Superlotação, escassez de profissionais, falta de insumos, demora na marcação dos procedimentos. Não são apenas os pacientes nas macas em corredores que sofrem os problemas dos hospitais públicos no Brasil. Os gestores das instituições também enfrentam deficiências e desafios para fazer funcionar operações de tão alto custo e forte impacto social. O chamado pai da administração moderna, Peter Drucker, dizia que o hospital é a mais complexa organização já criada pelo ser humano. “Entre as áreas assistencial e administrativa, um hospital envolve cerca de 15 profissões diferentes, cada uma com seu leque de especialidades”, aponta Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Mesmo percorrendo um histórico de dificuldades, fortemente agravado pela pandemia da covid-19, o cenário hospitalar público teve uma retomada expressiva no último ano. Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) abriu mais 10.057 leitos hospitalares, totalizando 360.444, número superior ao período mais agudo da pandemia. O Ministério da Saúde (MS) investiu R$ 68,8 milhões, valor dez vezes maior do que o aplicado em 2022, em custeio do componente hospitalar da Rede de Atenção às Urgências (RAU), que contempla portas de entrada (emergências 24 horas), leitos de enfermaria clínica e de UTI adulta e pediátrica. O Programa Agora Tem Especialistas superou marcas históricas, com a realização de 14,7 milhões de cirurgias eletivas (42% a mais do que em 2022) e 31 mil transplantes (21% a mais). O número de profissionais que trabalham em hospitais públicos do Brasil também aumentou. Em menos de dois anos, o SUS passou a contar com mais 77.547 trabalhadores, passando de 1 milhão (dezembro de 2024) para 1,18 milhão (março de 2026). “Essa evolução se deve, principalmente, à implementação de políticas públicas. Nós voltamos a vacinar, o governo federal lançou programas como Mais Médicos e Agora Tem Especialistas; o governo de São Paulo criou a tabela SUS Paulista. Isso é suficiente? Não, ainda falta muito, mas já indica um caminho a seguir”, diz Vecina. A necessidade de recursos para atender a uma demanda crescente — inclusive por fatores como envelhecimento da população e perda de plano de saúde privado — é um dilema comum nos hospitais públicos, independentemente da natureza jurídica: seja administração direta federal, estadual ou municipal; instituição privada 100% SUS e administrada por Organização Social (OS); privada com atendimento predominante SUS, filantrópica e Parceria Público-Privada. E cada uma recorre a diferentes estratégias para suplementar o orçamento ou promover inovação. Um caso bem-sucedido, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) fechou 2025 com 2.611 leitos instalados, tendo realizado mais de 48 mil cirurgias. Responsável por 3,2% das internações de alta complexidade do país, opera um orçamento anual de R$ 4,4 bilhões (2025) financiados pelo Tesouro do Estado, pelo SUS (que responde por 94% dos atendimentos) e pelo Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp). “Desde 2024, abrimos mais 264 leitos de alta complexidade, atingindo uma capacidade que poucos hospitais dispõem no país”, conta Antônio José Rodrigues Pereira, superintendente do HC. Para ele, só é possível melhoria se houver políticas públicas e sustentabilidade na gestão do dinheiro público. “Aqui, nós focamos em reduzir os custos dos procedimentos, mas não há falta de materiais nem de medicamentos”, diz Pereira, acrescentando que no ano passado uma reestruturação de procedimentos elevou o faturamento médio mensal de R$ 25 milhões para R$ 35 milhões. Antonio Jose Rodrigues Pereira, superintendente do HC: Reestruturação de procedimentos elevou faturamento médio mensal para R$ 35 milhões — Foto: Foto: Divulgação Também ligado a uma renomada universidade, porém enfrentando uma realidade bem mais árdua, o Hospital Universitário da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, conhecido como Hospital São Paulo, atende 99% de pacientes do SUS e teve um incremento de dez mil cirurgias de alta complexidade de 2022 até 2025, mantendo baixa a taxa de mortalidade (em torno de 3,5%). Este foi o maior aumento entre os hospitais do Estado de São Paulo. O bom desempenho, no entanto, é mantido com muito esforço, diante da falta de profissionais por absenteísmo, greves e necessidade permanente de reformas no prédio que data de 1940, inaugurado como primeiro hospital-escola do Brasil. “O subfinanciamento é um desafio que driblamos diariamente. Nosso trunfo é o comprometimento do corpo clínico, altamente qualificado, motivado pelos alunos, residentes e pós-graduandos. Uma das ações para diminuir as filas, realizada todos os sábados, são os mutirões de cirurgias como catarata, adenoamigdalectomia e oncológicas, em que os professores operam voluntariamente, sem remuneração”, ressalta a diretora clínica do Hospital São Paulo, Jaquelina Sonoe Ota Arakaki. Ela explica que o hospital é submetido a um teto de remuneração do SUS de R$ 20 milhões: “O que fazemos além disso não é pago. Recentemente ultrapassamos o teto em R$ 3 milhões e tivemos de absorver esse extra. Mas não podemos deixar de atuar especialmente com medicina de ponta, pois somos uma instituição de ensino e pesquisa”. A diretora conta que a instituição também capta recursos por meio de projetos de pesquisa junto a órgãos de fomento nacionais e internacionais e também por meio de emendas parlamentares. Alguns hospitais conseguem negociar com o SUS para aumentar o repasse, conta Vecina. O problema, alerta ele, é o timing. “Na administração pública, tudo demora. As licitações para compra de equipamentos e materiais, as contratações de pessoal por concurso, tudo é feito em uma velocidade não compatível com as necessidades de uma atividade que lida com vidas, emergências. Por isso, a alternativa é recorrer às OS, às fundações e até às Parcerias Público-Privadas, como já há algumas pelo país”, relata o sanitarista. Das 27 unidades federativas brasileiras, 22 têm legislação para administração hospitalar por meio de OS, “que não é uma privatização, mas uma terceirização”, diz Vecina. As restrições financeiras, no entanto, não impedem que o serviço público hospitalar brasileiro se destaque em qualidade. No ranking dos melhores hospitais do mundo de 2025, feito pela revista americana Newsweek, em conjunto com a plataforma de dados alemã Statista, o Brasil figurou com cinco unidades do SUS. “Até pela capacidade de gestão de uma rede pública do porte do SUS diante da escassez, é preciso reconhecer a maestria da gestão pública”, ressalta Roberta Torquato de Souza, professora do MBA Executivo em Gestão da Saúde da Fundação Getulio Vargas. Os exemplos de excelência são muitos e estão distribuídos por todo o país. Mantidos pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, o Hospital Regional de Barbacena Dr. José Américo e o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena são referências na região, recebendo pacientes de 51 municípios do entorno. O complexo hospitalar, que atende 100% SUS com orçamento mensal de R$ 8,2 milhões, passou de 170 cirurgias mensais em 2023 para 300 mensais em 2026. Uma dessas cirurgias, realizada em janeiro deste ano, foi uma biópsia de tumor cerebral com uso da neuronavegação, tecnologia que funciona como um GPS, localizando lesões com precisão rigorosa. A técnica orienta o médico em tempo real, com exatidão, mesmo em locais profundos ou próximos a áreas críticas do cérebro. “Esse passo só foi possível porque em 2025 participamos do Programa Lean Transformação, iniciativa em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado de Saúde”, afirma Vivian Machado Miranda, diretora assistencial do Hospital Regional de Barbacena. O programa permitiu reestruturar fluxos de trabalho e otimizar recursos, o que aumentou o giro dos leitos, elevou em 51% o número de cirurgias, reduziu em 22% a permanência média dos pacientes, diminuiu em 56% os cancelamentos de cirurgias e aumentou em 39% a eficiência do bloco cirúrgico. Vivian Miranda, do Complexo Hospitalar de Barbacena: Atendimento de pacientes de 51 municípios do entorno — Foto: Foto: Divulgação No Distrito Federal, o Hospital da Criança de Brasília José Alencar dispõe de uma das modalidades mais complexas de UTI do país, especializada em cirurgias pré e pós- cardíacas e neurológicas infantis. Mantido pelo governo do Estado, em parceria com a Associação Brasileira de Assistência às Famílias e Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), em 2022 foi reconhecido como o 11º melhor hospital público do Brasil, em avaliação do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross). Em 2025, atravessando um momento crítico, precisou desativar leitos de UTI por atraso no repasse de verbas. Mas, no mesmo ano, implantou alternativas criativas de gestão para amenizar o problema. Entre outras medidas, adotou um sistema de desinfecção por indução eletrostática que pulveriza partículas em áreas de difícil acesso, como atrás de condicionadores de ar e frestas de mobiliário, em apenas cinco minutos. “Conseguimos reduzir em 50% o tempo de liberação dos leitos, permitindo otimizar a fila de espera para acesso aos procedimentos. Ou seja, mais crianças, em menos tempo, sendo atendidas com máximo padrão de biossegurança”, explica Valdenize Tiziani, diretora-executiva do hospital. Valdenize Tiziane, do Hospital da Crianca de Brasilia: Máximo padrão em biossegurança — Foto: Foto: Divulgação Na esfera nacional, os avanços também estão no radar do Ministério da Saúde, que anuncia a construção de 2.600 Unidades Básicas de Saúde (UBS), 36 novas maternidades e 30 centros de parto normal — um investimento de R$ 4,8 bilhões pelo PAC Saúde. Pelo Agora Tem Especialistas, estão previstas ainda a entrega de 26 novos centros de radioterapia e a modernização de 150 salas de cirurgia. Outro grande projeto para 2027 é o primeiro hospital público inteligente do país, previsto para funcionar no Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI-Brasil), no HC. Com uso de inteligência artificial, ambulâncias conectadas em 5G e telessaúde, a unidade deverá ter 800 leitos dedicados à emergência de adultos e crianças nas áreas de neurologia, neurocirurgia, cardiologia, terapia intensiva e outras urgências. Fruto da parceria entre o Ministério da Saúde, a USP e o governo de São Paulo, a obra contará com investimento de US$ 320 milhões do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (NDB-Brics). O investimento também financiará a criação de uma rede nacional de UTIs inteligentes em dez capitais (Belém, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Salvador e Teresina).