams Jr. conduziu uma sessão de canto coletivo com clássicos americanos, incluindo, é claro, “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie.Apesar do calor intenso — beirando os 38 graus ºC —, um público notavelmente diverso de 300 pessoas lotou o saguão principal do museu, e jovens e idosos cantaram juntos com entusiasmo. Havia tanta alegria e camaradagem no ambiente — e muitos participantes, ao saírem, comentavam uns com os outros como desejavam que todo o país pudesse refletir essa mesma harmonia todos os dias. Muitos perguntaram depois: “Por que não estamos cantando essas músicas juntos no National Mall?”O presidente Donald Trump durante o "Salute to America", evento do Dia da Independência em homenagem ao 250º aniversário da nação, no sábado, 4 de julho de 2026, no National Mall, em Washington Foto: AP /Mark Schiefelbein PUBLICIDADEO que nos leva — lamento dizer — à seguinte reflexão. Se pudesse, Trump cantaria no National Mall uma variação bem diferente de “This Land Is Your Land”. Na minha cabeça, a letra seria assim: “Esta terra é minha terra, esta terra é minha terra / Da Califórnia à ilha de Nova York / Da minha criptomoeda ao 747 do Catar / Esta terra pertence a mim e aos meus.”Uma coisa sobre o presidente Trump: ele é consistente. Ele nunca surpreende positivamente. Nunca demonstrou o menor interesse em ser o presidente de todo o povo, apenas de sua base. Ele nunca tenta vencer pela soma, apenas pela divisão — apenas pelo “nós contra eles”.Leia tambémEUA chegam aos 250 anos com desafios a sua supremacia militar e tecnológicaProtagonismo de Trump no 4 de julho evidencia dificuldade dos EUA em colocar país acima da políticaEm aniversário de 250 anos dos EUA, Trump critica comunismo e defende mudanças nas eleiçõesComo relatou meu colega de redação Shawn McCreesh, diretamente do National Mall: “O Trump aproveitou o aniversário da nação para disseminar o medo em relação aos democratas, faltando quatro meses para as eleições de meio de mandato (ele falou muito novamente sobre ‘comunismo’) e para exigir que o Congresso aprovasse uma lei que dificultasse o voto.” Shawn continuou: “O que deveria ser o ponto alto das comemorações do 250º aniversário da nação acabou sendo, de certa forma, apenas mais um comício de Trump”.PublicidadeNesse mesmo 4 de julho, dois outros colegas meus de redação, Eric Lipton e David Yaffe-Bellany, noticiaram que quase “1 milhão de pessoas que compraram a *memecoin* do presidente Trump perderam dinheiro até o final de junho, segundo um relatório da Nansen, empresa de análise de criptomoedas. Suas perdas somam US$ 3,81 bilhões”. Meus colegas destacaram que esse cálculo surgiu depois que Trump assinou uma declaração financeira revelando que a mesma aposta em criptoativos lhe rendeu US$ 636 milhões. Ao todo, seus empreendimentos comerciais lhe proporcionaram pelo menos US$ 2,2 bilhões em 2025.Essa é uma história de grande repercussão, e meu instinto me diz que Trump também percebe que isso pode se tornar uma grande notícia: a história de como ele extorquiu descaradamente seus próprios apoiadores!O presidente Donald Trump em um evento do Dia da Independência em homenagem ao 250º aniversário do país, no sábado, 4 de julho de 2026, no National Mall, em Washington Foto: AP/Mark SchiefelbeinDesde o início do segundo mandato de Trump, tem sido amplamente noticiado que ele vem explorando a presidência para obter ganhos financeiros, mas a história precisava de números reais e vítimas reais. Agora, ela tem ambos: US$ 2,2 bilhões em ganhos totais para Trump e pelo menos US$ 3,81 bilhões em prejuízos para seus investidores. Isso é material para slogan de adesivo de para-choque. Trump ficou famoso por se gabar de que poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida e seus apoiadores continuariam ao seu lado. Será que eles também permanecerão com ele depois de serem extorquidos por ele?PublicidadeE não resta dúvida de que ele tinha como alvo justamente essas pessoas, como também noticiou o The Times: “Três dias antes de sua posse, Trump lançou um segundo investimento com a marca Trump — a *memecoin* $Trump, um tipo de moeda de caráter recreativo com pouco valor prático. ‘É hora de celebrar tudo o que defendemos: VENCER!’, escreveu Trump nas redes sociais. ‘Juntem-se à minha comunidade Trump, muito especial. GARANTAM SEU $TRUMP AGORA!’ Mas isso acabou sendo um péssimo conselho”.Trump certamente está aterrorizado com a possibilidade de os Democratas conquistarem a Câmara, o Senado ou ambos, e iniciarem investigações sobre o quanto ele utilizou o cargo — e explorou seus próprios apoiadores — para obter ganhos pessoais escandalosos. Portanto, a meu ver, há dois temas adequados para os Democratas nas eleições de meio de mandato: se vencerem, eles revelarão o quanto Trump tem explorado seus próprios apoiadores; e, se vencerem, farão da união do país uma prioridade.Em aniversário de 250 anos dos EUA, Trump critica comunismo e defende mudanças nas eleiçõesEvento em Washington reuniu homenagens a símbolos históricos, apresentação de veteranos e defesa de propostas do governo para o sistema eleitoral. Crédito: AFPPUBLICIDADEAcredito que a busca pela unidade nacional seja a força política mais subestimada do país atualmente. Não é por acaso que a CNN noticiou, no mês passado, que “quase metade dos americanos afirma não se considerar integrante de nenhum dos dois principais partidos políticos — o maior nível de independência partidária registrado em pesquisas da CNN em mais de uma década”.Tenho certeza de que isso é verdade, pois ouvi o melhor analista político que conheço defender esse mesmo ponto de vista. O nome dele é Barack Obama. O que me leva a uma terceira variação de “This Land Is Your Land”: o discurso de Obama na cerimônia de inauguração de seu centro presidencial em Chicago, evento do qual participei. O trecho de que mais gostei na fala de Obama foi este:À medida que os algoritmos continuam a nos bombardear com um fluxo constante de distrações e indignação, e apenas as vozes mais estridentes e extremas ganham atenção — alimentando nossos preconceitos e apelando aos nossos instintos mais básicos e tribais —, é tentador ceder ao cinismo e até ao desespero, e simplesmente desistir. Começamos a achar que apelos à democracia e à participação cívica são cafonas, antiquados, entediantes e ingênuos; que a própria ideia de trabalhar em prol do bem comum é coisa de otário; e que, para nós ganharmos, alguém mais tem de perder. Eu entendo isso. Não estou imune à raiva ou à dúvida, mas sei de uma coisa: quando perdemos a fé uns nos outros — quando deixamos de acreditar que o voto importa, que a cidadania importa, que nossas vozes coletivas importam, que a maneira como tratamos uns aos outros ainda importa — e abrimos mão do poder de decidir nosso próprio futuro, abrimos as portas para os mais implacáveis, os mais irresponsáveis ou os mais medrosos entre nós; pessoas que veem certos grupos e indivíduos como “mais iguais” do que outros e encaram o governo apenas como um meio de dividir o butim, punir inimigos e manter quem é diferente em seu devido lugar.Barack ObamaNo entanto, o fato é — continuou Obama — que “não acredito que essa seja a história da América que prevalecerá no final. [...] Continuo convencido de que a esmagadora maioria dos americanos [...] não busca raiva e divisão perpétuas. Eles buscam justiça, bom senso e respeito mútuo; lá no fundo, queremos encontrar uma maneira de nos voltarmos uns para os outros novamente, em vez de nos afastarmos ainda mais”.Portanto, democratas, eis a missão de vocês: não deixar que Trump os provoque a ponto de cair na raiva cega e em ideias extremas. Ele se alimenta disso. Concentrem-se apenas em como ele tem explorado a todos nós enquanto nos divide. E em como os democratas pretendem unir o país inteiro.PublicidadePorque esta terra foi feita para você e para mim.
Opinião | Trump celebrou a si mesmo no 4 de julho depois de passar a perna nos americanos
Num dia em que se celebrava a harmonia, Trump cantou a música: “Esta terra pertence a mim e aos meus”











