A XP manteve uma visão de valor justo do Ibovespa nos 205 mil pontos no fim de 2026. O tom do relatório da casa, no entanto, passa longe do otimismo e admite que o mercado deve se tornar "menos favorável para as ações" no segundo semestre deste ano. O potencial de alta de cerca de 20% do índice viria de uma correção nos preços das ações que têm um comportamento semelhante à renda fixa. A equipe da XP entende que a brecha para entrada na bolsa está nas ações de empresas pagadoras de dividendos, exportadoras de commodities (receitas dolarizadas, portanto), com geração de caixa previsível e baixa dependência de crédito doméstico. O índice negocia hoje a um preço que corresponde a pouco mais de 8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses (indicador conhecido como P/L), abaixo da média histórica de 11 vezes, enquanto o indicador proprietário de sentimento da XP bateu zero numa escala de zero a cem, nível que classifica o clima na bolsa como "pessimismo extremo". Esse termômetro de sentimento na bolsa da XP compila sete indicadores de mercado e uma pesquisa com agentes autônomos. O estrategista-chefe da casa, Fernando Ferreira, explica que o índice se torna uma boa referência quando está em níveis extremos, quando ele atua como um contrariante. “Isso significa que, quando estamos num período de extremo otimismo - como no fim de fevereiro, quando o termômetro bateu 100 -, o mercado tende a corrigir nas semanas seguintes. E a última vez que esse indicador bateu zero, nível em que o mercado está agora, de extremo pessimismo, foi em janeiro de 2025”, explica Ferreira. Naquela época, a discussão sobre dominância fiscal pressionou o Ibovespa para baixo e dólar acima dos R$ 6,20, o que provocou a debandada dos investidores institucionais da bolsa brasileira. O estrategista-chefe vê paralelos com o momento atual no mercado de ações, especialmente no cenário tático, em que o crescimento das posições vendidas no índice (apostando na queda) começou a pesar. “Por isso, do ponto de vista técnico, acreditamos que há espaço para um repique do Ibovespa tendo em vista uma movimentação tática nas próximas semanas e até nos próximos meses”, diz. Por que a XP vê oportunidade em meio ao pessimismo? Ferreira separa o cenário macroeconômico do micro: "As projeções do Ibovespa, tanto para 2026 quanto para 2027, estão bastante estáveis e foram revisadas para cima nos últimos meses. A parte micro - das teses para as companhias - continua relativamente sólida. A média de alavancagem [leia-se endividamento das companhias] estabilizou num patamar que não preocupa." Já é uma questão pacificada que a pressão baixista sobre os preços na bolsa brasileira vem do cenário econômico - juros altos, fluxo em queda, temor de mais volatilidade com a eleição. A questão que divide investidores e especialistas hoje é quão ruim a situação ainda pode ficar - e o quanto disso já está nos preços. Para a XP, que está no grupo dos otimistas (ou menos pessimistas) no mercado financeiro, se o macro melhorar (ou ao menos parar de piorar), os preços tendem a se ajustar aos lucros. E é sobre essa tese que a casa construiu seu cenário para o resto do ano. A bolsa saiu do melhor regime histórico, com a inflação e os juros caindo ao mesmo tempo, e está migrando para um campo adverso. Neste momento, os ativos refletem os ajustes de um horizonte de pausa nos cortes de juros em breve. Há agentes que defendiam a interrupção do ciclo de alívios na Selic na última reunião do Copom (na semana passada), mas a XP ainda trabalha com mais dois cortes e pausa só em setembro. Ferreira pondera que o mercado, apesar de mais negativo, não está discutindo juros subindo no Brasil. “Estamos discutindo quantos cortes mais o Copom vai fazer. Mesmo que pare em 14% ou 14,5% [patamar atual], existe espaço para o Banco Central voltar a cortar a Selic a partir de 2027. Por isso, não estamos mirando o pior cenário para a bolsa." A carteira ideal - segundo a XP "Na bolsa, seguimos preferindo papéis de qualidade, setores mais defensivos, empresas com alta previsibilidade de geração de fluxo de caixa e boas pagadoras de dividendo", defende o estrategista-chefe. "Os papéis mais parecidos com renda fixa, quer dizer, que pagam altos dividendos e têm maior previsibilidade, são os que têm tido a melhor performance." A equipe liderada por Ferreira tem as suas escolhidas para enfrentar o mar mexido do segundo semestre. No setor de óleo e gás, a equipe prefere a ação da Prio, considerando que a produção da companhia está crescendo com Wahoo e Peregrino, e o fluxo de caixa deve subir mais de 20% ao ano, o que reforça a expectativa de a empresa iniciar o pagamento de dividendos em 2026. Entre os grandes bancos, a escolha é pelo Itaú, que segundo o relatório é o tipo de empresa “que ganha em qualquer cenário”. Os analistas apontam, entre as fortalezas do banco, um retorno sobre patrimônio consistente, provisões sob controle e dividendos previsíveis. Assim, a ação se encaixa perfeitamente na descrição de Ferreira do "papel parecido com renda fixa" na bolsa. Entre as exportadoras, a XP dá preferência à Suzano no setor de papel e celulose, considerando que se trata da maior produtora do mundo, que trabalha com custos competitivos e tem a receita 100% em dólar. É uma posição de perfil defensivo em um cenário de elevada incerteza doméstica. No setor de siderurgia, a Gerdau é preferida, em detrimento da Usiminas considerando que a operação da companhia nos Estados Unidos se torna uma fortaleza em meio aos tarifaços de Donald Trump e a inflexão no Brasil com preços e margens melhores. Em mineração, a Aura Mineral reflete a aposta da casa para se expor na bolsa brasileira à tese do ouro, que tem se valorizado com incerteza global e elevado endividamento governamental, enquanto a Vale é vista como uma posição defensiva no cenário de piora do risco Brasil, já que se trata do papel mais líquido da bolsa e bom pagador de dividendo. As elétricas entram no portfólio da XP para o segundo semestre com o nome da Equatorial. O setor tem receita regulada, por isso se torna quase imune ao ciclo econômico, mas ainda funciona como opção flexível - se a Selic voltar a cair em 2027, esses papéis se reavaliam significativamente. Mesmo num ambiente de juros elevados por mais tempo e crescimento doméstico incerto, a XP abre espaço na carteira para setores atrelados à economia interna. A casa defende alguns nomes, no entanto, que dependem menos do ciclo de crédito e mais de fundamentos estruturais. Na construção civil, a preferência recai sobre o segmento de baixa renda, representado pela Cury. A construtora opera com recursos do FGTS e programas habitacionais, o que a isola da Selic - e isso se reflete nos números: margens acima de 40% e velocidade de vendas superior a 50%. Em tecnologia, a XP enxerga oportunidade na Totvs, que acumula queda de mais de 30% motivada pelo temor de disrupção do mercado de softwares pelo avanço da inteligência artificial. Acontece que, para a casa, a reação do mercado foi exagerada. O papel negocia a 14 vezes o lucro projetado para 2027, contra média histórica de 25 vezes. No setor de transporte, duas empresas figuram nas carteiras recomendadas. A Embraer combina carteira de pedidos em patamar recorde, demanda de defesa aquecida pelo conflito global e receita dolarizada. Já a Localiza, líder em locação de veículos, apresenta crescimento simultâneo de receita e margem, sustentado por escala de difícil replicação. Em telecomunicação, a Vivo é a aposta defensiva pela geração de caixa previsível e dividendos consistentes. "São companhias que oferecem um bom carrego, com forte geração de caixa e resultados previsíveis", traz o relatório. No varejo, a XP fica ainda mais cautelosa e conservadora num setor pressionado pelo endividamento das famílias e, assim, mais vulnerável aos efeitos dos juros altos, o que restringe suas escolhas a empresas com "balanço forte, boa execução e alavancas internas". Dentro desse universo, a Lojas Renner é a favorita. Shoppings de alto padrão completam o portfólio defensivo, com o Iguatemi como nome preferido. Voltado ao público de classes A/B, o grupo combina vacância baixa e aquisições recentes. Ainda tende a estar mais imune ao ciclo de crédito justamente porque o consumidor de renda alta sofre menos com a elevação dos juros.