Com todo mundo tendo acesso a exames e hospitais, os brasileiros começaram a desdenhar do sistema público 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bandeira do SUS é carregada durante bloco no Rio de Janeiro — Foto: O Globo/O Globo Recebi um antropólogo inglês no Brasil. Eric ganhou uma bolada de dinheiro da União Europeia para seguir com suas pesquisas no Sul Global — a nova alcunha dada aos países da chamada periferia do mundo. Seus alunos partiram para Índia, Filipinas, África do Sul e Brasil com o objetivo de entender como os sistemas de cobertura médica funcionam em cada país. Estavam todos interessados em desvendar o espinhoso mercado dos planos de saúde, hospitais, médicos e pacientes a fim de descobrir as particularidades entre esses sistemas e suas diferenças em relação aos vizinhos do Norte. Vez ou outra, Eric tomava um avião para acompanhar o trabalho do time mundo afora. Até que chegou ao Brasil e me pediu uma ajuda: será que você consegue me apresentar alguns médicos para uma entrevista? Feito. No fim do dia, me ligou com uma dúvida: o que é um médico de plano? Eu ri. O português avançado não foi suficiente para lhe fazer entender a gramática cultural do país. Voltei à História. Até a Constituição de 1988, só tinha acesso à assistência médico-hospitalar pública quem estava vinculado ao Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). O atendimento era garantido apenas aos trabalhadores de carteira assinada. Quem estava na informalidade, desempregado ou em funções rurais não tinha acesso à cobertura de saúde. O SUS fez do básico um direito universal. Com todo mundo tendo acesso a exames e hospitais, os brasileiros começaram a desdenhar do sistema público. Apesar das fragilidades inerentes a qualquer serviço massificado, ninguém conseguia convencê-los da revolução liderada pelo Ministério da Saúde. Sozinho, contei histórias das experiências dificílimas vividas em hospitais no Canadá, na França e até na Dinamarca, mas nada era capaz de fazê-los mudar de ideia. Até os anos 2000, bom era o médico de plano. Eric lembrou das vezes em que, na Inglaterra, precisou chorar na triagem do atendimento para convencer os profissionais de que realmente precisava encontrar um especialista. Não foi argumento suficiente. O aumento do poder de compra aliado à formalização do mercado de trabalho permitiu o acesso de um número maior de brasileiros a hospitais privados. Em 25 anos, o crescimento foi de 70%. Hoje, um quarto da população conta com planos médico-hospitalares. Mas foi justamente na mesma época que as camadas médias urbanas começaram a acreditar que o atendimento e o serviço de um médico conveniado valiam menos do que os de um profissional pago diretamente pela consulta. E assim, nessa toada, seguimos fazendo nossas hierarquizações. Crentes de que os serviços de um profissional particular são mais efetivos do que os de um médico de plano — e de que este funciona menos ainda do que um colega do sistema público. Para além da precariedade dos hospitais do SUS ou do atendimento express dos consultórios conveniados, é certo que há mais caroço nesse angu. No Brasil, em geral, o acesso dos “de fora” aos mundos mais exclusivos implica perda de valor. Foi assim com os aeroportos, com as viagens a Buenos Aires e com um jantar no restaurante da moda. A onda segue. Ontem mesmo, ouvi duas grã-finas conversando sobre a doença do pet no Aeroporto Santos Dumont. O cachorro terá de ser operado por conta de um problema nos rins. A amiga, consternada, aconselhou: “Levou no veterinário?” “Sim.” “Particular, né?” “De plano, não serve.” “Não serve.”