Alan Greenspan, o ex-presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), que entre a segunda metade da década de 1980 e o início deste século foi uma das mais influentes figuras económicas mundiais, elogiado pela forma com conseguiu durante vários anos gerir as instabilidades dos mercados financeiros, mas acusado depois de ter sido um dos principais responsáveis pela crise financeira internacional de 2008, morreu esta segunda-feira aos 100 anos de idade, avançaram diversos meios de comunicação social norte-americanos.Depois de uma carreira que o levou a ocupar cargos de destaque nas administrações republicanas lideradas por Richard Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan, o economista norte-americano tornou-se uma figura com visibilidade mundial quando este último Presidente dos EUA o nomeou em 1987 para liderar a Reserva Federal norte-americana, cargo que viria a ocupar durante mais de 18 anos, tendo sido reconduzido por três outros presidentes – George H.W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush.Ao longo daqueles anos, conquistou a imagem de "maestro" da economia mundial devido à forma como, com cada palavra que dizia, parecia capaz de influenciar o comportamento dos agentes económicos e dos mercados financeiros. O período em que esteve à frente da Fed foi quase sempre de crescimento económico elevado para os EUA e, principalmente, de grandes ganhos para os investidores nos mercados accionistas.Logo no início do seu mandato, teve de lidar com a segunda-feira negra de 1987 em Wall Street, respondendo à queda abrupta dos valores das acções, injectando liquidez de forma rápida no sistema para conter o pânico.Começou a nascer aí aquilo a que se veio a chamar o "Greenspan Put", isto é, a percepção nos mercados de que a Fed cortaria sempre as taxas de juro para resgatar os mercados financeiros se estes entrassem em quebra acentuada. Foi com esta receita que conseguiu estabilizar os mercados em cenários como os da crise de 1997 na Ásia, do colapso do fundo LTCM (1998) ou dos atentados do 11 de Setembro de 2001.Em 1996, ainda surpreendeu quando usou a expressão "exuberância irracional" para se referir ao entusiasmo que se vivia então nas bolsas com o aparecimento das empresas ligadas à Internet, mas a verdade é que acabou por sair criticado pela forma como o seu hábito de resgatar Wall Street sempre que as acções caíam tinha habituado os investidores a assumirem riscos, muitas vezes excessivos e irresponsáveis.A principal mancha no seu legado acabou por surgir já depois de abandonar a Fed em 2006. Alan Greenspan é apontado como um dos principais responsáveis pela crise financeira global de 2008 nascida dos contratos de crédito imobiliário subprime nos EUA.Não só por, a seguir ao rebentamento da bolha especulativa das dot.com, ter mantido as taxas de juro a níveis muito baixos, dando incentivos ao endividamento para compra de casa, mas também por, como seguidor da filosofia libertária de Ayn Rand, ter adoptado uma ideologia de total desregulação no sistema financeiro, permitindo o surgimento de novos e complexos produtos financeiros derivados quase sem regulação.O próprio Alan Greenspan, algumas semanas após a falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, admitiu no Congresso norte-americano ter ficado "chocado" por constatar que a ideologia de mercados livres e o modelo de autorregulação por si defendidos terem revelado falhas. "Encontrei uma falha no modelo que eu percepcionava como a estrutura de funcionamento crítica que define como o mundo funciona (...) A ideologia é precisamente isso: um enquadramento conceptual sobre a forma como as pessoas lidam com a realidade. Toda a gente tem uma. É preciso ter uma para viver. A questão é: ela está certa? E o que eu estou a dizer-vos é: sim, encontrei uma falha. Não sei quão significativa ou permanente é, mas isso deixou-me muito angustiado”, afirmou Greenspan, num dos momentos mais difíceis para os defensores do laissez-faire em Wall Street e na economia mundial.Nos anos seguintes à crise, um pouco por todo o mundo, assistiu-se a um reforço dos mecanismos de regulação no sistema financeiro, movimento que agora a administração de Donald Trump tenta reverter nos EUA.
Greenspan, maestro dos mercados e ideólogo da desregulação, morre aos 100 anos
Depois de ter contribuído, como presidente da Fed, para um dos períodos de maior criação de riqueza nos mercados, acabou por ser visto como um dos responsáveis pela crise financeira de 2008.










