Em linha com o movimento positivo da segunda metade de 2025, o ano dos investimentos começou com a bola toda. Mas a extensão por mais de três meses da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã fez ela murchar. O principal índice da Bolsa brasileira, que chegou a registrar 23,5% de alta de janeiro até a metade de abril, encerra o primeiro semestre com apenas 6,6% de valorização. O valor é semelhante ao do CDI, taxa semelhante à Selic e que baliza diversos investimentos de renda fixa, que acumula alta de 6,8% no ano. O saldo é reflexo da mudança de rota de investidores ao redor do mundo diante da nova postura de bancos centrais das principais economias, que precisaram revisar sua trajetória de política monetária. É justamente este novo sentido que tem minguado as aplicações mundo afora. Para o segundo semestre, a proximidade com as eleições devem dar um toque a mais na volatilidade, avaliam analistas. O semestre nas aplicações Renda fixa valorização (em %) Moedas valorização (em %) CDI 6,79 Dólar -5,82 Poupança 4,04% Euro -8,49 CDB 5,3% Bitcoin -33,3 Renda variável Bolsas americanas Ibovespa 7 S&P 500 9,48 Small caps -3,97 Nasdaq 12,6 IFIX 1,15 Dow Jones 8,92% Metais Ouro -6,8 Recalculando rota Até o início de março, a tônica era dada pela expectativa de redução na taxa dos Estados Unidos, dando continuidade na desvalorização do dólar e fomentando a saída dos investimentos do país em busca de retornos maiores. O mercado financeiro esperava duas reduções por lá ao longo do ano. A descrença com a inteligência artificial também promoveu a redução da exposição a esses investimentos. Mas tudo mudou de março para cá. Veio o conflito, o preço do petróleo ultrapassou os US$ 100 e passou a ditar o rumo dos mercados. Com o avanço do barril, o custo de vida por todos os países do mundo aumentou. A consequência direta é a inflação, que enseja juros mais altos para ser combatida. Nos EUA, já se fala em aumento do juro em setembro. O ingresso do investidor estrangeiro na Bolsa brasileira, que estava dando a tônica dos sucessivos recordes, chegou aos R$ 65 bilhões, mas agora beira os R$ 33 bi: — Um conjunto de fatores promoveu a queda, como a reprecificação do ciclo da taxa de juro dos EUA e de um ciclo de queda menor no Brasil — diz Alessandro Sant’Anna, da gestora ARX. Os juros americanos funcionam como um ímã: se a taxa está alta por lá, o capital global tende a aportar nos títulos públicos dos EUA, considerada uma das aplicações mais seguras do mundo. Se há queda do juro, esse capital global procura outras geografias e investimentos que tendem a dar mais retornos. O peso dos juros também deve impactar as bolsas americanas, diz o Bank of America, que prevê três altas na taxa por lá ainda este ano, “refletindo uma inflação mais persistente e um mercado de trabalho ainda apertado”. Para o S&P 500, índice que reúne as 500 maiores empresas dos EUA e que já acumula alta de 9,2% este ano, o banco americano estima uma redução do ímpeto, para um saldo ao fim de 2026 a 3,7%. O fim do conflito e a perspectiva de juros maiores nos EUA também levam o dólar, que chegou aos R$ 4,89 em maio, ao patamar dos R$ 5,20 novamente. — Como somos exportadores de petróleo, o barril mais alto beneficia bastante a entrada de divisas ao Brasil. Mas, com ele se aproximando dos US$ 70 novamente, perdemos a atratividade da moeda — disse Gabriel Costa, estrategista de investimentos do Santander, que vê a moeda voltar a ganhar força com a expectativa de alta de juros lá fora e o retorno das apostas em inteligência artificial. Considerado porto seguro dos investidores, o ouro, que teve impressionante valorização de 64% em 2025, agora vê correção. Nos seis últimos meses, o metal desvaloriza 7%. Mauriciano Cavalcante, da Ourominas, também vê impacto da taxa americana: — Os juros americanos são um dos fatores que mais fizeram a mudança de mentalidade dos investidores — avalia ele, que vê o acordo de paz no Pérsico como fator que pode contribuir para a queda dos juros globais e retorno da valorização do ouro. O bitcoin também amargou queda profunda, de 33% na primeira metade do ano. Fabrício Total, vice-presidente de negócios cripto do Mercado Bitcoin, também vê a alta dos juros nos EUA como fator que tira a atratividade do ativo de risco: — Esse cenário pesa sobre o Bitcoin porque juros mais altos fortalecem o dólar, tornam os títulos públicos americanos mais atraentes e reduzem o apetite por ativos mais voláteis — disse ele. Para o segundo semestre, Tota ainda vê volatilidade para a criptomoeda, mas afirma que “historicamente, os melhores ciclos de retorno do bitcoin costumam começar justamente quando o mercado parece mais desconfortável”. Volatilidade à frente A aproximação das eleições presidenciais, no entanto, devem impor volatilidade aos ativos no segundo semestre, e o humor pode mudar a cada nova pesquisa eleitoral. Segundo Sant’Anna, da ARX, um ímpeto de um candidato da oposição frente à situação pode “contribuir para uma precificação mais favorável da curva de juros”, o que deve levar à valorização dos ativos. E o contrário é verdadeiro. O mercado financeiro enxerga em candidatos da oposição maiores chances de reverter a escalada da trajetória entre a dívida pública e tudo que a economia brasileira produz. Segundo o Instituto Fiscal Independente, do Senado, a previsão é que a relação alcance 82,7% do PIB ao fim deste ano, e 86,2% no fim do ano que vem. Esse crescimento enseja juros maiores para o refinanciamento da dívida pública. E juros maiores prejudicam os ativos em Bolsa, já que o endividamento das companhias tende a crescer, resultando em menores retornos aos acionistas. No ambiente macroeconômico, juros maiores também tendem a frear a economia, reduzindo o consumo das empresas. Mas, se a Bolsa diminuiu seu ímpeto e tende a sofrer mais com o vaivém do ciclo eleitoral, a renda fixa segue surfando no alto patamar da Taxa Selic. Mesmo após o ciclo de flexibilização, que trouxe a Taxa de 15% para 14,25% ao ano, os rendimentos dos títulos seguem atraentes. Até aqui em 2026, os investimentos que perseguem a taxa básica já registraram valorização de 6,73%. Mas os títulos atrelados à inflação estão pagando juros recordes, acima de 8% ao ano mais a correção do aumento de preços. — O Copom deve dar sequência para o corte de juros, mas a margem para esses cortes estão cada vez mais difíceis por conta da inflação — avalia Larissa Frias, planejadora financeira do C6 Bank, que vê a força do dólar no exterior também contribuindo com a tendência de menor flexibilização nas nossas taxas locais. — O próprio cenário eleitoral é um fator que movimenta mais o mercado e dá muita incerteza. No segundo semestre, o termômetro vai oscilar um pouco mais diante de mais pesquisa e mais especulações. Apesar da turbulência, Larissa lembra que o investidor precisa ter em mente em qual prazo ele pretende resgatar aqueles investimentos. — Existem inúmeras opções na renda fixa, e nem todos são conservadores. É preciso entender se as características estão adequadas ao momento de vida do investidor, com liquidez que precisa (prazo para resgate) — ela diz. Para quem não deseja investir em títulos, CDBs ou debêntures separadamente, mas quer ter exposição à renda fixa, a grande opção são os fundos de investimento da classe. Para ela, a gestão profissional, “que possuem conhecimento e experiência para fazer um trabalho pelo investidor”, garantem o aproveitamento das taxas em patamar alto. Menos atraente e igualmente segura aos títulos do Tesouro, a caderneta de poupança rendeu pouco mais de 4% no ano.
Bolsa empata com renda fixa: veja a performance dos investimentos na primeira metade de 2026
Em um semestre marcado pela guerra, expectativas de juros mais altos e eleições devem manter atratividade da renda fixa, que remunera a níveis recordes








