As mudanças climáticas impactam o mundo há décadas, mas a relação entre clima e saúde ganhou centralidade internacional com a COP28 e a recente COP30 no Brasil. Com eventos extremos mais frequentes, hospitais, unidades de atenção primária e serviços de emergência enfrentam maior demanda assistencial por doenças infecciosas, cardiorrespiratórias, arboviroses e efeitos do calor extremo. As ondas de calor podem elevar em até 8,6% as mortes cardiovasculares no país até o fim do século, segundo relatório de 2024 baseado em cenários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta 250 mil mortes adicionais anuais entre 2030 e 2050. Para responder a esses desafios, o Sistema Único de Saúde (SUS), hospitais e operadoras aceleram investimentos em infraestrutura resiliente, telemedicina e inteligência artificial. Segundo Nelson Gouveia, professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde já aparecem no aumento das ondas de calor, na piora da qualidade do ar e na maior frequência de desastres. “A combinação de altas temperaturas, poluição e queimadas agrava doenças respiratórias e cardiovasculares, enquanto enchentes e secas prolongadas ampliam riscos sanitários no país”, afirma. Nelson da Cruz Gouveia, professor da FMUSP: Mortes associadas ao calor na América Latina devem mais que dobrar entre 2045 e 2054 — Foto: Foto: Divulgação Os episódios de calor provocam desidratação, descompensações cardíacas e agravamento de doenças respiratórias, mas esses casos raramente são associados às altas temperaturas nas estatísticas hospitalares. “O diagnóstico registrado é cardíaco, mas muitas vezes a origem está relacionada ao calor extremo”, diz. Estudo liderado por Gouveia na FMUSP mostra que a proporção de mortes associadas ao calor na América Latina deve mais que dobrar entre 2045 e 2054, passando de 0,87% para 2,06% do total de óbitos. Para o professor, o desafio é preparar serviços e profissionais para reconhecer e lidar adequadamente com eventos ligados ao calor. A FMUSP incorporou mudanças climáticas à formação médica, incluindo treinamento para identificar eventos ligados ao calor extremo. Os efeitos da crise climática vão além do aumento de atendimentos. Para Goret Paulo, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), eventos extremos podem interromper entre 25% e 50% do funcionamento dos serviços de atenção primária na América Latina, com recuperação da rede entre um e cinco anos. As perdas econômicas na região variam entre US$ 7 bilhões e US$ 37 bilhões. Goret também destaca os efeitos menos visíveis da crise climática. Pesquisa da FGV sobre o impacto da estiagem no semiárido nordestino mostrou que o agravamento das secas aumenta a distância percorrida por gestantes até as cisternas. “Muitas precisam caminhar distâncias maiores e carregar recipientes de até 20 litros no retorno. Esse esforço físico está associado ao aumento de nascimentos prematuros e bebês com baixo peso”, relata. Segundo ela, o teleatendimento pode garantir a continuidade da assistência em áreas remotas. Nos hospitais privados, os efeitos da crise climática também já alteram a rotina assistencial. Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita, afirma que eventos extremos modificam a operação hospitalar, a demanda e o perfil epidemiológico da população. O Einstein Hospital Israelita, presidido por Sidney Klajner (foto), utiliza algoritmos para prever aumento de internações e reorganizar a rede — Foto: Foto: Egberto Nogueira/Divulgacao O Einstein acumulou experiência em situações de emergência, de epidemias de dengue à pandemia de covid-19. “Com o aumento das doenças respiratórias durante as queimadas de 2024, em um dos anos mais quentes e secos já registrados no país, o hospital precisou rever rapidamente o planejamento interno para absorver o aumento da demanda”, afirma. O médico também destaca impactos na saúde mental após desastres climáticos, incluindo ansiedade e estresse pós-traumático, além de surtos fora dos períodos historicamente esperados. Para se antecipar a eventos extremos, o Einstein utiliza algoritmos e tecnologias capazes de prever aumento de internações e reorganizar a estrutura hospitalar em sua rede, que inclui 35 unidades públicas de saúde administradas em parceria com governos municipais e estaduais, entre elas nove hospitais voltados exclusivamente ao SUS. Para Leopoldo Muniz, anestesiologista e gerente médico de qualidade corporativa da Rede D’Or, os hospitais precisam desenvolver programas mais eficientes de gestão de risco climático, indo além da reação aos desastres. “As mudanças climáticas também exigirão adaptação clínica individualizada. Pacientes hipertensos em uso de diuréticos, por exemplo, podem precisar de ajustes terapêuticos específicos durante ondas de calor”, afirma. Com 79 unidades hospitalares no país, a Rede D’Or utiliza inteligência artificial e análise de dados para antecipar impactos de eventos extremos. “Realizamos simulações de catástrofes para treinamento das equipes, já que esses eventos tendem a se tornar mais frequentes”, relata. Com presença em mais de 90% do território nacional, a Unimed do Brasil também alterou a forma de planejar assistência e gestão de risco em saúde. De acordo com Omar Abujamra Junior, presidente da cooperativa, as enchentes gaúchas reforçaram a necessidade de integrar a variável climática. “O sistema Unimed atua hoje em frentes como fortalecimento de protocolos para doenças agravadas pelo clima, ampliação da telemedicina e integração de dados para antecipar aumento da demanda”, explica. Dados da Unimed Federação (RS) mostram mudanças após as enchentes de 2024: as consultas presenciais eletivas recuaram cerca de 3,6%, enquanto a telemedicina eletiva cresceu aproximadamente 167% e a telemedicina de plantão avançou cerca de 70%. “Os eventos extremos alteram a demanda em volume e no formato do atendimento”, afirma. Para Abujamra, a diversidade territorial é um desafio permanente. “Cada região responde de forma distinta aos mesmos eventos climáticos”, diz. “Os eventos extremos alteram a demanda em volume e no formato do atendimento”, diz Omar Abujambra Junior, presidente da Unimed do Brasil — Foto: Foto: Martin Gurfein/Divulgacao Apesar de desafios como subfinanciamento e baixa articulação entre saúde, meio ambiente, saneamento e defesa civil, a agenda de saúde e mudanças climáticas ganhou força institucional no Brasil nos últimos anos. Na COP30, o país apresentou o Plano de Ação em Saúde de Belém. Segundo Agnes Soares, diretora de vigilância em saúde ambiental e saúde do trabalhador (DVSAT), a proposta só foi possível porque o país já vinha estruturando ações no SUS. Uma delas é o AdaptaSUS, que integra vigilância, prevenção e preparação dos serviços para antecipar respostas à crise climática. O Ministério da Saúde (MS) anunciou R$ 9,8 bilhões em investimentos no programa, incluindo adaptação de unidades de saúde e integração de dados climáticos e epidemiológicos para antecipar crises sanitárias. “A ideia é evitar que eventos extremos se transformem em desastres de saúde pública”, diz. Entre as iniciativas em curso está o projeto Mudanças Climáticas, Saúde e Alimentação – Rede de Comitês Populares Ambientais em Territórios das Periferias, desenvolvido em Pernambuco e na Paraíba com a Fiocruz. Com investimento de R$ 3,5 milhões, a iniciativa prevê a formação de 270 agentes populares ambientais e 135 comitês para enfrentar os efeitos da crise climática. A expectativa é expandir a iniciativa para Sergipe e transformá-la em política pública nacional. Para Idê Gurgel, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e coordenadora do projeto, os efeitos do aquecimento global atingem desproporcionalmente as populações vulneráveis. “As ondas de calor, facilmente mitigadas pelas populações economicamente privilegiadas, afetam principalmente as periferias, levando ao aumento de hospitalizações por hipertensão e agravos cardiovasculares, especialmente entre idosos e gestantes”, afirma. Ela também alerta para o avanço dos “desertos alimentares”, em que eventos climáticos elevam o preço dos alimentos frescos, forçando o consumo de ultraprocessados.
Eventos extremos desafiam o sistema de saúde a se adaptar ao 'novo normal' do clima
Com a crise climática, hospitais, unidades de atenção primária e serviços de emergência enfrentam maior demanda assistencial por doenças infecciosas, cardiorrespiratórias, arboviroses e efeitos do calor extremo













