A morte de Alan Greenspan, aos 100 anos, encerra uma biografia excepcional. Por quase duas décadas à frente do Fed, entre agosto/1987 e janeiro/2006, ele conduziu a economia americana como um maestro, combinando técnica, intuição e tempestividade. Mas seu legado, à luz da crise de 2008, é ambivalente e oferece muitas lições para a atualidade.

A primeira lição é sobre comunicação. Greenspan usava a palavra não para assumir compromissos explícitos, mas para gerir expectativas mantendo margem de manobra. Seu estilo enigmático era uma escolha: evitava previsões rígidas e mantinha flexibilidade para reagir a novas informações.

Isso contrasta com o regime posterior de maior transparência e forward guidance (sinalização futura) de Bernanke em diante, que fez sentido para lidar com os efeitos duradouros da crise de 2008. Nesse ponto, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, ao defender uma comunicação enxuta, retoma a intuição de Greenspan: projeções detalhadas podem criar compromissos pouco úteis no atual contexto, apenas limitando a capacidade de ajuste da política monetária.

A segunda lição é que choques tecnológicos alteram a política monetária ótima. Greenspan percebeu, nos anos 1990, que a difusão da computação e da internet elevava a produtividade, ampliava a oferta potencial e reduzia o juro de equilíbrio. Por isso, resistiu à pressão por altas preventivas de juros.