Na coluna de quarta-feira, 24, foi revista a principal circunstância da era Greenspan, que foi a de comandar o Fed (banco central dos Estados Unidos) poucos anos depois do fim da paridade do dólar ao ouro, o que passou a exigir novas funções do Fed. Greenspan morreu na madrugada de segunda-feira, aos 100 anos. Dois outros fatores marcaram sua gestão. Um deles foi a invenção do chip, e do que veio depois, que o tornaram líder reconhecido de grande período de prosperidade.Fama de Alan Greenspan também se deu pela enorme redução de custos, que derrubou a inflação e gerou renda Foto: J. Scott Applewhite/AP PhotoPUBLICIDADEAo final da década de 1990, Greenspan, tão atento às estatísticas, reconhecia que não entendia a razão pela qual não havia inflação relevante, mesmo com abundância nunca vista de moeda. Pois, meses depois, ele revelou seu heureca: “Ah, sim, é o efeito da tecnologia de informação”.A trajetória de um sabonete mostra como era antes. Todos os dias, uma equipe de apontadores, planilha em punho, percorria prateleiras dos pontos de venda para verificar o nível de estoques. Uma casa comercial sem estoques corria o risco não ter mercadoria para vender e, assim, de entregar market share para o concorrente. A equipe de analistas das planilhas depois escrevia uma carta com pedido ao fornecedor, que levava tempo para ser processada. Semanas depois, despachava nova entrega de mercadoria. PublicidadeGraças ao computador e à internet, o sabonete passa no caixa do supermercado, notifica online a saída da mercadoria e aciona automaticamente a reposição. E, assim, foram dispensados pessoal, estoques, almoxarifado, maquinaria. Toda a produção passou a funcionar no regime just in time, em que a peça chega diretamente à linha de produção, na hora prevista para isso.A enorme redução de custos, assim produzida, derrubou a inflação e permitiu que um dinheiro fácil circulasse na economia, gerando renda – e a fama de Greenspan.Há outro fator. Poucos, como ele, acreditavam tanto na autorregulação dos mercados. Por isso, tratou de desregulamentar, de desburocratizar e de facilitar os negócios financeiros. Foi afrouxada a supervisão bancária, uma das funções de um banco central.Embora denunciasse a “exuberância irracional” e tratasse de a controlar, logo se viu que o mercado ficou solto demais e passou a produzir movimentos especulativos. O mais importante foi o da bolha do “crédito subprime”, espécie de pirâmide produzida com especulações com hipotecas, graças ao dinheiro farto e barato que regava o mercado.Esse megajogo desembocou na crise de 2008, a pior depois do grande crash da Bolsa em 1929, que culminou na quebra do banco de investimentos Lehman Brothers. O incêndio foi em seguida apagado pelo Fed, presidido pelo sucessor de Greenspan, Ben Bernanke, que reconheceu ter despejado dinheiro “de helicóptero”, para acabar com a secura produzida pelo sumiço de dólares.Publicidade