Empresas planejam colocar 1,7 milhão de objetos em órbita, o que comprometeria a capacidade de novos supertelescópios, afirma Observatório Europeu do Sul 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fotografia de longa exposição mostra trilhas de satélites que cruzaram céu do Atacama no período de uma hora — Foto: F. Kamphues, ESO/M. Kornmesser RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 09:43 Ameaça de Satélites: Astronomia Moderna Sob Risco de Extinção Estudo do Observatório Europeu do Sul alerta que o aumento de satélites em órbita pode inviabilizar a astronomia moderna. Com planos para 1,7 milhão de objetos orbitais, a poluição visual comprometeria supertelescópios como o VLT e o Observatório Vera Rubin. Empresas como SpaceX e Reflect Orbital, que planeja espelhos orbitais, intensificam preocupações. Limitar satélites a 100 mil e proibir espelhos são soluções sugeridas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A poluição visual causada por redes de satélites está aumentando exponencialmente, e os planos de lançamentos de um pequeno grupo de empresas podem inviabilizar a astronomia moderna. Essa foi a conclusão de um novo estudo do Observatório Europeu do Sul (ESO), a maior rede de supertelescópios terrestres, que simulou o que pode acontecer com o céu em uma ou duas décadas diante do aumento previsto de orbitadores. Os quase 15 mil satélites que existem em órbita hoje já estão prejudicando os grandes telescópios do mundo, que requerem um céu mais escuro para observar objetos distantes e de luz tênue. Cerca de dois terços dos satélites existentes agora são pequenos dispositivos do sistema Starlink, da SpaceX de Elon Musk, que são extremamente brilhantes apesar do tamanho. Além disso, novas concorrentes estão entrando no setor, prevendo lançar grandes frotas desses objetos, que podem somar mais de 1,7 milhão. Com essa quantidade de objetos no céu, as trilhas de luz interferindo em observações e a luminosidade residual que eles provocam na alta atmosfera vão afetar a sensibilidade da maioria dos instrumentos sofisticados usados em astronomia hoje, afirma a pesquisa realizada pelo astrônomo Olivier Hainaut. Segundo sua projeção, o Very Large Telescope (VLT), do ESO, o maior telescópio do mundo, que fica no deserto do Atacama, perderia até 28% do seu campo útil de observação. O Observatório Vera Rubin, que acabou de ser inaugurado equipado com a maior câmera do mundo para remapear todo o céu austral, teria mais da metade de suas imagens comprometidas. Ambos são projetos no Chile que receberam investimentos na escala dos bilhões de dólares de Estados Unidos e Europa, mas podem ter seus objetivos comprometidos. Espelhos no céu Os problemas futuros, segundo Hainaut, não estão só nos planos da SpaceX, mas de um punhado de outras empresas que pretendem lançar também grandes constelações de pequenos satélites de comunicação, gerando concorrência para a SpaceX, que vende serviço de internet. Entre planos citados na pesquisa estão o da rede CTC-1 da China, e da rede Cinnamon, da franco-americana E-Space. Um problema particularmente preocupante para astrônomos é a tecnologia inventada pela Reflect Orbital, da Califórnia. Essa empresa está construindo uma constelação de espelhos orbitais para refletir raios solares para a Terra após o anoitecer, essencialmente vendendo "luz solar sob demanda" para grandes eventos como shows e competições esportivas. Cada satélite desses carregará um espelho gigante de 18 metros de largura a uma altitude de aproximadamente 600 a 650 km, e deve refletir luz numa área de cinco quilômetros de diâmetro no solo. Esses orbitadores serão visíveis como estrelas hiperbrilhantes em movimento, com luminosidade comparável à da Lua cheia. Em seu estudo, Hainaut propõe que a frota de satélites em órbita baixa seja limitada a no máximo 100 mil objetos, e que satélites-espelho como os da Reflect Orbital sejam proibidos. Segundo o pesquisador, o ideal é que satélites sejam construídos com materiais opacos, o que alguns modelos da SpaceX estão fazendo, mas não todos. A magnitude visual de cada um desses objetos a 550 km de altitude não deve passar de 7, que é o máximo para não saturar os sensores de telescópios como o VLT e o Vera Rubin, propõe o astrônomo. "Este estudo enfocou apenas a astronomia óptica, considerando efeitos diretos dos rastros de satélites que cruzam o campo de visão e efeitos indiretos da poluição luminosa difusa e dispersa, mas as constelações de satélites também afetam as observações de rádio e em ondas milimétricas", escreveu Hainaut. "Além da astronomia, essas constelações levantam preocupações sobre a superlotação orbital, detritos espaciais e poluição atmosférica proveniente de lançamentos e reentradas." Tinta opaca Pressionada por astrônomos desde 2019, a SpaceX foi a primeira empresa a reagir as críticas, e começou a usar um tipo de tinta antirreflexiva em seus novos satélites, o que cortou a reflexividade pela metade, aproximadamente. Essa cobertura especial provocou problemas de superaquecimento em alguns satélites, porém, e a empresa está estudando outras medidas. A Reflective Orbital afirma em seu site que está tomando medidas para mitigar o impacto de seus futuros satélites. A empresa promete estabelecer zonas de exclusão para seu serviço perto de grandes observatórios, compartilhamento de posição de seus satélites. "Nosso serviço é limitado a uma área definida e em horários predeterminados", diz a empresa, em comunicado. "O refletor é motorizado e direcionável, garantindo que a luz refletida seja visível apenas na área desejada." Disputa regulatória Essas medidas, contudo, não devem cancelar todo o impacto previsto das grandes constelações de satélite no céu, diz o ESO. Segundo Hainaut, mesmo evitando saturar detectores dos telescópios, a luz difusa que a presença dos satélites gera afeta a sensibilidade dos instrumentos. O ESO e outros grandes centros de pesquisa em astronomia afirmam estar atuando agora junto à Comissão Federal de Comunicações (FCC), órgão regulador dos EUA, para que projetos de auto-impacto sejam barrados ou obrigados da tomar medidas de contenção. "A astronomia gera um enorme valor para a Humanidade, incluindo benefícios científicos, técnicos, econômicos e educacionais, e nos ajuda a compreender nosso lugar no Universo", afirmou Xavier Barcons, diretor-geral do ESO, em comunicado. "O grande número de satélites planejados para a órbita baixa da Terra representa um desafio para essa capacidade."